Veloz mente

Do Médio Oriente ao Big Brother. D'O Código da Vinci ao futebol. Da Internet a Berlusconi.
O início do terceiro milénio visto à lupa pelo mais conceituado pensador e romancista da actualidade.
Os escritos reunidos neste livro foram publicados entre o início de 2000 e o final de 2005, os anos do 11 de Setembro, das guerras no Afeganistão e no Iraque, da instauração de um regime de populismo mediático em Itália.
Ao lê-los, o leitor comprovará que desde o fim do último milénio temos vindo a caminhar para trás a um ritmo dramático. A seguir à queda do Muro de Berlim foi necessário desenterrar os mapas de 1914. As nossas famílias voltaram a ter empregados de cor, como em E Tudo o Vento Levou. A pouco e pouco, o vídeo fez com que a televisão se pudesse converter num cinematógrafo e, graças à ajuda da Internet e das pay-tv, Meucci levou a melhor sobre Marconi e a sua telegrafia sem fios. Agora, o i-Pod reinventou a rádio.
Terminada a Guerra-Fria, os conflitos no Afeganistão e no Iraque fizeram-nos regressar à Guerra Quente; desenterrámos o Grande Jogo de Kipling e voltámos aos tempos do choque entre o Islão e a Cristandade, com os novos assassinos suicidas do Velho da Montanha e os gritos de «socorro, os Turcos!».
Apareceu outra vez o fantasma do Perigo Amarelo, ressurgiram as disputas entre a Igreja e o Estado, a polémica anti-darwiniana do século XIX e o anti-semitismo, e o nosso país voltou a ser governado pelos fascistas (muito post, é certo, mas alguns indivíduos ainda são os mesmos).
Quase que parece que a História, cansada das confusões dos últimos dois mil anos, se está a enrolar em si própria, caminhando velozmente a passo de caranguejo.
Este livro não pretende explicar o que é que devemos fazer para reencontrar a direcção certa, propõe-se apenas travar por alguns instantes este movimento retrógrado.
A Passo De Caranguejo, de Umberto Eco ● DIFEL ● ISBN: 9722908245 ● 2007

Ithaka

As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.

Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.
by C.P. Cavafy

Sabes a que horas passa a verdade? E a mentira?

O futuro segundo um dos nomes fortes da literatura inglesa contemporânea. Ballard aborda dois dos seus temas preferidos: o mito dos media e a crise da sociedade da abundância, com a consequente perda de valores. O ponto de partida é uma explosão no aeroporto de Heathrow, em Londres, Inglaterra. Um psicólogo descobre que alguém próximo está entre as vítimas e começa a investigar o crime. O ponto de chegada é um grupo que incita à revolução da classe média.

Um fragmento de vidro escorregou da moldura e feriu-me a palma, cortando levemente a linha da vida. Enquanto fitava a mancha brilhante e procurava o meu lenço, dei-me conta que este era o único sangue que derramara em Chelsea Marine durante toda a rebelião.
Uma bomba no aeroporto de Heathrow em Londres parece ao psicólogo criminal David Markham apenas mais um acto isolado de violência gratuita até que descobre que a sua ex-mulher está entre as vitímas. No encalço das suspeitas policiais, Markham decide investigar o crescendo de grupos de protestos londrinos, acabando por conhecer um estranho movimento sediado na rica e confortável marina de Chelsea. Dirigido por um médico carismático, o objectivo deste grupo é fazer acordar a dócil classe média libertando-a dos fardos auto-impostos da responsabilidade e do serviço cívico. Uma meta que irá lançar o caos na capital inglesa. James Graham Ballard nasceu em Xangai, mas será em Inglaterra que completará o curso de medicina e iniciará a sua carreira de escritor. Autor de culto, os seus livros são frequentemente classificados na área da ficção científica, combinando sexo e tecnologia enquanto parte de uma descrição psicoanalítica da moderna condição humana.

Os últimos três romances de J.G. Ballard falam obsessivamente da mesma coisa: a necessidade de violência na sociedade contemporânea. Em "Noites de Cocaína", passado numa estância turística de luxo no Sul de Espanha, Estrella del Mar, um professor de ténis visionário descobre que o crime é a única forma de despertar o sentido cívico e recuperar o amor pela vida. Em "Super-Cannes" (ainda não traduzido em português) um psiquiatra foi incumbido de tratar a depressão crónica dos executivos da "Sillicon Valley" europeia. Prescreve-lhes uma forma de desporto muito eficaz para a saúde física e mental: atacar violentamente cidadãos imigrantes. Em "Gente do Milénio", a classe média de um bairro londrino, Chelsea Marina, cansada do seu estilo de vida demasiado perfeito e monótono, desencadeia uma sangrenta revolução.

E assim se vive. Em Macau a luz está clara, o horizonte limpo. Mais um dia na Bloom onde pode encontrar Ballard no original, em inglês, e na tradução, a língua de Camões, o grande poeta zarolho. Tudo em tempo de revolução, a 60 e tal minutos à hora.

Gente do Milénio de J.G. Ballard ● QUETZAL

Short Story Masters - 1

Hanging Out at the Buena Vista ( I )

From When the Women Come Out to Dance, by Elmore Leonard

They lived in a retirement village of cottages set among palm trees and bougainvillea, maids driving golf carts. The woman, Natalie, wore silk scarves to cover what was left of her hair, a lavender scarf the afternoon Vincent appeared at her door. He told her through the screen he thought it was time they met. She said from the chair she sat in most of the day, “It’s open,” closed the book she was reading, a finger inside holding the page, and watched him come in his khaki shorts and T-shirt.
“You didn’t have to get dressed up on my account.”
She liked his smile and the way he said, “I was right. I’ve found someone I can talk to.”
“About what ?”
“Anything you want, except golf.”
“You’re in luck. I don’t play golf.”
“I know you don’t. I checked.”
She liked his weathered look, his cap of white hair, uncombed. “You’re here by yourself ?”
“On my own, the first time in fifty-seven years.”
She lay the book on the table next to her. “So now you’re what, dating ?”
He liked the way she said it, with a straight face.
“If you’re interested, Jerry Vale’s coming next week.”
“I can hardly wait.”
He said, “I like the way you wear your scarves. You’ve got style, kiddo.”
“For an old broad ? You should see me in a blond wig.”
“a woman can get away with a good one. But you see a rug on a guy, every hair in place ? You can always tell.”
“That’s why you don’t comb your hair ?”
Again with a straight face. He shook his head.
“I made a decision,” Vincent said. “No chemo, no surgery. Why bother ? I’m eighty years old. You hang around too long, you end up with Alzheimer’s like Howard. You know Howard ? He puts on a suit and tie every day and calls on the ladies. Has no idea where he is.”
“Howard’s been here. But now I think he and Pauline are going steady. Pauline’s the one with all the Barbie dolls.” Natalie paused and said, “I’ll be eighty-two next month.”
“You sure don’t look it.”
“Not a day over, what, seventy-five ?”
“I’ll tell you something,” Vincent said. “You’re the best-looking woman here, and that’s counting the maids and the ones that pass for nurses. Some are okay, but they all have big butts. You notice that ? Hospitals, the same thing. I’ve made a study : The majority of women who work in health care are seriously overweight.”
“You’ve spend a lot of time in hospitals ?”
“Now and then. No, this is the closest I’ve come, this assisted living. Or as it says in literature, “The gracious and dignified living you deserve. As long as you can afford it, live in your own prefab cottage. I did all right with prefab, built terraces, row housing. Some, it turned out, in the wrong place. Andrew came along and blew’em of the lot.” He said, “I know you were married. What’d your husband do ?”
“Commercial real estate.”
“I might’ve known him.”
“In New York City.”
There was a lull. Vincent glanced around the room, at furnishings from another life, expensive-looking pieces.
“You’re happy here ?”
“Am I happy ?”
“I mean, do you like living here ?”
“It’s all right.”
He waited before saying, “Are you in pain ?”
“I have my pills.”

Studying literature

Theory of the Novel. Introducing a Charater. The Art of Fiction by David Lodge - CHAPTER 14

Yet character is problably the most difficult aspect of the art of fiction to discuss in technical terms. This is partly because there are so many different types of character and so many different ways of representing them. [...]
We better read and memorize the master, James Joyce, in A Painfull Case, Dubliners:

1. Mr Duffy abhorred anything which betokened physical or mental disorder. A mediaeval doctor would have called him saturnine. His face, which carried the entire tale of his years, was of the brown tint of Dublin streets. On his long and rather large head grew dry black hair and a tawny moustache did not quite cover an unamiable mouth. His cheekbones also gave his face a harsh character; but there was no harshness in the eyes which, looking at the world from under their tawny eyebrows, gave the impression of a man ever alert to greet a redeeming instinct in others but often disappointed.

2. Her face, which must have been handsome, had remained intelligent. It was an oval face with strongly marked features. The eyes were very dark blue and steady. Their gaze began with a defiant note but was confused by what seemed a deliberate swoon of the pupil into the iris, revealing for an instant a temperament of great sensibility. The pupil reasserted itself quickly, this half-disclose nature fell again under the reign of prudence, and her astrakhan jacket, moulding a bosom of a certain fulness, struck the note of defiance more definitely. Her name was Mrs Sinico.

Eight reasons why you need the Macau Daily Times

1. IT will come out seven days a week.
2. Its 7,500 copies will be published seven times a week: seven times more than anyone else offers.
3. IT will be on all inbound and outbound Air Macau flights.
4. IT will be read by people on ferries crossing every 15 minutes between Macau and Hong Kong.
5. IT will reach the high income earners.
6. IT will reach the decision makers.
7. IT will be under leading hotel doors.
8. IT will be in leading casino and leading casino hotels.

Proulx a caminho de Macau

Na América da multiculturalidade o acordeão vai passar pela mão de sucessivas gerações de imigrantes. A música torna-se a voz das suas fantasias, tristezas e exuberâncias. São imigrantes que pagam um preço para poderem pertencer à sociedade.

Em 1890 um emigrante siciliano parte para La Merica com apenas um acordeão, sonhos de liberdade e de melhor futuro. Em Nova Orleães este siciliano vê os seus sonhos devastados mas a história do acordeão está apenas a começar...

O romance da América que cruza todo o continente ao longo de um século. Na América da multiculturalidade o acordeão vai passar pela mão de sucessivas gerações de imigrantes. A música do acordeão torna-se a voz das suas fantasias, tristezas e exuberâncias.

São imigrantes que pagam um preço para poderem pertencer à sociedade americana. Abdicam da sua identidade, nome e cultura, sofrem o ódio étnico, o desprezo dos seus próprios filhos, vivem o crime mas também o amor, a ternura e a paixão. O romance de uma nação incansável que ecoa na cabeça como se fosse a letra de uma canção.

Nascida a 22 de Agosto de 1935 em Northwich no Connecticut, E. Annie Prouxl, a mais velha de cinco irmãs, estudou na universidade de Vermont e na Universidade de Concordia. Em 1975 abandona o seu doutoramento para iniciar uma carreira de jornalista como freelancer. Escreve para alguns jornais mas com um pequeno salário tem dificuldades em sustentar os três filhos e começa a escrever pequenas histórias para semanários, na sua grande maioria para uma revista masculina acerca de pesca e caça.
O editor da revista pede-lhe que escreva sob o pseudónimo de um homem. Ela recusa-se mas acabam por chegar a um acordo e as suas histórias passam a ser assinadas E. Annie Proulx. Na década de 80 dois dos seus contos são incluídos na Best American Short Stories. Em 1993, E. Annie Proulx torna-se a primeira mulher a ganhar o prestigiado prémio literário Pen/Faulkner pelo romance «Postcards».
No ano seguinte é galardoada com os prémios Pulitzer, um National Book Award com o romance «The Shipping News», também disponível na Cavalo de Ferro e na Bloom. Actualmente, vive e escreve no Wyoming.

Annie Proulx é ainda a aclamada autora de outro romance – «Accordion Crimes» –, e duas colecções de contos, «Heart Songs and Other Stories» e «Close Range». Recentemente um dos seus contos deu origem ao filme «O Segredo de Brokeback Mountain» de Ang Lee com Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. [TEXTO COMPOSTO COM A AJUDA DE Luís Guimarães, Jornal Inside]
"Crimes do Acordeão" de E. Annie Proulx ● CAVALO DE FERRO ● 2007

Here we are...

With short notice we are on our 4th month of activity. Some of our ideas and projects were achieved some others are still on the paper. But Bloom is there, waiting for you. Prepared to fulfil your needs. We still have a long road ahead. Most of all we want to build up our online presence in a different mode, taking Bloom directly to your home and put our collection of titles, and all the others from our suppliers, available for you to choose at every moment, 24 hours a day.

We need events to happen at Bloom. They are a oportunity to show up our work, to get contact with our clients and friends, and to share ideas between all of us.

For June we're having a book launching confirmed, gatherings around the written word, we'll do some reading sessions at our new Children's Space and we are going to be present at the Macau Tower in the Apparel Fashion Week.
What's more? Many things more!
Stay tuned!

Thank you for being there!

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Eventually a second slip, blue this time, arrived. "We still have your oversize package", was the jist of the message. Emmett imagined weary postal workers still holding a huge box in their arms. Driving his car at a slow, deliberate pace, he wondered whether he would be disappointed with the contents of the delivery after such anticipation.

The lady behind the counter wore a dress the same colour as the Late Notice, as she called it. She watched suspiciously as he signed his name, then tottered to the back room to retrieve the unwanted package. She returned holding a small brown parcel, "Too small.", thought Emmett, "Not mine." But it was very much his now as the blue lady silently handed it to him, pointing to the address as if to dispel the doubt which must have showed on his face.

He left it in the back seat as he drove home. Usually Emmett would be home at this time of day, congratulating himself on aqcuiring a job which allowed him to leave the office at four p.m. and beat the intolerable rush hour traffic in a city where the vehicles outnumbered people 2 to 1. There was no escape now, so he resigned himself to the inevitable two-hour journey, most of which progressed a meter at a time. Two hours seemed much longer. Red light. The parcel was partially visible in the rearview mirror. He knew there was really no point in playing this silly game of mystery with himself, but the stereo in his car was broken, always had been. Opening the window was out of the question. This guessing game was the only diversion in his cramped, cracker-box car during that two-hour drive. Green light, go.

By the time he arrived home he had flipped through his personal yellow pages of memory and found no answers. Friends? None. None that wrap brown paper packages with yellow string tied in a neat bow. There was always family, but that was impossible. No one knew where he lived.

He sat down on the only visible chair next to the TV and looked around him. Scissors. The disorder of Emmett's living room was the sort for which the only method he had of finding anything was to keep a 3-D map in his mind of everything piled from the floor up. Then when a certain object needed retrieval, say, TV remote (smooth, rectangle) or missing grey sock (furry, small) he'd picture it, catch his breath and dive belly and fists first till his experienced fingers snagged on a possible target. Years of practice had enabled Emmett to find even missing buttons in the dark and he took a certain pride in this. Scissors. (hard, cool) Breathe, dive.


to be continued...

Travel Poem

Beware of the faded hieroglyphs and memories of friendships.
These things can only hinder oxygen intake.

Watch out for advice of the sort given in cookies and on the sides of buses.
You'll absorb more from a thin-limbed girl with a basket of fishes.

Loneliness is a lie. A man's beard can be a hiding place for his finer things.
Sleep the sleep of restless Parisians. Avoid Canadians — they make frisky bedfellows.

If you hitchhike, don't get picked up by men driving to Oslo.
It's very cold there, and you'll catch pneumonia.

Read Plato but be suspicious of Socrates. To commit oneself to virtue
is no big deal. People do it all the time.

Take this piece of paper and fold into thirds. There, like that.
Wear it next to your breast. It will keep vampyrs away.

When in the throes of ecstasy (or close to them, for throes are sometimes
only identifiable as such after the throe unthroes), finger this sheet.

After gutting the large country, after treading through boys and kangaroos,
after affecting an accent, after unfretting fingers from your sun-bleached hair.

After the conversion of the Jews, after forty-one poems about mowing,
take a shower. Don't be afraid of being watched. It's natural to want to touch.

Dwell in the nobody for a moment. Fly your flag, unfold the creased parchment
that is a map to someone's darkest heart. Repeat after me.

This indolent scrap can be used like a rosary. He approaches with a collar.
Every animal has sharper hearing than man—go on, ask me what I know.

At the end of loving, read these words aloud by the greenish light
seeping in through the cracks, read this man who is mad, who is for you.
by Anthony Robinson

If you like this you can visit the author's webpage at luckyerror.blogspot.com

Assim... simples


Poema sobre a canção da esperança

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
a não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

Álvaro de Campos

BLOOM TV late night

Lisa Gerrard was so indelibly and obviously a part of what made Dead Can Dance what it is, that it's little wonder her debut feels essentially like a continuation of that band's haunting, vast atmospheres and when it comes to singing she again is without peer. This is Sanvean, one of the most beautiful songs I can remember hearing, a song that BLOOM brings to you.
Thank you for being there!

I am your shadow...
[CLICK THE LINK ABOVE]

It would have been an ordinary mail package with a little yellow slip you had to sign at the post office, a package that would sit in the passengers' seat on the drive home. You would have known who it was coming from by the familiar address. On some rare occasions and birthdays you'd puzzle over the area code, wondering if you shouldn't just open it here in the car to save youself the drive back to the post office tomorrow to return it. It wouldn't have been the first heavily gesticulated story you'd share over a pint later the same day. It would have been too ordinary.

Ordinary, if it had happened fifteen years ago. Back then the postal system was a topic of conversation, occasionally even making the news. "Postal Layoffs!" or "Postman attacked by escaped python!" There was a kids' television show about a kindly postman and his cat, and every child over the age of 0 could sing along with the soft jingle at the beginning. "Postman Pat, Postman Pat, and his black and white cat."

But this was 2007. Communication had progressed fast over those years, e-mail, chat and sms was the way to do it now. These days Emmett only checked his mailbox at the end of every month to collect the bills.

So the day he opened his mailbox and saw the thin yellow slip announcing the arrival of a package too large to be delivered to his doorstep, Emmett's excitement was understandable. Not the excitement of Christmas morning, it was more like the feeling he got from skimming the secondhand Nancy Drew paperbacks in the local library. Here was a mystery which could very quickly--too quickly usually--be revealed, so he had learned to drag out the discovery of it by misplacing the book for a few days...perhaps leaving it at a friend's place till they noticed.

And Emmett liked mysteries.

He left the slip in his mailbox for three days.

It just sat there.


(to be continued...)

Mangas verdes com sal

Manhã de sábado. Ida ao mercado. A azáfama do costume. Rãs, peixe e caranguejos são talhados sem a mínima hesitação. Passemos à fruta. Alguns vendedores lançam uns apelos em português macarrónico. Finjo não ser para mim. Mangas. Generosas, amarelinhas com um ligeiro esverdeado, amanhã de manhã estarão mesmo boas para comer. Pequeno-almoço saudável. Com um sinal de dedos pergunto quanto é. – Sap i man sam có. Começo a andar desinteressado, – Suna, suna, sap man sam có. Concordo, volto atrás para escolher uma dúzia.
Engraçado, quando era miúdo eu e os meus amigos em Moçambique, não podíamos com mangas maduras. Aquilo enjoava-nos. De manhã íamos para a escola, cada um com um pequeno embrulho em papel caqui onde púnhamos sal grosso e piripiri. À saída no caminho para casa, nas árvores de propriedade de alguém, à pedrada deitávamos abaixo umas quantas mangas verdes. Trincávamos um pedaço molhávamo-lo com a língua para depois tocar no sal com picante. Sabor do outro mundo, de um outro tempo. Everything changes, diz o narrador de Eveline em Dubliners.

De onde espreitas tu, Natália?

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
NATÁLIA CORREIA, Queixa das Almas Jovens Censuradas

I would have written this next part into the story if anybody would have believed it. But who would have? I was there and I didn't believe it.

On the day of my third operation, there was an attempted breakout at the Maximum Security Adjustment Center, adjacent to Death Row, at San Quentin prison. "Soledad Brother" George Jackson, a twenty-nine-year-old black man, pulled out a smuggled-in .38-caliber pistol, yelled, "This is it!" and opened fire. Jackson was killed; so were three guards and two "tiertenders," inmates who bring other prisoners their meals.

Three other guards were stabbed in the neck. The prison is a five-minute drive from Marin General, so that is where the injured guards were taken. The people who brought them were three kinds of police, including California Highway Patrol and Marin County sheriff's deputies, heavily armed.

Police were stationed on the roof of the hospital with rifles; they were posted in the hallways, waving patients and visitors back into their rooms.

When I was wheeled out of Recovery later that day, bandaged waist to ankle, three officers and an armed sheriff frisked me.

On the news that night, there was footage of the riot. They showed my surgeon talking to reporters, indicating, with a finger to his throat, how he had saved one of the guards by sewing up a slice from ear to ear.

I watched this on television, and because it was my doctor, and because hospital patients are self-absorbed, and because I was drugged, I thought the surgeon was talking about me. I thought that he was saying, "Well, she's dead. I'm announcing it to her in bed."

The psychiatrist I saw at the surgeon's referral said that the feeling was a common one. She said that victims of trauma who have not yet assimilated the trauma often believe they are dead and do not know it.

The great white sharks in the waters near my home attack one to seven people a year. Their primary victim is the abalone diver. With abalone steaks at thirty-five dollars a pound and going up, the Department of Fish and Game expects the shark attacks to show no slackening.
Originally published in The Quarterly, and then in Amy Hempel's short story collection, At the Gates of the Animal Kingdom.

Amy Hempel was born in Chicago, and now lives in New York. She is the author of Reasons to Live, At the Gates of the Animal Kingdom, Unleashed, and Tumble Home. Her fiction and non-fiction have appeared in Vanity Fair, The Mississippi Review, Grand Street, Columbia, The Quarterly, Mother Jones, Zyzzyva, and other leading magazines.

LIVE ON BLOOM TV

Just to say a few words, The Dears are one of my favorite bands, I can spend hour listening to them. Listening to the same song days and days. Yes, I'm that kind of guys with this type of obsessions.
The band formed in 1995 and released their first album, End of a Hollywood Bedtime Story, in 2000. Their music has been described as a cross between The Smiths, Serge Gainsbourg and Joy Division. Murray Lightburn, band's core member, its founder and lead singer, has been called "the black Morrissey". The lineup of the band is fluid and changes frequently. In 2003 they released their second full-length album No Cities Left, after two years of EP's editions and other material. In 2006 they released Gang of Losers.
The current lineup of The Dears (in place since 2004) includes George Donoso, Valérie Jodoin-Keaton, Patrick Krief, Martin Pelland, and Lightburn's wife, Natalia Yanchak.
In 2005, Lightburn and Natalia became a parents. Their daughter is named Neptune Lightburn.

Lost in the Plot, the song broadcasted on BLOOM TV, is from their second album, No Cities Left.

«Leave me in the middle of the ocean
I can walk the rest of the way»

[SOUND LOUD, PLEASE]

For Ludwig (II)

Lembrança da Ria de Faro

Dunas atrás da casa
gafanhotos cor de
madeira cardos cor de areia
ao fim da tarde,
barcos na água rósea
onde a cidade, em frente à casa, cai
De madeira caiada a
casa está
sobre a areia, que escurece quando
a maré devagar desce na praia

Gastão Cruz
in "Crateras"
POEMÁRIO 2005

Tate Britain [22 MAI - 2 SEP]

HOW WE ARE NOW
PHOTOGRAPHING BRITAIN

This is the first major exhibition of photography ever to be held at Tate Britain. It takes a unique look at the journey of British photography, from the pioneers of the early medium to today’s photographers who use new technology to make and display their imagery.

The images in this exhibition have come from the length and breadth of the UK, and include well-known oeuvres alongside mesmerising lost masterpieces. As well as famous names – William Henry Fox Talbot, Lewis Carroll, Julia Margaret Cameron, Bill Brandt (that we have at Bloom), Madame Yevonde, Susan Lipper, David Bailey and Tom Hunter among them – the exhibition includes postcards, family albums, medical photographs, propaganda and social documents. It includes work by many women photographers and photographers from different cultural backgrounds who are usually underplayed in the history of British photography.

Ultimately, this is a treasure trove for any one who loves photography, and presents the extraordinary variety, breadth and idiosyncratic nature of one-and-a-half centuries of image making.

For the first time, Tate Britain is inviting members of the public to contribute to the content of an exhibition. How We Are Now invites you to add your photograph to the exhibition through the community and photo-sharing website Flickr.
Curated by Val Williams and Susan Bright.

Fresh from the Print...

Just arrived @ Bloom the new collection of Magazines - June Editions of:



Other titles, also fresh:

Wired
The New Yorker
National Geographic
Creative Review
Flaunt

and many more....

Tomorrow it's a public holiday in Macau.
Bloom will be open from 11 am to 10pm.
Enjoy the day. Forecast: Sunny and Hot!

The Harvest by Amy Hempel [part five]

I leave a lot out when I tell the truth. The same when I write a story. I'm going to start now to tell you what I have left out of "The Harvest," and maybe begin to wonder why I had to leave it out.

There was no other car. There was only the one car, the one that hit me when I was on the back of the man's motorcycle. But think of the awkward syllables when you have to say motorcycle.

The driver of the car was a newspaper reporter. He worked for a local paper. He was young, a recent graduate, and he was on his way to a labor meeting to cover a threatened strike. When I say I was then a journalism student, it is something you might not have accepted in "The Harvest."

In the years that followed, I watched for the reporter's byline. He broke the People's Temple story that resulted in Jim Jones’s flight to Guyana. Then he covered Jonestown. In the city room of the San Francisco Chronicle, as the death toll climbed to nine hundred, the numbers were posted like donations on pledge night. Somewhere in the hundreds, a sign was fixed to the wall that said JUAN CORONA, EAT YOUR HEART OUT.

In emergency room, what happened to one of my legs required not four hundred stitches but just over three hundred stitches. I exaggerated even before I began to exaggerate, because it's true — nothing is ever quite as bad as it could be.

My lawyer was no attorney-at-last. He was a partner in one of the city's oldest law firms. He would never have opened his shirt to reveal the site of acupuncture, which is something that he never would have had.

"Marriageability" was the original title of " The Harvest."

The damage to my leg was considered cosmetic although I am still, 15 years later, unable to kneel. In an out-of-court settlement the night before the trial, I was awarded nearly $100,000. The reporter's car insurance went up $12.43 per month.

It had been suggested that I rub my leg with ice, to bring up the scars, before I hiked my skirt three years later for the court. But there was no ice in the judge’s chambers, so I did not get a chance to pass or fail that moral test.

The man of a week, whose motorcycle it was, was not a married man. But when you thought he had a wife, wasn't I liable to do anything? And didn't I have it coming?

After the accident, the man got married. The girl he married was a fashion model. ("Do you think looks are important? I asked the man before he left. "Not at first," he said.)

In addition to being a beauty, the girl was worth millions of dollars. Would you have accepted this in "The Harvest" — that the model was also an heiress?

It is true we were headed for dinner when it happened. But the place where you can see everything without having to listen to any of it was not a beach on a bay; it was the top of Mount Tamalpais. We had the dinner with us as we headed up the twisting mountain road. This is the version that has room for perfect irony, so you won't mind when I say that for the next several months, from my hospital bed, I had a dead-on spectacular view of that very mountain.
Originally published in The Quarterly, and then in Amy Hempel's short story collection, At the Gates of the Animal Kingdom.

Na linha

Macau Daily Times nas bancas a 1 de Junho

O Macau Daily Times, o novo jornal de língua inglesa de Macau, sai para as bancas a 1 de Junho com 28 a 32 páginas entre segunda e sexta-feira e 40 páginas ao fim-de-semana.
Dirigido pelo jornalista português Rodolfo Ascenso, que já trabalhou na Rádio Macau e dirigiu o jornal Ponto Final, o novo diário, o segundo em língua inglesa com sede em Macau, vai procurar «ser um jornal de nível internacional que acompanhe o desenvolvimento económico aceleradíssimo que se vive».

«É notória a falta de um jornal que cumpra o papel dos jornais em língua inglesa que hoje existem em todas as capitais da região asiática» e que não são apenas destinados às comunidades de expatriados mas também aos turistas que visitam esses países que no caso de Macau serão cerca de 25 milhões em 2007, disse.

Além da comunidade expatriada que não fala outra língua que não o inglês, Rodolfo Ascenso pretende que o Macau Daily Times «seja também uma referência» da população que habitualmente lê a imprensa portuguesa ou chinesa e aposta numa «abordagem mais aprofundada dos temas diários do território» e na prestação de serviços como os classificados que «são uma importante fonte de informação para quem chega de novo e também para os turistas».

«Pretendemos ser uma referência em Macau tal como existem nos dias de hoje várias referências jornalisticas em inglês em todas as capitais da Ásia e que são fontes importantes na divulgação do noticiário de cada um desses países», disse.

Com uma equipa de seis jornalistas chefiadas por John Lawrence, o editor chefe de origem australiana que esteve na fundação de jornais como o China Daily, o Macau Daily Times terá também um editor fotográfico, o português António Falcão, com o objectivo de «apostar na qualidade da imagem que ajuda a criar laços com os leitores», explicou Rodolfo Ascenso.

Numa primeira fase, o Macau Daily Times irá «tirar» cerca de 7.500 exemplares.
LUSA / 22-05-2007

Today on BLOOM TV

For some people the world changed in 1997. They just didn't know it yet. Northern Lite are one of the most popular live acts in electronic music today, but that didn’ t happen over night and is only due to years of persistence and experimentation. After Sebastian Bohn and Andreas Kubat bumped into each other in ‘97, endless hours in the studio followed where ideas on content and musical taste were exchanged and the characteristic Northern Lite sound began to take shape.

After the discovery of Andreas’ voice it quickly became an integral part of the arrangements and the proto-Northern Lite line up was complete. This period of the bands development climaxed with the debut CD “Small Chamber Works” published in March 2000 by 1st. Decade Records, followed by a vinyl (single) from Sauer Records (“Looking At You”). In the time of newly found creative freedom that followed tracks emerged that many would identify as the Northern Lite sound we know today: “Trusting Blind”, “I Cannot Fall”, “Away From You”, “Treat Me Better”. The creative period with Larry Lowe, a guitarrist from Columbia/ South Carolina saw Northern Lite producing titles such as “Reach the Sun”, “My Pain” and “Take Them Away” showing the latest twist in the band’ s development. It rocks! And big time! Especially with their Live-Set do Northern Lite prove this again and again, now having Sascha Littek on board as guitarrist - a first class Lowe-replacement. But they also convince through their clear, eargrabbing harmonies and charismatic live vocals. Northern Lite produce tension, reach out to their listeners and transport emotions through the distinctive Northern Lite sound.

Their Live credentials can now speak for themselves.: Gigs at festivals like the Loveparade/Lovenation, Nature One, Liberty One, SonneMondSterne and the Wire-Festival in Tokyo as well as the Mayday Polska go hand in hand with selective club performances in Berlin, London, Paris, Amsterdam, Barcelona, Lisbon and many other cities. In 2004 they gave their debut at the Mayday in Dortmund. At the moment Northern Lite are on tour to promote their new album “Temper”.

This is a version of the famous song from the Queens of the Stone Age, "Go With the Flow", by the german electro-pop-rock band Northern Lite.

PUT YOUR SOUND LOUD AND AND WATCH OUT!

Liga dos Campeões

Saindo um pouco da temática predominante do blog, de livros falarei noutra oportunidade, é esta noite em Atenas que AC Milão e Liverpool, disputam a conquista da Taça da Liga dos Campeões Europeus. Os comentários dos média referem invariavelmente a espinha que ficou encravada na garganta dos italianos desde a final de 2005, e que vão querer por isso vingar a derrota sofrida em Istambul. Vingança não será bem o termo, mas será uma oportunidade para o AC Milão demonstrar que a sua superioridade técnica e táctica desta vez não vai ser descarrilada por um qualquer lance de varinha ou dedo com que os deuses no Olimpo se divertem a tramar os humanos e a fabricar dramas. Não, desta vez não vai haver milagres, por mais que os esforçados homens de Anfield Road sonhem, o futebol não é percepção é um facto, e o facto é a qualidade do AC Milão, e depois a firmeza com que os seus jogadores irão policiar a emoção. É isso que vai prevalecer.

The Harvest by Amy Hempel [part four]

As soon as I knew that I would be all right, I was sure that I was dead and didn't know it. I moved through the days like a severed head that finishes a sentence. I waited for the moment that would snap me out of my seeming life.

The accident happened at sunset, so that is when I felt this way the most. The man I had met the week before was driving me to dinner when it happened. The place was at the beach, a beach on a bay that you can look across and see the city lights, a place where you can see everything without having to listen to any of it.

A long time later I went to that beach myself. I drove the car. It was the first good beach day; I wore shorts.

At the edge of the sand I unwound the elastic bandage and waded into the surf. A boy in a wet suit looked at my leg. He asked me if a shark had done it; there were sightings of great whites along that part of the coast.

I said that, yes, a shark had done it.

"And you're going back in?" the boy asked.

I said, "And I'm going back in."
Originally published in The Quarterly, and then in Amy Hempel's short story collection, At the Gates of the Animal Kingdom.

O Ventríloquo

- Sim?? Diz lá, querias dizer uma frase, não era? Isso que me estavas a dizer ao ouvido?
- Sim. Quero. Não é uma frase. Mas estou envergonhado. – O Ventríloquo não é lá grande coisa, para além de mexer muito os lábios, ri-se sem dar por isso.
- Diz lá, vá, não tenhas vergonha. Diz lá o nome do livro.
- Não é um livro. É mais do que isso. É a pessoa que os escreve. – Se se pudesse eleger o melhor ventríloquo, este não era eleito. Este era eleito o pior do seu bairro. O que já não é mau.
- Está bem. Então vá lá... quem é o autor? Por que letra começa o seu nome?
- Não me faças cócegas, eu sei falar sozinho, escusas de estar para aí a tentar dizer qualquer coisa, com a mão dentro de mim, a pensar que as pessoas acham que tu és muito bom. Que és muito bom V-E-N-T-R-Í-L-O-Q-U-O! – Estavam os dois a ocupar o seu espaço. O Boneco não era lá muito parecido com o Pinóquio, mas dava ares.
- As pessoas sabem o que sabem. Confio nelas, elas também, de um modo generalizado, confiam em mim. Isto é, não lhes faço mal nem lhes causo demasiado importuno.
- Está bem, isso é o que tu pensas, e já agora chega para lá um bocadinho. Esse teu bigode muito perto, ainda com restos do teu almoço, faz-me um bocado de impressão. – Vendo bem, até que tinha a sua piada, este pequeno espectáculo de rua. Enquando falavam, vinham também a andar, aos espectadores, era preciso andar de costas para os poder acompanhar e perceber tudo o que se estava a passar.
- Como se chama o autor? Isso é que nós queremos saber. Não faças essas carinhas para a rapariga, olha que ela é comprometida. – Uma rapariga de mão dada com um homem mais velho, vestida com umas calças justas e uma blusa assim a dar para o transparente, anda para trás, a passo certo. Sorri, com desdém, para o Ventríloquo.
- A miúda é gira, que queres que te faça... eu gosto de ver o que está por baixo, mas só assim, sem ver. – O Pinóquio era um boneco que falava de verdade, o “Pai” era carpinteiro e numa noite de trovoada esculpiu-o porque estava com medo de estar sozinho. Chamava-se Gepeto e andava por lá também um gato.
- Agora de repente estava a lembrar-me do gato do Pinóquio mas não me lembro do nome dele, lembras-te, tu?
- Isso quer dizer que já não queres saber do nome do autor e dos livros que ele escreveu? É mais importante o NOME do gato do Pinóquio, é? – Estavam quase a chegar ao fim da rua e tinham que dar a volta ou contornar a velha Praça. A Praça tinha uma estátua com um homem a cavalo. O cavalo tinha as quatro patas no ar. Era incrível aquela estátua, ninguém sabia como tinha sido feita nem de onde tinha vindo, mas dizia-se que por baixo havia um grande campo magnético.
- O autor? – O Ventríloquo continuava a olhar para a Rapariga. Andava para ela, mas ela acelerava o passo, porque pensava que tudo aquilo fazia parte do espéctaculo.
- Sim, o autor, os livros, estamos aqui para recomendar livros, já te esqueceste?
- Ah, está bem! – Estava prestes a largar o boneco, ou a dar-lhe uma trolitada para se calar.
- Boris Vian!
- Quem?? – Ainda pensou que esse fosse o nome do gato, mas não fez caso disso. A Rapariga tinha olhos azuis, não era muito loira, dependia da luz, dependia da hora do dia. Tinha qualquer coisa na boca, pastilha elástica ou assim.
- Boris Vian. Ele tem livros muito bons. Tem os livros de que eu gosto mais.
- Que será que ela tem na boca? Será mentol, será outra fruta?
- O Boris Vian disse: «Dizer idiotices, por estes dias em que toda a gente reflecte profundamente, é a única forma de provar que temos um pensamento livre e independente.» - O Boneco preparava-se para descer dos braços do Ventríloquo. Estava farto daquilo.
- Olá, gostava de ouvir a sua voz, pode abrir a boca e dizer qualquer coisa? – O Homem que estava a dar a mão à Rapariga tinha ficado lá atrás, no meio da rua, a beber uma cerveja. Bem fresca. O Ventríloquo estava a mostrar os dentes todos.
- O livro chama-se, se ainda queres saber,
Boris Vian por Boris Vian, e foi lançado pela Fenda?
- Fenda? – Diz o Ventríloquo, já com as mãos desocupadas, mesmo antes de levar um estalo da Rapariga.
- Eu gosto muito do Boris Vian! – Esta era já a voz dela. Que, colocando a mala no ombro, começava a ajeitar o Boneco na sua blusa transparente.
- É verdade, toca trompete e tudo, de certeza que também faz outras vozes. - A Rapariga mexia os lábios mesmo muito pouco. Ria-se, mas nem se dava por isso. Era mesmo a melhor do seu bairro.


“Boris Vian por Boris Vian”
, de Boris Vian ● FENDA ● 2006

Espelho meu

A minha nota biográfica

Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de São Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.
Estado Civil: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». o ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1.º dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).

Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto por várias revistas e publicações ocasionais. o que, de livros eou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III», (em inglês também), 1922 e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poemas». o folheto «O Interregno», publicado em 1928 e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido o seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição Religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo á Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da maçonaria.
Posição Iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição Patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda a infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação».
Posição Social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo destas últimas considerações:
Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.

Nota biográfica, escrita por Fernando Pessoa, em 30 de Março de 1935, parcialmente publicada como introdução ao poema À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, editado pela Editorial Império em 1940.

Snapshot

RING JOID WITH HIS PEN ON HIS POCKET / PICTURE BY UNKNOWN AUTHOR / SFAX 1953

Phenomenons I like #3

When the little one came
A hole was blown open
A partial surrendering in the midst of knowing
And for an instance the constant heart shed its own tears
Wave upon wave carried me over
Beyond the peripheries of hope and fear
Deadening the voice of relentless biography
I stood at the center and danced to the extremities
Mapping the city as subtle as silence
And on, outwards, into the darkness

When the crazy one came
She placed her finger on my forehead
And pushed on through
I woke up, face on fire
Spitting out diamonds
Thoroughly lost to logic
Craving her madness
DAVID SYLVIAN + RYUICHI SAKAMOTO - "Thoroughly lost to logic "

The Harvest by Amy Hempel [part three]

In my neighborhood there is a fellow who was a chemistry teacher until an explosion took his face and left what was left behind. The rest of him is neatly dressed in dark suits and shined shoes. He carries a briefcase to the college campus. What a comfort — his family, people said — until his wife took the kids and moved out.

In the solarium, a woman showed me a snapshot. She said, "This is what my son used to look like."

I spent my evenings in Dialysis. They didn't mind when a lounger was free. They had wide-screen color TV, better than they had in Rehab. Wednesday nights we watched a show where women in expensive clothes appeared on lavish sets and promised to ruin one another.

On one side of me was a man who spoke only in phone numbers. You would ask them how he felt, he would say, "924-3130." Or he would say, "757-1366." We guessed what these numbers might be, but nobody spent the dime.

There was sometimes, on the other side of me, a twelve-year-old boy. His lashes were thick and dark from blood-pressure medication. He was next on the transplant list, as soon as — the word they used was harvest — as soon as a kidney was harvested.

The boy's mother prayed for drunk drivers.

I prayed for men who were not discriminating.

Aren't we all, I thought, somebody's harvest?

The hour would end, and a floor nurse would wheel me back to my room. She would say, "Why watch that trash? Why not just ask me how my day went?"

I spent fifteen minutes before going to bed squeezing rubber grips. One of the medications was making my fingers stiffen. The doctor said he'd give it to me till I couldn't button my blouse — a figure of speech to someone in a cotton gown.

The lawyer said, "Charitable works."

He opened his shirt and showed me where an acupuncture person had dabbed at his chest with cola syrup, sunk four needles, and told him that the real cure was charitable works.

I said, "Cure for what?"

The lawyer said, "Immaterial."
Originally published in The Quarterly, and then in Amy Hempel's short story collection, At the Gates of the Animal Kingdom.

Gene Geni

Among all the Hi5's that are flooding the cyber world, GENI is a great alternative.
If you want to keep your family connected into a network you must try it. It helps you to build up your genealogic tree with your family members and keep everybody together. The network starts from there, from blood to in law relatives, and then it can follow through each of their roots, and another root, and another, until you get an endless list of people's names that you never heard of. It's still in beta mode but can already remind you of everybody's birthday. Give it a try.

The Hitch

«After Mother Teresa was nominated for beatification in 1997, the Vatican invited Christopher Hitchens to argue the case against her. Smart choice. He had already proven his willingness to diss the world's most famous saint-in-waiting. In his book The Missionary Position Hitchens deemed the "Ghoul of Calcutta" a "fanatic, a fundamentalist, and a fraud."

Though the book did raise eyebrows, it should have come as no surprise. This is the same man who called Ghandi a "half-naked fakir," Bill Clinton a "rapist," Ronald Reagan a "cruel and stupid lizard," and the queen "Britain's favorite fetish." Christopher Hitchens likes to raise eyebrows.

But Hitchens is much more than a shock jock for the Volvo set. Underneath the schoolboy taunts is a very serious man. The role Hitchens played in Mother Teresa's beatification was traditionally performed by the official Vatican skeptic known as the advocatus diaboli. Though he might not consider himself an advocate for the devil — he is an atheist, after all — Hitchens is a true skeptic. He believes in questioning everything. A true contrarian, unfettered by allegiance to party or ideology — or, admittedly, politesse — Hitchens is unafraid to take any position, no matter how unlikely or how unpopular.

He's also a first-rate writer. One of the most informed journalists in the country (he seems to have been everywhere, met everyone, and read everything), he is also one of the most entertaining. His command of the language is legendary; his wit ferocious. His skill in marshalling facts in service to an argument is a wonder to behold.

So it's about time this devil's advocate took on the daddy of them all: God Is Not Great: How Religion Poisons Everything, Hitchens wastes no time getting to the point: just go back and reread that subtitle. But readers won't pick up this book just to find out what Christopher Hitchens thinks about religion. They'll read it because, whether or not he persuades, he always makes it worth your while to hear him out.»

C. P. Farley interviews Christopher Hitchens for Powells.com. From religion to literature you can sprinkle your mind and browse your eyes through the world of Hitchens, the auhtor of great books such as Why Orwell Matters and the man that stands to stick his finger to all the other things that matter. You can follow the interview here. We will have him at BLOOM very soon.

The Wide World of Bloom

[CLICK TO ZOOM THE MOSAIC LOGO]

The Harvest by Amy Hempel [part two]

The lawyer was the one who used the word. But I won't get around to that until a couple of paragraphs.

We were having the looks discussion — how important are they. Crucial is what I had said.

I think looks are crucial.

But this guy was a lawyer. He sat in an aqua vinyl chair drawn up to my bed. What he meant by looks was how much my loss of them was worth in a court of law.

I could tell that the lawyer liked to say court of law. He told me he had taken the bar three times before he had passed. He said that his friends had given him handsomely embossed business cards, but where these lovely cards were supposed to say Attorney-at-Law, his cards said Attorney-at-Last.

He had already covered loss of earnings, that I could not now become an airline stewardess. That I had never considered becoming one was immaterial, he said, legally.

"There's another thing," he said. "We have to talk here about marriageability."

The tendency was to say marriage-a-what? although I knew what he meant the first time I heard it.

I was eighteen years old. I said, "First, don't we talk about dateability?"

The man of a week was already gone, the accident driving him back to his wife.

"Do you think looks are important?" I asked the man before he left.

"Not at first," he said.
Originally published in The Quarterly, and then in Amy Hempel's short story collection, At the Gates of the Animal Kingdom.

Repainting airwaves


DIEGO CORTEZ - "CATARACT MONOLOGUE"
[excerpt from address delivered on lecture-performance, "April Meeting", Belgrade 1976]

Nas luas de outro planeta

ESTE É O XX CAPÍTULO DO "ÚLTIMO HOMEM EM SATURNO"
JÁ FEITO: S. perdeu o fio que o ligava ao mundo. Ao príncipio era uma história de principes e princesas. De fadas. De detectives e ladrões. Era o James Bond e o Silvester, o gato. Eram filmes que passavam em movimento e que embriagava toda a população mundial. Mas depois o rumo perdeu-se. As imagens foram proibidas e todas as pessoas vivem agora na ressaca desse passado. Daqui para a frente tudo pode acontecer. As paredes tornaram-se mais apertadas e o rato não consegue desviar-se da boca do seu predador.

XX. Código servil desbotado

A minha relação com a cidade é uma coisa dúbia. Não nos sentimos bem um com o outro. Toleramo-nos mutuamente e nem sempre da melhor maneira. Ela no fundo odeia-me, tenho a certeza disso. E eu perco-me demasiadas vezes no corrupio que a envolve.
Andei anos a acordar assim, na dúvida de que lá fora poderia existir uma vida melhor. Longe do alcance dos prédios, fora do meio urbano. Chegava ao espelho de manhã e assombravam-me as questões do dia que ia decorrer. Saber que tinha todo o meu espaço delimitado, toda a minha sabedoria dentro de uma caixa de plástico ou no rebordo de um semáforo para peões. Verde, vermelho. Pare, olhe. Verde, vermelho. Todo o meu gosto formatado nas sobras de uma ementa que já conhecia de trás para a frente.
Verde e vermelho.
Na cidade está tudo à mão, tudo ao virar de uma curva ou dentro de um saco. É uma vida fácil. Faz-se dinheiro e gasta-se logo de seguida com o mesmo ímpeto e velocidade. E se não se tem nenhum meio de subsistência há sempre alguém que passa e que o arranja. Pede-se, dá-se. Compra-se, vende-se. Isto cansa-me tanto que não consigo nem sequer pensar nisso. Numa cidade, só de olhar para elas, chego a conhecer todas as pessoas que a habitam. E a reconhecê-las de novo sempre que passam por mim. Com os seus sobrolhos alinhados, o seu passo certo, os seus dias contados. Que se compram e depois se vendem.

Pertence agora ao passado a minha relação com a cidade.
Não demoro muito a chegar à conclusão que o único lugar que necessito verdadeiramente dentro de uma terra assim é uma casa. A minha. Nada mais. Toda a minha vida se desenvolve a partir daí. Entre paredes. As minhas ligações com os outros, o meu trabalho, o meu alimento. Viver entrelaçado numa teia de betão armado corta-me o desejo de lutar por algo melhor. Mesmo a fonte de informação e de entretenimento que nutrem os cantos de uma urbe me fazem mudar de opinião. Por vezes chegam-me vontades de derrubar as cidades todas e deixar as pessoas à solta, à vista uns dos outros. Viajar todos os dias com elas em elevadores é que não é de todo o meu prato favorito.
E por isso tudo mudei. Mudei de vida.
Andava com esta ideia em mim ainda antes das grandes proibições terem chegado. Muito antes das fogueiras. Da limpeza do audiovisual e do seu extermínio em massa. Vivia uma vida anómala, sem sabor. Mesmo dentro da felicidade que era o estar pregado em frente a uma televisão, ou ir ao cinema, e observar as minhas veias em choque com o prazer recebido pelas imagens em movimento, pressentia as falhas que circulavam em todo o meu ser e em que toda a minha vida se baseava. Existiam vozes recorrentes dentro de mim que se revoltavam com o espaço que me envolvia. Que gritavam.
E agora mudei.
Mudei. Mudei para o deserto.
Vim aos poucos.
Primeiro viajei até cá. Peguei no carro e entrei pela planície sem fim com as rotações no máximo a atingir o som da minha velocidade que explodia em melodias de alegria. Senti-me imenso. Assim sem fim e sem limites. E quando dei por mim estava a viajar para além desse infinito, para lá do que existia à minha volta, para lá de todas as minhas convulsões e da minha nascença. No deserto não há mundo. Não há nada. E por isso há tudo. Existe um universo sem fim que sobra e que se entope em cada um dos poros de uma pessoa.
Na cidade onde vivia anteriormente, perto de mim, do lugar onde habitava e que nunca consegui dar o nome de lar, havia um Parque de Diversões. Uma estrutura gigantesca que a pouco e pouco foi perdendo a actualidade e a fama. No seu coração uma imponente Montanha Russa que era das poucas coisas que me fascinavam naquela terra. Quando decidi mudar de ares todo o espaço estava já votado ao abandono e o que restava era apenas o corpo sereno do aço que se espantava com ferrugem sempre que o sol e a chuva lhe batiam. Não sei quando foi, se foi antes ou depois da minha decisão, mas a verdade é que tinha descoberto a minha casa ideal e na segunda viagem para o deserto parte dela já me acompanhava.
Montei-a com uma voracidade invulgar, peça a peça, mais ou menos como me dava na ânsia. Desaparafusava de um lado e quatrocentos quilómetros a Norte voltava a ligar tudo da maneira que achava melhor. Da maneira mais bela. Não sei quantas viagens fiz e quanto tempo demorei. Mas quando finalmente me instalei tudo isso tinha deixado de ser importante.
E foi aqui que passei a viver. Sozinho. No cimo ou no colo de uma Montanha Russa, que é finalmente o meu Lar.
A história que quero contar não é essa. É capaz de ser ainda mais invulgar, mas era preciso chegar até aqui. Explicar o meu desapontamento com a cidade e a posterior descoberta da minha autonomia no deserto.
No meu espírito há muito que as memórias dos filmes se apagaram. Foram com a areia que faz nascer nas minhas janelas de aço as tempestades deste mar sem fim. No movimento dos carris desta montanha crio as ondas de todas as minhas novas imagens. O resto aqui não existe. O resto é o todo. E o todo sou eu.
Era assim mas deixou de ser, porque já não estou bem sozinho.
Há pouco mais de duas semanas comecei a observar no fundo do horizonte um ponto negro. De dia para dia, tímido, foi crescendo, trazendo a sua impureza para mais perto. Pensei que ia ter companhia, que a cidade tinha sentido a minha falta e que no seu passo lento, na sua expansão devastadora, me vinha comer e levar o meu abrigo. Mas ao quinto dia consegui distingui-lo. Não era mais do que um veículo. Uma velha carrinha de caixa aberta que aos círculos vinha ter comigo, a rondar-me como um pequeno tornado. Observava-me. De dia. Sentia-lhe o cheiro, o rubro dos pneus a chiar com medo dos travões. De noite perdia-se na escuridão.
Uma manhã, com o céu cheio de nuvens, vi sair do seu interior um homem. Nunca o tinha visto. De todos os homens da cidade que conhecia este era para mim uma cara nova. Esteve assim até à tarde. Fora do carro, a entreter-se com um cigarro e com as botas que se poliam no ar quente do deserto. Parecia não ter vontade de me falar, que tinha vindo apenas tomar conta da ocorrência. Mas isso não era de todo verdade como não era o ódio que a cidade nutria por mim.
Desci e dirigi-me a ele.
Não se afastou. Recebeu-me até com um enorme sorriso, começando logo a dar com a língua nos dentes.
- Ando há dias a olhar para si, vejo-o de longe e tenho prazer nisso. Dá-me vontade de andar às voltas, de o ver assim como a minha luz ao fundo do túnel. Tem aqui um lugar estupendo e eu sei que não há mais ninguém que me possa ajudar.
- Mas do que precisas tu, amigo?
- O que eu quero não é muito. Não é nada. Mas sem isso não posso viver e enquanto não o tiver não vou poder sair daqui, vou continuar assim, às voltas.
- No pouco que for posso tentar ajudar. – digo-lhe, já a coçar a cabeça e com vontade de subir de novo para o meu mastro.
- Quero que volte a por de novo a emissão do Discovery Channel no ar, não posso passar sem ela. É todo o meu alimento.
É escusado explicar-lhe que isso não depende de mim, que neste assunto não sou especialista. Que de televisões não percebo nada. Mas não vale a pena. Porque lá ao fundo, no horizonte, a Sul do meu paraíso, pressinto outra veia a evadir-se. Outra viatura às voltas com figuras lá dentro que vão decerto pedir-me do mesmo. Daquilo que não sei dar. De tudo o que fugi e que me aglutinava. Sei que não vai durar muito o meu descanso e que deste Parque de Diversões só me resta fazer o meu estúdio e lá no canto do escorrega, no quintal, erguer uma antena para me expandir para o mundo. Para lá do infinito que eu já não imaginava e que me vai levar de novo ao coração da cidade. Pelas frequências mais limpas e adormecidas desde as grandes fogueiras.
Tudo o que lhe digo é: - Vem, sirvo-te um café, podemos falar nisso mais tarde. Vamos esperar pelos outros.

SEM MAIS SUSPIROS: “Candy says I've come to hate my body and all that it requires in this world. Candy says I'd like to know completely what others so discretely talk about. I'm gonna watch the blue birds fly over my shoulder. I'm gonna watch them pass me by. Maybe when I'm older what do you think I'd see if I could walk away from me? Candy says I hate the quiet places that cause the smallest taste of what will be. Candy says I hate the big decisions that cause endless revisions in my mind.”
"O Último Homem em Saturno” é um texto de origem desconhecida traduzido pelo Sr. Joid. Publica-se às sextas-feiras aqui neste Jornal.

NOTA DO EDITOR:
O Jornal era o Hoje Macau. Desde Janeiro a Agosto de 2006, durante 27 semanas, foi publicado neste lado do mundo "O Último Homem em Saturno", de presumível autoria de Ring Joid. No entanto, pelo mesmo, que até agora não se sabe bem quem é, esse facto foi sempre negado. O que veio a lume foi que esta era uma história que caiu do céu. Um manuscrito encontrado algures, cheio de hieróglifos e razuras, num idioma que ninguém conhecia e que, na sua modéstia, Ring Joid ajudou a traduzir.
Continha sempre um prelúdio que mantinha os leitores a par do que se tinha passado no capítulo anterior e uma conclusão. Os direitos de publicação desta obra foram entretando doados à BLOOMLAND que a seu tempo a irá reeditar.
A imagem reproduzida aqui, impressa a cores no jornal, ilustrou o último capítulo, que tinha o nome de "Na peugada de Gustavo Klimt Eastwood, The Third."
Creio que está tudo dito.

The Harvest by Amy Hempel [part one]

The year I began to say vahz instead of vase, a man I barely knew nearly accidentally killed me.

The man was not hurt when the other car hit ours. The man I had known for one week held me in the street in a way that meant I couldn't see my legs. I remember knowing that I shouldn't look, and knowing that I would look if it wasn't that I couldn't.

My blood was on the front of this man's clothes.

He said, "You'll be okay, but this sweater is ruined."

I screamed from the fear of pain. But I did not feel any pain. In the hospital, after injections, I knew there was pain in the room — I just didn't know whose pain it was.

What happened to one of my legs required four hundred stitches, which, when I told it, became five hundred stitches, because nothing is ever quite as bad as it could be.

The five days they didn't know if they could save my leg or not I stretched to ten.
Originally published in The Quarterly, and then in Amy Hempel's short story collection, At the Gates of the Animal Kingdom.

The Man is still there. He's trying to jump and run no one knows. Will you give a hand and talk him down safely? Thank you.

Trajectórias e Colisões

A Quasi Edições chega em breve a Macau, talvez já tenha passado por cá em alguma amostra, mas desta vez vai instalar-se na Bloom recheada com as suas armas e bagagens.
A Editora foi criada há vários anos em Famalicão, e logo se distinguiu pela reconhecida qualidade de alguns dos nomes publicados e pela dedicação gráfica aplicada aos seus livros.
A par de títulos de António Ramos Rosa, António Cândido Franco, José Régio e Al Berto, de quem foi publicada uma antologia breve, surgiram livros de novos autores, quase desconhecidos, como Jorge Reis Sá e Valter Hugo Mãe, seus fundadores, João Pedro Messeder, Jorge Melícias. Aos quais se juntaram alguns nomes sonantes da literatura como Harold Pinter, Samuel Beckett, Mário Vargas Llosa, entre outros. É dado grande destaque à poesia e nela a Quasi tem sido pioneira ao apostar parte do seu fulgor na propagação deste ramo da literatura.

Destacamos para hoje Patty Diphusa e Outros Textos, um romance que carrega em si todo o mundo especial de Pedro Almodóvar, com introdução de Pedro Támen, foi publicado recentemente pela Quasi Edições.

Patty Diphusa, estrela internacional (afirma ela) de fotonovelas porno, é convidada pelo director de uma revista pós-moderna a relatar as suas memórias. Patty nunca dorme, tendo por isso muitas coisas para contar. Para ela, a noite é tudo; as suas aventuras, repletas de variadas e inimagináveis experiências relacionadas com sexo e droga, servem-lhe para reflectir, a seu modo, sobre a condição humana. Embora os seus relatos estejam cheios de felácios, cunilingus, penetrações diversas, inaugurações de galerias de arte, discotecas, táxis, fotonovelas porno, etc., no fundo eles contam-nos a vida de uma rapariga que foge da solidão, como qualquer outra pessoa, dotada de uma capacidade inesgotável para o prazer e com nenhuma capacidade para a decepção. Uma vitalista implacável. Forjada no auge dos anos 80, Patty reflecte os dias e noites madrilenos, repletos de personagens que parecem oriundos de um catálogo de traumas e vícios. Os «Outros Textos» são uma selecção de textos que Pedro Alomodóvar escreveu para jornais e revistas. Involuntariamente, estes textos acabam por compor uma verdadeira autobiografia do realizador espanhol, da sua trajectória, tanto pessoal como profissional.



"Patty Diphusa e Outros Textos"
de Pedro Almodóvar

Romance ● 2007 ● ISBN: 9789895522453

Wear bright colors. Open your mind. Learn a magic trick and entertain every kid you meet. Question your assumptions. Master a tune on a musical instrument. Hug someone. Let someone beat you in an argument. Daydream. Give books, not toys. Hold your temper. Enjoy life, a happier you is better for everyone else. Go for a swim. Give a stray animal a home. Volunteer for something. Give someone hope. Learn all about an historical era. Learn a dance. Compliment the next child you meet. Recycle. Try a drink you never had before. Indulge yourself. Don’t worry, be happy. Inspire someone. Climb a mountain [or even a hill]. Make someone laugh. Scare yourself. Right out of the blue, tell someone you love him or her. Remember the meaning of life [make others happy]. Set a goal. Give someone a break. Learn a song in a foreign language. Take the long way around. Stand up to a bully. Grow an herb garden. Read a children’s book. Attempt something incredibly difficult. Look for the best in someone you dislike. Develop an outlandish philosophy. Buy a puzzle toy and figure it out. Watch the sun rise. Get a complete health check-up. Ride a bicycle. Get a pen pal. Buy someone a non-birthday present.

Another new thing @ Bloom


Just arrived the precious collection of FormAsia Books!
There is always something new @ Bloom ;-)

We have news!

Yes, two new things will happen here.
One comes from our physical place at BLOOM and is all about our new space coming up on the first floor. It will be our kids section and it's beautiful. We've just finished the painting today. Will receive an upgrade later on because we need to change the windows. But the old and the new are always a good mixture and so we plan to open it very soon. Prepare yourself, prepare your kids, we'll have many things to make you happy.

The second is related to our new Germinator at this blog, Rui, the man from Bogota, will reveal all his expertize and all his passion about the written word. He will bring drops from the books he reads everyday. We are very glad to welcome him here.

We have closed, two days ago, our third month of activities at Bloom. We opened back in the 15th of February and since then many things happened and most of all many books were taken home. That was the confirmation of a demand that we came to supply. People still love books.
On the third month we sold 25% more than the previous month and that makes us very happy because we can continue thoroughly. So we must thank you all for being there.

THE MAN FROM BOGOTA
A Short story by Amy Hempel

The police and emergency service people fail to make a dent. The voice of the pleading spouse does not have the hoped-for effect. The woman remains on the ledge - though not, she threatens, for long.
I imagine that I am the one who must talk the woman down. I see it, and it happens like this.
I tell the woman about a man in Bogota. He was a wealthy man, an industrialist who was kidnapped and held for ransom. It was not like a TV drama; his wife could not call the bank and, in twenty-four hours, have one million dollars. It took months. The man had a heart condition, and the kidnappers had to keep the man alive.
Listen to this, I tell the woman on the ledge. His captors made him quit smoking. They changed his diet and made him exercise every day. They held him that way for three months.
When the ransom was paid and the man was released his doctor looked him over. He found the man to be in excellent health. I tell the woman what the doctor said then - that the kidnap was the best thing to happen to that man.
Maybe this is not a come-down-from-the-ledge story. But I tell it with the thought that the woman on the ledge will ask herself a question, the question that occurred to that man in Bogota.

He wondered how we know that what happens to us isn't good.
THIS IS THE KIND OF PEARLS THAT RUI OFTEN BRINGS TO US AT BLOOM. NOW AT A COMPUTER NEAR YOU!

This one is my favorite too!

Beast in Sediment is the winner!

A picture that took nine years to obtain and was almost deleted at the last minute has won the Shell Wildlife Photographer of the Year award.
Goran Ehlme's shot of a walrus feeding on clams on the sea floor is a whirl of grey; the animal's face is seen poking through a cloud of disturbed sediment.
He caught the magic moment on a digital camera and deleted many unwanted shots.
"My finger was poised to delete this one too, and then I noticed something special," he told the BBC News website.
The competition has become one of the most prestigious in world photography.
It is organised by BBC Wildlife Magazine and London's Natural History Museum. This year brought more than 18,000 entries from 55 countries.

Goran is a highly experienced natural history filmmaker. His work has featured in the BBC's Blue Planet and Planet Earth series, and on National Geographic TV.
The Swede has spent almost a decade getting to know the behaviour of the walrus and how to get close to the mammal without being attacked.
Weighing 1.5 tonnes, these beasts can be extremely dangerous if they feel threatened, and their big tusks have been known to kill even the great Arctic predator, the polar bear.
"It was while the walrus had gone to the surface for air. Underwater, with a mask on, with a housing around the camera, it was really hard to see the little screen; but I suddenly thought 'wow!, there's his head in the cloud'.
"It looked really great."
The judges certainly thought the image was very powerful.
"It's got everything, the feel of the picture is interesting, your attention goes straight to the eye. A very simple graphic image showing interesting behaviour," said chairman of the judges, Mark Carwardine.
Judge Andy Mclane added: "You get a real sense that you're seeing something you've never seen before. Epic. You could spend years trying to get this shot."
More BBC Wildlife prized photos here.

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