Nos dias seguintes, em conversas com colegas meus de outras unidades mais perto dos acontecimentos fiquei a saber mais ou menos como começara todo aquele tiroteio às nove da noite.
Em visitas anteriores às Portas do Cerco eu já tinha visto que a nossa fronteira não passava de um risco feito no chão da estrada de terra batida que partindo de Macau entrava pelas terras da China, naquela altura não era mais do que um descampado, com um forte à esquerda numa colina a que se chamava o Passaleão e à direita, a poucos metros da tal fronteira, uma casamata em cimento, redonda e com uma fresta por onde espreitava uma metralhadora.
A tropa chinesa da guarnição em serviço na fronteira com Macau não passava de uma frota mal fardada, alguns com alpercatas, calças com rasgões e uma atitude arrogante e provocadora. Dizia-se que eram voluntários da guerra na Coreia que ao fim de um certo tempo eram colocados na guarnição da fronteira com Macau como uma espécie de regalia.
Do nosso lado, a guarnição era composta por soldados provenientes de Moçambique, africanos destacados pelo nosso exército para cumprir o serviço militar em Macau.
Acontece que, naquele dia a nossa sentinela com um pau tinha acabado de avivar o traço no chão que constituía a fronteira e foi fazer a sentinela andando para trás e para diante mesmo junto à linha do chão. A sentinela chinesa por sua vez foi fazer exactamente o mesmo, isto é marchar de espingarda ao ombro com os pés mesmo junto ao risco. Ao cruzarem-se os dois bateram com os ombros um no outro e a sentinela chinesa foi parar ao chão. Não esteve com meias medidas. Pegou na espingarda e matou a nossa sentinela que ficou estendida na terra. Com todas aquelas provocações e alarido tinha-se entretanto juntado muita gente nas Portas do Cerco do nosso lado a assistir àquela cena. Com a morte da sentinela começaram a gritar e da casamata chinesa partiu uma rajada de metralhadora que varreu de um lado ao outro da estrada aos pés daquela multidão. Mas quando se preparavam para nova rajada mais alta e que mataria muita gente, o sargento da guarda do nosso lado deu um tiro em direcção à casamata e a metralhadora nao disparou mais. Depois todos desataram a correr para dentro de Macau e as Portas do Cerco foram fechadas. Mas havia a sentinela morta deitada no chão. O Chefe do Estado Maior deu ordens para que alguém a fosse buscar e então um capitão foi de rastos até à sentinela e arrastou-a de volta para Macau. Contudo ainda levou com um tiro no traseiro.
Como se pode calcular ficou tudo debaixo de tensão, com todas as unidades em alerta máximo.
Ora acontece que entre as Portas do Cerco e a Ilha Verde havia uma fortaleza quase subterrânea, uma espécie de corredor com uma parede virada para o Canal dos Patos, com pequenas aberturas de dois em dois metros onde se encontrava uma metralhadora em cada uma delas. Como se pode calcular, nessa noite estava tudo nos seus postos em alerta, quando uma das sentinelas viu aparecer na fresta em que estava instalada a metralhadora a cara de um chinês. Instintivamente começou a disparar e por afinidade todos começaram a disparar. A unidade que estava instalada na Ilha Verde esgotou a reserva de morteiros e o tiroteio só parou quando os oficiais quase à força, correndo de um lado para o outro, conseguiram ordenar que parassem com isso.
O resto da noite passou-se em silêncio. Só alguns tiros esporádicos disparados para apagar as luzes de Macau conforme fora ordenado. Mas, no dia seguinte pela manhã, quando o sol nasceu, viu-se que o Canal dos Patos estava coalhado de mortos. A guarnição chinesa tentara invadir Macau durante a noite e fora surpreendida pelo tiroteio que a desbaratara.
Como a situação foi resolvida sem termos sido expulsos de Macau nessa altura eu não sei, mas dizem que o Governo da China reconhecia que a invasão tinha sido um acto local e solitário (não havia ordens superiores para essa invasão) e tudo o que pedia era uma indemenisaçã por cada soldado morto. E a partir daí a guarnição chinesa das Portas do Cerco passou a ser desempenhada por soldados regulares, bem fardados e disciplinados.
Bookmarkers: Bloom Exclusives, Cinema, Macau, Português, Vida / Life
Julia Rothman is our first name on this section. She's an illustrator - should I say artist? - who lives most of the time in Brooklyn where she landed up her office. She stuns the world with beauty creations: illustrations, patterns, graphic design, etc. Like the Midas King, everything she touches produces fortune and gold. Check her work closely and then tell us what you think.
She holds up another site named Books By Its Cover and as the name goes it's a set of collected books that have been put online, a wide selection of genres but most of all they share the same aspect: the illustrations found on its pages, not just the cover but the whole book inside. The object. This is one example by Miyuki Yoshida the title of the book is Paper Folding for Pop-Up followed by what Julia wrote about it, so you can shape the site:

I was in Chicago last weekend visiting my Also partners Matt and Jenny, who also happen to be my best friends. They know exactly what I like and took me on a little excursion to this amazing architectural bookstore, Prairie Avenue Bookshop. Apparently it’s Chicago’s largest design bookstore. It was really big but most of it was full of architecture books which don’t really interest me as much. They did have a small section devoted to design books which is where Jenny found me this book. It’s a book that teaches you how to make interesting pop-ups. Some of them are really simple, a few cuts and folds. Others are ridiculous. The book was really hard to photograph with one hand holding the book open and one holding the camera, so these pictures don’t do it justice. I feel in love with it immediately- a book of blank pages that fold open to reveal a burst of popping color. I splurged on this book ($60), since I was on vacation and since I justified the purchase with the idea that one day this book would come in handy. I don’t know when I will make a pop-up book but when I do it will be so easy- this book comes with a cd full of templates. I also thought it would be hard to find elsewhere since it’s another PIE book. But I found you can get it here.


In 2002 Jenny Volvovski (a great designer), Matt Lamothe (a great animator) and Julia founded a company named Also, that's Brooklyn yes, right on the 3rd Avenue, where the world starts. Julia likes milkshakes, books and long walks with her dog Rudy. Send her your regards here.
Bookmarkers: Brooklyn People, English, Taste it, The Greatest, Vision
Aquela tropa em que eu fora incorporado tinha por missão substituir a guarnição de Macau que aqui permanecera durante a guerra. Na realidade, ao que parece, quando o Japão declarou a guerra, o Governo Português previu que as tropas japonesas avançariam pela China dentro e chegariam até Macau e Hong Kong. Previa-se uma carnificina. Assim, foram as cadeias, mobilizaram todos os presos de delito comum e trataram de os enviar para Macau como guarnição militar deste território. Quando chegámos para os substituir, encontrámos um ambiente de cortar à faca. Um dia entrei num café que estava cheio de gente. Minutos depois olhei à minha vcolta e estava sozinho. Na Almeida Ribeiro, quando descia a avenida todos os chineses atravessavam a rua para sair do meu caminho. O capitão Aranda, famoso capitão de engenharia andava pela cidade num jeep sem carroçaria e sentado num caixote. Subia e descia escadas e por vezes até entrava em lojas. Contavam-se as mais estranhas histórias sobre a vida em Macau durante a guerra. Passara-se fome (na verdade morrera-se de fome), comera-se carne humana e Macau chegara a ter um milhão de habitantes, mais do que Lisboa que só tinha seiscentos mil. Porém os japoneses nunca entraram em Macau. Respeitaram sempre a nossa soberania. Estas histórias foram-me confirmadas pela mimha mulher que aqui vivera durante todo esse tempo. Um dia, nas Portas do Cerco, surgiu um general japonês todo armado de pistola à cinta, a querer entrar. Havia ordens expressas para não deixar ninguém armado em Macau e a sentinela disse-lhe exactamente isso. O general desatou a rir às gargalhadas e disse - Você sabe quem eu sou? Eu sou o Comandante de todas as tropas em redor de Macau.
Assim ele entrou, armado e tudo, e nessa noite foi ao Casino do Fu Tak Yam, hoje Hotel Central, tomou o elevador no rés do chão e quando chegou ao terceiro andar a porta do elevador abriu-se e diante dele estava um chinês com uma pistola que lhe deu três tiros na cabeça.
O resultado de tudo isto foi que os japoneses exigiram que fosse preso o assassino do seu general e o Governo de Macau acabou por prender um chinês dizendo que tinha sido ele. À boca pequena, o que se dizia entre a população, era que o general tinha sido morto por um polícia com ordens do Governo de Macau e que aquele chinês estava combinado para dizer que tinha sido ele.
Porém os japoneses exigiram que lhes fosse entregue o assassino e isso complicou tudo. Assim o Governo de Macau concordou em fazer a entrega mas, por azar, durante a operação o preso tentou fugir de forma violenta e teve de ser abatido. E foi esse cadáver que foi entregue.
Ora durante o meu período de tropa sucederam algumas coisas que muito me assustaram.
Eu, como já disse, prestava serviço na Secretaria do Quartel General e um dia soubemos que tinha havido um tiroteio nas Portas do Cerco e entrámos de prevenção. Assim, por volta das nove horas da noite começámos a ouvir metralhadoras a fazer fogo e tiros esporádicos e a certa altura até ouvi um canhão a disparar. Fui à janela da secretaria e vi na encosta da Ilha da Lapa, pertencente à China um grande clarão ao mesmo tempo que ouvia o estrondo de uma peça de artilharia a fazer fogo. Pensei - Estão a bombardear Macau e fiquei à espera de ouvir ,como já vira em diversos filmes, um assobio seguido por uma explosão. Mas isso nunca chegou a acontecer. De repente tudo parou e ficou um silêncio expectante. Um pouco depois recebemos ordem de sair para a rua e apagar as luzes da via pública a tiro. O que se dizia era que o Quartel General dera ordens à MELCO para apagar todas as luzes da cidade mas esta recusara-se a fazê-lo. Assim, se não apagavam a bem teriam de ser apagadas a mal. Ainda fui encontrar colegas meus do Quartel da Administração militar muito entretidos na rua a fazer tiro ao alvo para apagar os candeeiros públicos.
Bookmarkers: Bloom Exclusives, Cinema, Macau, Português, Vida / Life
- Don't let yourself down. Be strong. Go for it!
- What?
- Yes! Stand up. Let it go, that ignominious universe.
- Who?
- The worms. The less, the fewer, the meaningless. The in vain!
- Oh, come on... what are you saying? Who are you?! Where did you come from?
- Insignificant sons of a bitch!
- Would you like to watch out your manners?
- The sophomoric, inflated by bullshit, useless...
- Allright you had your time, now you can go.
[PAUSE]
- Ok. Thank you very much. Where do I get payed?
- You get payed by the next time you come?
- What?
- Yes, you get payed by space in this blog. We let you come again. Not just once, but more. Each time you come you get another chance.
- And do you think that's fair? And how do I eat?
- That's fair enough. You eat your own words. Thank you. Bye bye.
And the man is pushed out of this blog!
Bookmarkers: Bloom Exclusives, English, Ring Joid
Harry Potter's eco-pages magic to earth-friendly ears!
Mary Lamey, CanWest News Service
Published: Wednesday, July 18, 2007
The seventh book in the blockbuster Potter franchise is being touted as the greenest book in publishing history, thanks to a non-profit group that has persuaded publishers, printers and pulp producers to opt for forest-friendly paper.
Raincoast Books, which expects to sell about 1.2 million copies of "Deathly Hallows," was the first publisher to back the initiative in 2003.
Today, 16 publishing houses worldwide have committed to using recycled, or ancient forest friendly (AFF), paper for the final instalment of J.K. Rowling's wizard tale.
That will mean 200,000 fewer trees will be felled to feed Potter demand, or the equivalent of 2.5 green and leafy Central Parks, according to Nicole Rycroft, executive director of Markets Initiative, the Vancouver-based group behind the push.
Full story here.
Bookmarkers: English, Environment, In Bloom, Livros / Books
The word "Book" has its origin on the Old English bōc [a document or charter], bōcian [to grant by charter,] of Germanic origin; related to Dutch boek and German Buch, and probably to BEECH (on which runes were carved).
PHRASES
bring someone to book bring someone to justice; punish.
by the book strictly according to the rules: a cop who doesn't exactly play it by the book.
close the book on lay aside; expend no further energy on: Congress closed the book on wool subsidies.
in someone's bad (or good) books chiefly Brit. in disfavor (or favor) with a person.
in my book in my opinion : that counts as a lie in my book.
make book take bets on the outcome of an event: figurative I wouldn't make book on it.
one for the books an extraordinary feat or event.
on the books contained in a book of laws or records: discriminatory laws still on the books the longest pitching career on the books.
People of the Book Jews and Christians as regarded by Muslims.
suit one's book Brit. be convenient to one : it didn't suit her book at all to be moved.
take a leaf from (or out of) someone's book imitate or emulate someone in a particular way : Gorbachev must take a leaf from Deng's book and offer tangible benefits.
throw the book at informal charge or punish (someone) as severely as possible.
wrote the book be the leader in the field : John wrote the book on goatpacking.
you can't judge a book by its cover proverb outward appearances are not a reliable indication of true character.
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Recycle The Essential Guide is an indispensable handbook to recycling today. With vibrant visuals and a clear, accessible layout, the book illustrates all angles of the subject — from the urgency of resource depletion on a global scale to what the individual reader can do in their own home, and from corporate strategies for a greener future to burgeoning small scale eco-design projects.
Recycle opens with an introduction from renowned Guardianjournalist, Lucy Siegle. In her own inimitable way, Siegle contextualises recycling in the global economy; discussing change and continuity and raising questions about the future of a practice that has it's origins in Plato's Republic.
Comprehensive sections on recyclable materials: Paper, Plastic, Metal, Glass, Household Waste and Compost follow. Each material is explained in depth; how it is sourced, its impact on the environment, how it can be recycled and what each individual reader can do to facilitate this process.
It's time to wake up and smell the rubbish. It's time to take responsibility for our waste.
Recycle is the essential guide for all those who want to take that journey but aren't sure where to start.
Recycle, The Essential Guide • Black Dog Publishing
[Learn more on environment here]
Bookmarkers: English, Environment, In Bloom, Livros / Books
Harry Potter's last adventure is all set and ready to be released next Saturday July 21st.
Come to visit us next Saturday and get your copy of Harry Potter and the Deathly Hallows!
Bloom has the best price in town!
(want to guarantee a copy of the book? write to me!)
Bookmarkers: English, In Bloom, Livros / Books
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O narrador deste romance é um estudante que, ao chegar a Nova Iorque para uma pós-graduação, conhece na universidade uma rapariga bastante enigmática chamada Kim pela qual se apaixona doidamente. Apesar de achar que nunca será capaz de a conquistar, acaba por ser correspondido no seu amor, embora não chegue nunca a decifrar inteiramente os mistérios que envolvem a rapariga. É por isso também que a morte desta, brutal e inesperada, o vai encher de culpa e remorso e lançá-lo numa espiral descendente que o transformará num autêntico vagabundo. É então que, sem dinheiro nem bens, o protagonista chega ao Hotel Memória, um estranho lugar na Baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas; e é também aí que conhece Samuel, um excêntrico milionário que o desafia a procurar um fadista português desaparecido, Daniel da Silva, emigrado para os Estados Unidos na década de sessenta. A pouco e pouco, deparando-se com o inesperado a cada esquina, o narrador vai-se embrenhando nesse mistério por resolver, e a busca por Daniel da Silva transforma-se na busca do seu próprio eu, da sua identidade perdida e do seu passado. Tendo Nova Iorque como pano de fundo, dos anos sessenta até ao presente, e criando a figura inesquecível de Daniel da Silva, o fadista que conquista Manhattan com o seu talento, Hotel Memória é, ao mesmo tempo, um romance de mistério, um policial e uma aventura. Inspirado pela ficção de Edgar Allan Poe e de Melville, que são referências constantes, é um livro ao mesmo tempo intrigante e comovente, que lida com os fantasmas da memória, da culpa e da redenção.
«Romance passado em Nova Iorque, com epílogo em São Francisco, impregnado de uma atmosfera tipicamente americana, dotado de um estilo cuidadamente lírico, romântico, que eleva a escrita jornalística corrente (profissão do autor) a literatura, povoado de personagens desenraizadas (mexicanos, ingleses, portugueses, russos, chineses...), de seres inocentes (Kim) e generosos (Manuel) e de seres escabrosos (chineses dos restaurantes; máfia russa substituta da italiana), de prédios em ruínas habitados por famílias arruinadas, cruzando simultaneamente o apelo nostálgico do fado com a vivacidade do jazz e a atmosfera universitária com o ambiente sórdido das ruas dos velhos bairros nova-iorquinos (...) João Tordo retrata nos seus romances os elementos principais das metrópoles do final do século XX. A solidão, o desenraizamento, o abandono existencial, o vazio ontológico, apenas preenchidos pela futilidade, o anonimato e a banalidade do mal, que o herói combate, criando uma vontade de rectidão e justiça (...) Romance de leitura obrigatória, revelando um futuro grande escritor.»
Miguel Real, Jornal de Letras
"Hotel Memória", onde o mistério, o romance e o policial confluem numa só história, encontra-se na Bloom.
Hotel Memória, de João Tordo
Editora Quidnovi • ISBN: 9789728998523 • 2007
Bookmarkers: Contos/ Short Stories, In Bloom, Português
Como facilmente se poderá imaginar, depois de uma viagem de um mês em direcção a uma terra sobre a qual nada sabia e onde teria de ir viver, a minha mais urgente preocupação, lógica para um jovem de vinte e três anos naquela situação era se haveria raparigas. Assim, a primeira coisa que fiz após a minha chegada a Macau foi correr para a Messe de Sargentos, tirar a farda, vestir-me à paisana e sair para a rua numa missão de prospecção. Deparei logo a atravessar a rua na Praia Grande com uma jovem extremamente elegante com uma cintura incrivelmente fininha uma saia branca que lhe dava pelo joelho e uma blusa vermelha. Eu fiquei a vê-la afastar-se e pensei cá para mim - Bem... Não estamos mal.
Cerca de uma semana depois, ia eu na rua com um colega meu, sargento, quando passamos diante de um café e sentadas numa mesa estavam duas jovens. O meu companheiro cumprimentou uma das jovens e a outra era aquela que eu havia visto a atravessasr a rua quando cheguei. Então perguntei ao meu amigo se a conhecia e ele disse-me que sim porque aquela rapariga era amiga da sua namorada. Perguntei-lhe pois se me podia apresentá-la. Ele respondeu que sim e voltámos para trás até ao tal café. Daí resultou que fiquei a conhecer a tal moça que eu vira pela primeira vez ao chegar a Macau e daí resultou também que me apaixonei por ela, começámos a namorar e acabámos por ir viver juntos.
Como é natural ela acabou por engravidar e eu quis casar com ela mas não me foi permitido pela tropa que só me permitia o casamento se tivesse vinte e cinco anos. E assim nasceu o nosso primeiro filho que só pode ser registado como nosso filho quando nos casámos pela Igreja dois anos depois.
Mas, entretanto, muita coisa se tinha passado. Veio a Macau o Primeiro-ministro, Sarmento Rodrigues, fazer uma visita e trouxe com ele o produtor Ricardo Malheiros e um operador de câmara para documentar essa viagem. Quando o Ricardo Malheiros me encontrou ficou muito surpreendido. Ele conhecia-me dos tempos da Cinelândia onde assistira a várias demonstrações promocionais feitas por mim. Então teve a ideia de ir pedir ao Comandante Militar que me dispensasse dos meus serviços na secretaria do Quartel General, onde fora colocado, para ir trabalhar com ele nuns quantos trabalhos documenmtais a que estava entregue.
Assim foi. Fiz um documentário sobre os Correios de Macau, onde também na altura fiz um grande amigo que era funcionário daquela organização - o Rui Senna Fernandes.
Também fiz um outro documentário inesquecível sobre o enterro do pai do Ho In, um milionário associado do Dr. Pedro Lobo que naquela altura era talvez o homem mais poderoso de Macau.
Aquele desfile prolongou-se por horas na Almeida Ribeiro. Incorporou quase todas as bandas chinesas do território e até talvez da China e de Hong Kong. Só carpideiras desfilaram perto de quatrocentas. Ao longo da Avenida homens em bicicletas andavam para trás e para diante distribuindo lai sis, isto é, pequenos envelopes vermelhos com dinheiro. O caixão transportado por mais de vinte homens era um monumento em madeira trabalhada com quase dois andares de altura
E com tudo isto tive de ir frequentemente a Hong Kong para revelar os filmes fazer as cópias de montagem, sonorizar e finalmene fazer as cópias finais, Hong Kong tinha uma indústria de produção de filmes próspera e activa e, Macau... NADA.
Os Estúdios dos SHAW BROTHERS produziam um filme de vinte em vinte dias que estreavam em Hong Kong, nos seus cinemas de Singapura e nos cinemas do Brasil dedicados às comunidades chinesas. Os WADER STUDIOS também tinham uma produção regular de filmes de Karaté e não só. Havia ainda vários estúdios de som e salas de montagem disponíveis.
E MACAU... NADA.
Eu dizia muitas vezes porque é que Macau pode ser uma LAS VEGAS e não uma HOLLYWOOD?
A ilha da Taipa era um descampado e eu sonhava que ali poderiam ser construídos grandes estúdios capazes de dar grandes contributos para a cinematografia chinesa e até talvez, também, para a cinematografia Macaense.
Bookmarkers: Bloom Exclusives, Cinema, Macau, Português, Vida / Life
Thirty years of Africa images, selected by Salgado himself
Sebastião Salgado is one the most respected photojournalists working today, his reputation forged by decades of dedication and powerful black and white images of dispossessed and distressed people taken in places where most wouldn’t dare to go. Although he has photographed throughout South America and around the globe, his work most heavily concentrates on Africa, where he has shot more than 40 reportage works over a period of 30 years. From the Dinka tribes in Sudan and the Himba in Namibia to gorillas and volcanoes in the lakes region to displaced peoples throughout the continent, Salgado shows us all facets of African life today. Whether he’s documenting refugees or vast landscapes, Salgado knows exactly how to grab the essence of a moment so that when one sees his images one is involuntarily drawn into them. His images artfully teach us the disastrous effects of war, poverty, disease, and hostile climatic conditions.
This book brings together Salgado’s photos of Africa in three parts. The first concentrates on the southern part of the continent (Mozambique, Malawi, Angola, Zimbabwe, South Africa, Namibia), the second on the Great Lakes region (Congo, Rwanda, Burundi, Uganda, Tanzania, Kenya), and the third on the Sub-Saharan region (Burkina Faso, Mali, Sudan, Somalia, Chad, Mauritania, Senegal, Ethiopia). Texts are provided by renowned Mozambique novelist Mia Couto, who describes how today’s Africa reflects the effects of colonization as well as the consequences of economic, social, and environmental crises.
This stunning book is not only a sweeping document of Africa but an homage to the continent’s history, people, and natural phenomena.
The photographer: Sebastião Salgado was born in Aimorés, state of Minas Gerais, Brazil. A former economist, Salgado began his career in Paris as a professional photographer in 1973 and subsequently worked with the photo agencies Sygma, Gamma, and Magnum Photos. In 1994, Lélia Wanick Salgado and Sebastião Salgado created Amazonas images, an agency that handles exclusively his work. Salgado travels throughout the world for his photographic projects which have been featured in numerous international periodicals as well as books, including Other Americas (1986), Sahel: l’homme en détresse (1986), Workers (1993), Terra (1997), Migrations (2000), and The Children (2000). Exhibitions of these bodies of work tour internationally. Salgado has been awarded numerous major photographic prizes in recognition of his accomplishments and is a UNICEF Goodwill Ambassador. Together Lélia and Sebastião have been working since 1991 on the restoration of a small part of the Brazilian Atlantic Rainforest, in the Rio Doce Valley, where they created Instituto Terra, a natural reserve and environmental educational center. Salgado’s current photographic project is Genesis, a series of black-and-white photographs of landscapes, wildlife, and human communities around the globe that represents a search for nature in its original state.
The author: Mia Couto has published 20 books including novels, short-stories and poetry. Translated in more than 20 countries Mia Couto is the best known and awarded author from Mozambique. His first novel, Sleepwalking Land, was classified by an International jury, as one of 12 best African books published in the 20th century. Mia Couto has received national and international awards and has been short listed for the Caine International Prize (2001), the Independent Foreign Fiction Prize (2005) and the International IMPAC Dublin Literary Award (2006). Mia Couto lives in Maputo (Mozambique) and works as an ecologist.
Africa by Sebastião Salgado
Lélia Salgado (ED) + Mia Couto
TASCHEN • Hardcover • 336 pages • OCT 2007 • 650 MOP$
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Numa manhã de Primavera de 1957, David Douglas Duncan, o veterano fotojornalista, fez uma visita a Pablo Picasso, seu amigo e frequente objecto fotográfico, na casa do artista, perto de Cannes. Como co-piloto ao lado de Duncan, no seu Mercedes Gullwing 300 SL, encontrava-se o dachshund de estimação do fotógrafo: Lump. Fotógrafo e cachorro eram companheiros próximos, mas o estilo de vida nómada de Duncan e o seu outro cão - um gigante e ciumento galgo afegão que havia tiranizado Lump - tornavam difícil a vida deste em Roma. Quando, naquele dia mágico, chegaram a Villa La Californie, a propriedade de Picasso, Lump considerou que tinha encontrado o paraíso na terra e que iria mudar-se para lá, juntando-se a Picasso, quer fosse bem-vindo quer não. Em alemão, país onde nasceu, Lump significa "pequeno malandro".
Esta história jubilosa acerca do artista e do seu cão, aqui contada pela primeira vez, proporciona uma imagem sensível e invulgar de Picasso. Lump foi imortalizado num retrato de Picasso pintado num prato no mesmo dia em que se conheceram - mas isso seria apenas o início.
Na explosão que deu origem às quarenta e cinco pinturas inspiradas na obra-prima de Velásquez, Las Meninas, Picasso substituiu o impassível cão de caça que está em primeiro plano por representações jocosas de Lump. Hoje em dia, e como presentes do artista para aquela que foi a sua cidade da juventude, todas estas telas resplandecentes são a atracção principal em exibição no Museu Picasso de Barcelona. Destes quadros, cerca de catorze são aqui reproduzidos a cores, justapostos às dramáticas e íntimas fotografias a preto e branco de Picasso e Lump, tiradas por Duncan, encerrando o ciclo da odisseia de um solitário dachshund, que encontrou o seu caminho num Mercedes 300 SL, para se transformar no peludo e ultra-esticado animal de estimação icónico da arte do século XX.
Uma viagem ao universo único desta forte e caricata dupla, num lindo livro trazido até vós pela Bloom!
PICASSO & LUMP - A História do Cão que Comeu um Picasso, de David Douglas Duncan
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É difícil imaginar a vida a bordo de um navio transformado em transporte militar que empreende uma viagem a partir de Lisboa em direcção a Macau passando pelo Canal do Suez, viagem essa que duraria aproximadamente um mês. Quando chegámos ao Cairo já estávamos todos ansiosos por ir a terra. Não fomos autorizados. Limitamo-nos a ver o deserto a partir do convés do nosso navio e depois entramos no Golfo de Aden. Um mar sereno, azul a perder de vista. Nem uma onda nem uma réstea de vento. Parecia que navegávamos num espelho azul. Um calor insuportável. A bordo andavamos em peito nu e o comandante de bandeira ordenou que fossem montadas no deck mangueiras que deitavam água bombeada do mar, uma espécie de chuveiros que sempre ajudavam um pouco a combater o calôr insuportavel. No meio daquele deserto um dia passou por nós um outro navio de carga e passageiros que trazia na ponte de comando duas raparigas. Imagine-se o que foi ver o nosso navio, o Índia, todo inclinado a bombordo com perto de dois mil homens ao longo da amurada dando um grito entusiástico quando as duas raparigas no outro navio acenaram para nós. Aquela visão depressa passou ficando apenas um risco branco naquela superfície azul assinalando a passagem do outro navio. Depressa voltaram também os confrontos entre os homens a bordo que ja não se podiam ver uns aos outros. Aquilo era como uma prisão ou talvez pior porque não havia nada para fazer.
A chegada a Singapura era a grande esperança.
Quando chegámos, ficámos ancorados ao largo de umas ilhas e para ir a terra era preciso tomar uma lancha. Aliás entre as ilhas circulavam montes de lanchas porque nelas estavam instaladas várias empresas e a sua ligação com as outras era feita com essas lanchas.
Grande desapontamento. O Cônsul de Portugal veio a bordo e disse que não podiamos ir a terra porque precisamente nesse dia os revoltosos da Malásia que queriam a independência da Inglaterra, iriam desencadear um ataque terrorista contra os ingleses e nós não poderíamos ser envolvidos nisso.
Foi um choque terrível. Todos desataram a protestar e alguns até ameaçaram deitar-se ao mar e nadar para terra (o que não seria nada fácil dadas as distâncias). Então o Cônsul prometeu que iria ver o que se poderia fazer e por volta das quatro e meia da tarde voltou com a notícia de que tinha chegado a um acordo com os revoltosos que protelaram a sua revolta para depois da meia noite e assim poderíamos sair e ir para Singapura em grupos de cinco, fardados, estando de regresso ao navio à meia noite desse mesmo dia.
Assim foi. Visitei Singapura, frequentei com os meus companheiros um cabaret onde dançámos até perto da meia noite e conheci um polícia à paisana inglês que se intitulava a si mesmo como o Charlie Chan de Singapura. O Charlie Chan era um famoso detective de ficção do cinema.
À meia noite estava o pessoal todo na formatura a bordo para se fazer a chamada e faltava um sargento. Ficámos todos de baixo de grande tensão. Por volta da uma da manha ouvimos no escuro da noite o ruído de uns remos de uma lancha que se aproximava do nosso navio. Era o meu companheiro que chegava. Ele subiu pela escada de corda lançada do convés e quando chegou ao nível onde estavamos todos perfilados na formatura, olhou para nós e largou uma gargalhada. O comandante de bandeira deu ordens imediatamente para que ele fosse preso e fechado no porão. E lá ficou até chegarmos a Hong Kong.
Em Hong Kong fomos divididos em grupos e enviados para Macau. Finalmente chegávamos ao nosso destino.
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The dancers' chests are closer to each other than are their hips, and often there is contact at about the level of the sternums. In close embrace, the sternums of both the leader and the follower are in complete contact and they are dancing cheek to cheek. In open embrace, there can be as much space as desired between the partners, but there should always be complete contact along the embracing arms to give optimum communication. Since Argentine tango is almost entirely improvisational, there needs to be clear communication between partners. Even when dancing in a very open embrace, Argentine Tango dancers do not hold their upper bodies arched away from each other; each partner is over his own axis. Whether open or closed, a Tango embrace is not rigid, but relaxed, like a hug.
Photo thanks to here, art by Jan Rae.
Numa Lisboa sem tempo, entre Benfica e o centro, nascem, vivem, sonham, amam, casam, trabalham e morrem as personagens deste livro. No ventre de uma oficina de carpintaria aninha-se o cemitério de pianos, instrumentos cujo mecanismo, à semelhança dos seres que os rodeiam, não está morto, encontrando-se antes suspenso entre vidas. Exílio voluntário onde se reflecte, se faz amor, lugar de leituras clandestinas, espaço recatado de adúlteros, pátio de brincadeiras infantis e confessionário de mortos, é o espaço onde se encadeiam gerações. Os narradores – pai e filho –, em tempos diferentes, que se sobrepõem por vezes, desvendam a história da família, numa linguagem intercalada de sombras e luz, de silêncio e riso, de medo e esperança, de culpa e perdão. Contam-nos histórias de amor, urgentes e inevitáveis, pungentes, nas quais se lê abandono, violência doméstica e faltas nem sempre redimidas que, no entanto, acabam por ser resgatadas pelo poder esmagador da ternura e dos afectos. Falam-nos de morte, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo entre as gerações e a continuação: o pai – relação entre dois Franciscos, iguais no nome e no destino, por um gerado, do outro genitor – nasce no dia da morte desse primeiro Lázaro; o filho, neto do seu homónimo, morre no dia em que a sua mulher dá à luz.
José Luís Peixoto oferece-nos um texto mágico, no qual se cruzam, numa interacção fluida, diálogos cúmplices com a grande tradição da literatura portuguesa e universal.
Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fuiUm pequeno excerto do livro "Cemitério de Pianos"de José Luís Peixoto, que em 2001 recebeu o Prémio Literário José Saramago, com o seu romance "Nenhum Olhar". Este e outros livros deste jovem poeta e escritor, estão à sua espera, na Bloom!
distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos.
Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas,
cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela
culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que
deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade
com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha
acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é
minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio:
com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento.
Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto • Editora Bertrand • ISBN: 9722515349 • 2006
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Ora acontece que eu começava a ficar verdadeiramente preocupado com a situação financeira que comprometia o futuro projecto da Cinelândia. Eu achava que o Estado tinha a obrigação de criar as aulas de Educação Cinematográfica nas escolas e apoiar o projecto da produção contínua.
Afinal, como dizia o Sá, o cinema era a primeira linguagem não discursiva inventada pelo homem e o facto de sermos analfabetos nessa matéria não contribuiria em nada para a nossa reafirmação como povo e como cultura.
Ora eu fizera amizade com um jovem como eu, que por sinal era filho do advogado do Dr. José Manuel da Costa. E o Dr. José Manuel da Costa era, nem mais nem menos, que o Director do SNI. O SNI (Secretariado Nacional da Informação) era o organismo oficial que atribuía todos os anos os subsídios para se fazer cinema. O Dr. José Manuel da Costa havia suspendido esses subsídios há três anos porque chegara à conclusão que o sistema não resultava. Os resultados práticos desses subsídios invariavelmente atribuídos a amigalhaços não contribuía em nada para a evolução da nossa cinematografia. Por outro lado o projecto de uma produção contínua, apoiando os mais capazes produtores face aos resultados práticos das suas obras, e que o Sá defendia, era o projecto que eu explicava a esse meu amigo que por sua vez levava essas ideias ao pai, que por sua vez as levava ao conhecimento do Dr. José Manuel da Costa. E, em resultado desta minha actividade o Dr. José Manuel da Costa mostrou um especial interesse em ter uma reunião com o César de Sá para estudar a forma de o Estado patrocinar a acção da Cinelândia nesse sentido. A reunião acabou por ficar marcada para as três da tarde no Palácio Foz nos Restauradores (onde ficava a sede do SNI) e eu, eram duas e meia, já estava a porta do Palácio ansiosamente esperando pela chegada do César de Sá.
Chegaram as três horas e as quatro e do César de Sá... NADA.
Eram precisamente quatro horas quando vejo o Dr. José Manuel da Costa descendo as escadas do Palácio, com um ar bastante zangado e perguntando em voz alta - Afinal esse senhor aparece ou não aparece?
Fiquei arrasado. Ainda hoje não consigo descrever a vergonha que senti naquele momento.
Mas o destino pregou-me nessa altura a maior partida da minha vida. Eu havia recebido um postal do Ministério do Exército convidando-me para uma comissão de serviço em Macau como sargento miliciano incorporado nas tropas que iriam render a guarnição daquela Província Ultramarina na China.
Eu não fazia ideia nenhuma do que era Macau e não tinha intenção nenhuma de aceitar o convite, mas quando fui falar com o Sá por causa da sua atitude para com o Dr. José Manuel da Costa e ele me disse que tinha estado a pensar e resolvera não aceitar o apoio do Estado porque sempre lutara sem ajudas estatais, eu, de raiva, disse-lhe que ia aceitar o convite para ir para Macau.
Talvez estivesse à espera que o César de Sá mostrasse algum arrependimento ou mostrasse alguma forma de querer chegar a um entendimento mas... Nada. Mostrou uma indiferença tal que eu saí da reunião e fui ao Quartel da Graça entregar a minha decisão para o convite que me haviam feito e aceitar a incorporação.
No dia seguinte, quando o Sá soube disto disse-me com ar incrédulo - O QUÊ? Você aceitou ser incorporado no exército para ir para Macau?
E quando eu lhe disse que sim, respondeu-me - Você está maluco. Meteu-se no carro comigo e fez-se à estrada sem destino falando todo o tempo sobre as suas lutas, as suas frustrações e as suas paixões e afirmando que ia pedir a uns amigos que tinha no Ministério do Exército para anular a minha aceitação. Com a conversa acabámos por ir parar a Portalegre. Regressámos, e o Sa não conseguiu nada com os seus pedidos. Fui incorporado e embarcado no navio ÍNDIA, que fazia a sua viagem inaugural com dois mil homens a bordo a caminho de Macau para render a guarnição militar que tinha naquela terra prestado serviço durante o período da guerra com o Japão.
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O “Diário da Guiné” não é só a libertação de um indivíduo, mas sim a libertação de um grupo, à semelhança de outros (poucos) escritos pessoais de guerra. É um sinal de que, trinta e cinco anos depois, há medos que se vencem, num combate que se faz agora com palavras. Mas os diários de guerra ultrapassam o grupo – são também uma pista para os que não têm memória por não terem idade ou para os que estavam fisicamente longe da guerra e dela afastados pelo que não se contava nem dizia.
Estas foram algumas das ideias trocadas no sábado passado na Livraria Bloom, durante a apresentação do livro “Diário da Guiné – Lama, Sangue e Água Pura”, os escritos do quotidiano de António Graça de Abreu combinados com aerogramas e fotografias de então. O livro foi apresentado pelo editor da Guerra e Paz, José Santos, e por Fernando Sales Lopes, residente em Macau que esteve na Guiné durante o período reflectido no livro, de 1972 a 1974.
José Santos explicou como é que surgiu a publicação, “um livro que nos caiu de pára-quedas, para usar linguagem adequada ao tema, uma obra feita em muito pouco tempo.” António Graça de Abreu decidiu ir ao encontro do passado depois de António Lobo Antunes, também ele ex-combatente em África, ter transformado em livro as muitas cartas que escreveu durante a estadia forçada numa guerra da qual sobrou um cheiro forte, um calor contínuo e feridas que dificilmente cicatrizam.
Sales Lopes enquadrou o período em que o “Diário da Guiné” foi escrito, para depois passar da apresentação à discussão aberta com quem foi à Bloom. Porque sobre os livros que ainda não se leram não há grandes questões a colocar, foram levantados outros aspectos em torno da publicação, desde logo pelo formato intimista que assume. Falou-se do fenómeno recente da impressão de diários de guerra, houve consensualidade em torno da falta de ficção sobre o tema. A conversa seguiu com as leituras de cada um, com as experiências de alguns que reconheceram imagens do livro, porque também lá estiveram, com as perguntas de outros para quem está longe a geografia da Guiné.
Depois de “Strolling in Macau”, livro apresentado no final do mês passado, a Bloom optou agora por uma obra em língua portuguesa, sobre um universo lusófono distante mas que está presente em Macau. A terminar, a sensação de que todos os sábados podiam ser assim.
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Hélder Fernando, José Santos e Fernando Sales Lopes. Falou-se da Guerra, de livros e de Paz. Tivemos uma hora ao microfone e ficou o sabor de que não foi suficiente. Há sempre tanto para falar. A Bloom quer repetir. Agradecemos ao Hélder pela oportunidade.
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Comecei a aperceber-me que o César de Sá estava com problemas de financiamento, quando ele resolveu produzir um filme que lhe pudesse trazer mais rendimentos e que não custasse muito caro para produzir. Assim teve a ideia de aproveitar uma peça de teatro que estava em palco no teatro Odeon com bastante sucesso, intitulada - UM MARIDO SOLTEIRO. Era uma comédia com o Eugénio Salvador e a Laura Alves e para se fazer um filme bastava construir os cenários nos estúdios da Cinelândia e filmar.
Assim foi. Pusemos de pé os cenários que na sua maioria eram os interiores de uma habitação para a qual recebemos o contributo, em decoração e mobiliário, dos Armazéns Alcobia. Eles davam essa participação em troca de uma referência publicitária a ser incluída no genérico inicial do filme. E, para este filme foi contratada a orquesta do Frederico Valério, pois que a Laura Alves fazia o papel de uma cantora da rádio e no filme aparecia a cantar acompanhada por aquela orquestra.
Ora o César de Sá tinha contratado o engenheiro Sousa Santos, de que já falei, para tratar da captação sonora do filme. Quando foi preciso gravar a orquestra do Frederico Valerio fui incumbido dessa missão mas o maestro declarou peremptoriamente que se recusava a dirigir a orquestra se não fosse o engenheiro Sousa Santos a fazer a gravação. O César de Sá com toda a sua diplomacia resolveu o problema propondo ao maestro que se fizesse uma gravação dirigida pelo Sousa Santos e depois outra dirigida por mim. O maestro no fim escolheria qual das duas seria aproveitada.
Assim foi. Depois de o Sousa Santos ter feito a gravação com dois microfones captando o conjunto da sonoridade da orquestra, eu entrei a separar os naipes e a colocar miocrofones individuais em cada solista, como já tinha feito anteriormente com as gravações de hot jazz. Por vezes, para isolar melhor os naipes de um ou outro instrumento cuja sonoridade podia ser dominada por outros instrumentos mais potentes e próximos via-me forçado a colocar painéis insonorizados forrados de sarapilheira que formavam uma espécie de gabinete privado para aquele instrumento. O maestro tratou de me levantar todas as dificuldades que pôde na colocação desses painéis, mas no final a consolação que me restou foi que a minha gravação foi a escolhida e a que afinal fez parte do filme.
Já agora e a talhe de foice, vou explicar em que se fundamentava a teoria dos dois microfones defendida pelo Sousa Santos. Dizia ele - Tudo o que ouvimos é com os nossos dois ouvidos. Um do lado esquerdo outro do lado direito portanto para captar som usamos dois microfones um para a direita outro para a esquerda. Eu contrapunha que a nossa audição era muito mais complexa do que isso e dizia - Quando estou num café cheio de gente, com um amigo a conversar, so o oiço a ele e contudo o café tem montes de pessoas a falar que eu não oiço. Nós dispômos de um dispositivo subtil que se chama a atenção e que independentemente dos décibeis (unidades de volume de som) do som geral, nos faz ouvir com mais presença e nitidez o que mais valor tem no seu conjunto.
Numa orquesta com um naipe de trompetes e outro de saxofones com um volume de som extremo e dominante, eu não deixo de ouvir e sentir o contrabaixo que me dá o ritmo, apesar de ter um volume de som em décibeis muito inferior ao dos outros instrumentos.
Hoje já não se discute a captação de som nestas bases mas... naquela altura, eu acho que, em Portugal, fui pioneiro.
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Robert Doisneau's iconic "Kiss at City Hall" sold recently at Artcurial's Paris auction for a record-breaking $240,000--over twelve times the low estimate. The price included buyer's premium and Valued Added Tax (VAT).
A Swiss private collector from Geneva purchased the photograph. The lot had been estimated at 15,000-20,000 euros. Ironically, the direct underbidder was also a collector from Switzerland. The other major underbidders were French (one private, one dealer).
The auction price achieved by the Doisneau image set a record for French post-war photographs, and is one of the most expensive French 20th-century photographs ever auctioned. It clearly shows the direction for the prices of French 20th-century images, which continue to be very hot.
Francoise Bornet, the woman being kissed in the photograph, was the consignor. She had received it directly from Doisneau at the time she posed. The Doisneau family also confirmed the details of photographer's gift, so the image was one of impeccable provenance. The print was in excellent condition and stamped by the photographer. It was accompanied by a letter of provenance from Bornet.
Bornet, who was an actress when the photograph was taken, and her lover Jacques Carteaud at the time were the subjects of the image, which was taken in 1950. Doisneau apparently saw them kissing and asked them to recreate the action for his camera in front of the Hotel de Ville. The casual quality of this very posed image captured the romanticism of after-the-War Paris. Doisneau took the picture for a series on lovers in Paris for Life magazine through the French picture agency Rapho. It later became very famous through various publications, including a poster in the 1980s.
[ "THE KISS..." CAN BE SEEN AT THE MACAU MUSEUM OF ARTS UNTIL THE MIDDLE OF OCTOBER]
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Na Cinelândia tínhamos um aparelho chamado frequencímetro. Teoricamente o ouvido humano só ouve frequências entre os vinte e os vinte mil ciclos. O frequencímetro gerava frequências variáveis, precisamente entre os vinte e os vinte mil ciclos. Os altifalantes de que dispúnhamos tinham a qualidade necessária para reproduzir fielmente essas frequências e assim tive a oportunidade de fazer vários testes à capacidade de audição de muitos dos meus amigos. A maior parte, acima de doze mil ciclos já não conseguia ouvir. O som era tão agudo que a sua membrana auditiva já não vibrava. Muito especialmente, alguns que eram músicos, conseguiam ouvir até aos quinze mil ciclos.
Cheguei assim à conclusão que cada um de nós tem uma capacidade auditiva própria, mas um som gravado tem de ter as frequências todas, mesmo as que não se ouvem mas se sentem e não pode ter qualquer espécie de distorção, coisa que só os amplificadores com circuitos muito avançados e componentes de muita qualidade conseguem.
Assim para gravar os conjuntos musicais eu usava um microfone para captar o som de cada instrumento musical. O sinal de cada um desses microfones entrava num canal do misturador, (eu dispunha de dez canais) e um por um, equilibrava-o em volume com todos os outros de forma a conseguir um conjunto harmonioso.
Hoje em dia esta técnica é usual mas naquela altura em Portugal o som das tais orquestras da Emissora Nacional era captado com um ou dois microfones postos no alto a abarcar a sonoridade geral o que resultava em gravações empasteladas. Descrevo esta questão um pouco pormenorizadamente porque ela veio a ser a chave de um conflito que tive mais tarde com o engenheiro de som Sousa Santos, representante em Portugal da Westrex, empresa fabricante da maioria das aparelhagens de som para salas de cinema.
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Os anos passaram. Até que, em finais de 2005, a publicação dos aerogramas e cartas escritas em Angola por António Lobo Antunes, entre 1971 e 1973 – e que li de um fôlego – me recordou o “diário”, os meus textos da diário da guiné j lama, 10 sangue e água pura Guiné. Ainda somos algumas centenas de milhares de portugueses que, como militares, vivemos as guerras de África; no entanto a memória desses anos vai-se inevitavelmente esbatendo, esquecendo. Que conhecem os nossos filhos, os nossos netos do dia a dia dos seus pais e avós combatentes na Guiné,
em Angola e Moçambique? Que sabem do que comíamos, onde dormíamos, como nos deslocávamos, o que sentíamos, como eram as emboscadas, as flagelações, a morte, o medo, as bebedeiras, a alegria? Como era a guerra por dentro? Os meus escritos dos dias da Guiné respondiam a algumas destas questões e, longe de qualquer comparação com a prosa exuberante do autor de Os Cus de Judas, acabei por considerar que valia a pena recuperá-los e publicar.
São textos curtos, perto do real entendido, construído pelos olhos e sensibilidade de um dos muitos milhares de militares que jornadearam pela Guiné. Surgem variadas referências a oficiais, sargentos e praças com quem convivi intensamente ao longo dos vinte e dois meses de comissão. Companheiros de tempos difíceis, lançados para um conflito militar que consumia espíritos e vidas, todos me merecem hoje o maior respeito. Não pretendo, de modo nenhum, com os textos agora publicados, magoar quem quer que seja.
Por arquivos e bibliotecas, procedi entretanto a uma leitura exaustiva de obras relacionadas com a guerra na Guiné e com a conjuntura política dos últimos anos do regime de então. Os textos de militares, jornalistas, escritores, historiadores que se debruçaram sobre o período final do conflito na Guiné encaixam, batem certo com o meu humilde “diário”. Alguns destes trabalhos aparecem citados, referenciados em notas de rodapé que acrescentei à prosa simples que escrevi entre 1972 e 1974.
Dei também uma volta pela net e li muitos dos textos curtos, sobretudo em blogs, escritos por antigos militares que passaram igualmente pelo território da Guiné. Alguns destes testemunhos são notáveis e mostram como o tempo da guerra nos marcou a todos, como, quase quarenta anos depois, ainda trazemos a Guiné a borbulhar dentro de nós.
Numa obra recente intitulada Seis Propostas para o Próximo Milénio, Italo Calvino fala na leveza, rapidez, exactidão, visibilidade, multiplicidade e consistência que devem enformar um texto. O leitor enredar-se-á na malha textual, com o prazer inerente à descoberta e à viagem. Se nesta prosa do quotidiano da guerra da Guiné – de quando em quando espraiando-se por outros
temas, – o benevolente leitor vislumbrar rastos de duas ou três das propostas formuladas por Italo Calvino, associadas ao sentir e naturalidade com que foram escritas, terá sido útil ir buscá-los às pastas já manchadas pelos anos e à cada vez mais serena memória de mim.Estoril, Maio de 2006António Graça de Abreu in "Diário da Guiné" • GUERRA E PAZ • 2007
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Do outro lado do planeta a GUERRA & PAZ dedicou-nos um destaque, que agora corre pelos muitos cantos do cyber-espaço:
A livraria Bloom, em Macau, é um exemplo de dinâmica e de entusiasmo. A Guerra e Paz junta-se à legião dos editores portugueses que aplaudem a iniciativa e o esforço sistemático demonstrado: desta vez foi um livro nosso, mas o que interessa é que do outro lado do mundo, na China dos dois sistemas, se continuam a ler e a apresentar livros portugueses.Obrigado. É um prazer poder contar com a Guerra e Paz aqui em Macau, estamos de mãos dadas!
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A qualidade de som que se conseguia com o equipamento trazido pelo César de Sá dos Estados Unidos deixou-me verdadeiramente entusiasmado. Uma das minhas brincadeiras favoritas era gravar a minha voz num tom coloquial e reproduzir a gravação com o volume apropriado, dizendo - Pois... eu estou a falar consigo e você não me vê porque está de costas voltadas para mim... mas o que eu pergunto é se me esta a ouvir a mim ou a ouvir a minha voz gravada. Invariavelmente a pessoa respondia que me estava a ouvir a mim porque não conseguia distinguir a diferença entre a minha voz real e a minha voz gravada. Também fazia esta experiência com o piano em que batia nas teclas ou reproduzia o som do mesmo piano gravado.
Estas experiências serviam para demonstrar aos visitantes que o César de Sá trazia à Cinelândia a qualidade de som e a qualidade dos nossos recursos nessa matéria.
Comecei a estudar a ALTA-FIDELIDADE ao ponto de comprar livros e aprender electrónica, o desenho e fabrico de amplificadores de som.
Como entusiasta da música jazz e amigo de vários músicos que comigo tinham fundado o HOT CLUBE de PORTUGAL, comecei a trazê-los até a Cinelândia para fazermos gravações das suas exibições. Por iniciativa de um dos grandes aficionados do Hot Clube, o Luís Vilas-Boas, esses amigos costumavam periodicamente realizar jam sessions no salão de chá do Café Chave de Ouro no Rossio. Essas jam sessions eram espectáculos imensamente participados por uma audiência entusiástica em que os músicos começavam por tocar em conjunto um tema musical, uma canção ou uma melodia qualquer, mas sobre a qual cada músico tocava depois um improviso, variações baseadas na música original, mas transformadas pela sua fantasia. Depois de cada actuação, o improviso daquele músico era aplaudido entusiasticamente enquanto o outro arrancava de seguida com o seu próprio improviso. Nunca esquecerei as exibições do Menano ao piano a tocar os seus "booggie wooggies", um ritmo que desapareceu com o tempo, possivelmente assassinado pelo "rock and roll", nem esquecerei também os solos de bateria do Luís Sangareau, ou os solos de guitarra do seu irmão Mário Sangareau.
Claro que estas gravações de hot jazz feitas por mim na Cinelândia serviam às mil maravilhas para impressionar os visitantes. Um dos que mostrou um fantástico entusiasmo por essas gravações foi o Vergílio Teixeira que mais tarde se tornou num actor de fama internacional.
Com tudo isto, eu e o César de Sá tornámo-nos verdadeiros amigos e ele contava-me a história da sua vida, as suas ansiedades, a sua luta, a sua verdadeira paixão por uma cinematografia portuguesa válida e que nos desse expressão cultural. Fiquei a saber que nos primeiros tempos da produção cinematográfica portuguesa era preciso ir a França revelar, montar, sonorizar e copiar os filmes. O César de Sá, que se revelara um extraordinário director de fotografia formado nos Estados Unidos, com um capitalista espanhol, proprietário de vários cabarets em Barcelona, formou uma sociedade chamada LISBOA FILMES, e começaram a construção de um Estúdio completo, que tivesse além das câmaras de filmar e o respectivo material de iluminação, laboratório para a revelação dos filmes, salas de montagem, aparelhos para a sonorização, etc. Enfim, uma máquina completa de produção de filmes. Quando acabaram a montagem completa das instalações, que incluía oficinas para a construção de cenários, o César de Sá propôs ao seu sócio iniciar a actividade abrindo as portas a produção portuguesa. Isto é - a Lisboa Filmes aceitava propostas de todo e qualquer produtor que tivesse um projecto cinematográfico e punha à sua disposição todos os recursos para a execução técnica do seu filme.
Logicamente a Lisboa Filmes tornava-se sócia desse projecto e arrecadaria uma comparticipação nas receitas que o filme viesse a dar. Desta forma os produtores que alcançassem melhores receitas nas bilheteiras, seriam aqueles a quem a Lisboa Filmes daria maior prioridade.
O sócio capitalista, Don António Redondo opôs-se integralmente a este projecto dizendo - Não senhor... A Lisboa Filmes era o único estúdio integralmente equipado. Quem quisesse fazer filmes, como por exemplo aqueles produtores que eram subsidiados pelo Estado como o Leitão de Barros ou o António Lopes Ribeiro, vinham à Lisboa Filmes e alugavam os estúdios e pagavam os serviços prestados. Essa seria a sua fonte de receitas.
Desta fonte de divergências resultou o César de Sá sair da sociedade vendendo a sua quota a Don António Redondo que lhe disse que não pagaria a quota em dinheiro mas sim em créditos na Lisboa Filmes para ele produzir o que quisesse.
O César de Sá aceitou e produziu o seu primeiro filme nessa qualidade: FÁTIMA TERRA DE FÉ.
Este filme foi um sucesso de bilheteira e rendeu-lhe milhares de contos. Com as receitas ainda financiou um outro filme - UM HOMEM ÀS DIREITAS, que igualmente lhe trouxe bons rendimentos.
Depois regressou à ideia inicial, do estúdio produtor de filmes e daí a CINELÂNDIA.
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The amber light came on, two of the cars ahead accelerated before the red light appeared. At the pedestrian crossing the sign of a green man lit up. The people who were waiting began to cross the road, stepping on the white stripes painted on the black surface of the asphalt, there is nothing less like a zebra, however, that is what is called.
The motorists kept an impatient foot on the clutch, leaving their cars ready, advancing, retreating like nervous horses that can sense the whiplash about to be inflicted. The pedestrians have just finished crossing but the sign allowing the cars to go will be delayed for some seconds, some people maintain that this delay, while apparently so insignificant, has only to be multiplied by the thousands of traffic lights that exist in the city and by the sucessive changes of their three colours to produce one of the most serious causes of traffic jams or bottlenecks, to use the more current term.
The green light came on at last, the cars moved off briskly, but then it became clear that not all of them were equally quick off the mark. The car at the head of the middle lane has stopped, here must be some mechanical fault, a loose accelerator pedal, the gear lever that has stuck, a problem with the suspension, jammed brakes, a breakdown in the electric circuit, unless he has simply run out of petrol, it would not be the first time such a thing has happened. The next group of pedestrians to gather at the crossing see the driver of the stationary car wave his arms behind the windscreen, while the cars behind him frantically sound their horns. Some drivers have already got out of their cars, prepared to push the stranded vehicle to a spot where it will not hold up the traffic, they beat furiously on the closed windows, the man inside turns his head in their direction, first to one side then the other, he is clearly shouting something, to judge by the movements of his mouth he appears to be repeating some words, not one word but three, as turns out to be the case when someone finally manages to open the door, I am blind.
JOSÉ SARAMAGO in "BLINDNESS" • AVAILABLE AT BLOOM
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|13 QUESTÕES|
José Santos, da Editora Guerra e Paz, amigo de Macau e conhecedor das ambivalências do território aceitou ser submetido ao nosso questionário mortífero de 13 perguntas. Dele ficamos a conhecer mais sobre a Guerra e sobre a Paz e sobre essa ponte que faz dos livros e da leitura um dos sentidos da humanidade.
1. Qual é a história da Editora Guerra e Paz?
Não se pode dizer que tenha grande enredo... Dois dos actuais accionistas (eu e o Manuel Fonseca), com um passado de longa amizade, apreço mútuo e curta experiência no ramo (a extinta Três Sinais), descobriram em si uma disponibilidadezinha para outra experiência em comum, encontraram-se (em Macau, note-se), elaboraram o plano de negócio, procuraram outros interessados e quando deram por isso havia 70 livros cá fora mais as consequentes dores de cabeça. Decorrentes do negócio, não da falta de dioptrias nos óculos.
Parece tão fácil ...
2. Achas que as pessoas que vão para a Guerra nunca mais reencontram a Paz? Que a Vida se torna numa espécie de quarto escuro onde de vez em quando se abre uma janela?
É difícil responder à primeira pergunta, pelo respeito que tenho por quem passou pelas provações e sofrimentos da guerra, experiências que apenas lateralmente colhi. Desejo muito que reencontrem. Da leitura do Diário da Guiné e do contacto, amigável e sereno, com o António Graça de Abreu, parece-me possível. Quero acreditar que sim.
Quanto à Vida, prefiro encará-la como uma caminhada em direcção a um destino assegurado, embora, afinal, inevitavelmente desconhecido. Procuro cumprir a minha parte, dentro do meu estilo. Sem aparato, militar ou civil.
3. É objectivo da Editora que representas tentar de algum modo, com as suas edições, unir esses dois pólos? Ou é apenas uma referência literária?
Falando por mim, não tenho pretensões. A editora tem que ser exigente consigo própria, encarar seriamente os projectos em que se envolve, o que não colide com a obrigação de respeitar os direitos de todos os que contribuem para que esses projectos existam.
Há, no conjunto de quem toma decisões na Guerra e Paz, espaço e bom senso suficientes para, quando escolhemos editar, não o fazermos na perspectiva, sequer dissimulada, de manipular princípios civilizacionais ou impor critérios estéticos ; não somos donos de nenhuma das verdades. O que fazemos é lutar, como qualquer empresa, para sobreviver, o que só será possível se atingirmos um plano elevado na qualidade do que vendemos e na rentabilidade do nosso negócio.
Reconhecemos que um livro principia, habitualmente, por ser um produto intelectual e acaba sendo uma mercadoria, daí que que nos afastemos do conceito, romântico mas perigoso, do editor que só publica o que quer e/ou de que gosta.
Não perfilhamos este modelo que não nos parece nem democrático nem plural nem respeitador das opiniões dos outros, sejam os outros os leitores em geral ou apenas os restantes accionistas, de cujo capital nos servimos e, aliás, nos obrigamos a prestar contas.
O nome da editora é, de facto, uma referência literária. Eventualmente a referência maior da literatura, de todos os tempos.
4. É mais importante vender ou formar?
Sem pretender (por falta de talentos inatos) lutar pelo primeiro lugar no cômputo das profissões mais antigas do mundo, penso que ser comerciante é uma delas. Vender e comprar são actos que a humanidade pratica desde que se reconhece com tal. Se essa actividade sobreviveu, é porque contem méritos próprios, encerra princípios éticos correctos e conceitos de moralidade inatacável.
Assim, não vejo que, sendo-se um bom mercador, não se esteja já a contribuir com qualquer coisita na formação do carácter...
5. As vendas de livros em Portugal, como a edição de títulos tem vindo a aumentar nos últimos anos, quer isso dizer que os portugueses estão mais cultos ou estão a ser enganados? Concordas com o Lobo Antunes que diz que as livrarias estão cheias de lixo?
É verdade que o mercado cresceu em Portugal. Aliás, o volume de negócios dos livros já é maior do que o do sector do vinho do Porto e do que o da cortiça... Se os portugueses compram mais, é certamente porque consomem mais. Não vejo como isto possa ser mau para alguém. Até porque quem lê fica mais rico, é mais feliz. Para mim, este é que é o ponto.
Quanto à outra pergunta : o papel é bio-degradável, não?
6. Existe uma linha editorial na Guerra e Paz com regras precisas que não se podem transpôr? Há um objectivo primordial? De que maneira se pode publicitar a Editora? Quais as palavras-chave?
Penso que delineei mais atrás as nossas regras básicas e os nossos objectivos. O perfil da editora está patente no nosso site embora a realidade de ano e meio de dura luta nos tenha levado a alguns ajustamentos práticos. Mas, basicamente, revemo-nos nele.
Julgo que o que acima referi dá pistas para promover a Guerra e Paz. Existem alguns slogans genéricos, do tipo “É preciso virar a página”, mas penso que a melhor maneira de dar a conhecer a editora é divulgando os nossos livros, lendo-os, discutindo-os.
E ficaria mal aqui não referir quão grato estou à Bloom, e ao António Falcão, pelas suas esforçadas acções nesse sentido.
7. Que autores gostavas de ver editados na Guerra e Paz? Quais são os teus favoritos, os que te fizeram crescer?
O que eu queria, mas queria mesmo, era publicar TODOS, Autores e Livros. Que Deus me perdoe, mas tenho inveja, uma grande e feia inveja, de TODOS os editores do mundo!
E é melhor ficar-me por este pecado, para não cometer mais um, o da injustiça: tudo o que li, e como toda a gente fui mudando de hábitos ao longo da vida, me fez crescer. E não tenho dúvida de que todos os livros que conseguisse ler, que toda a musica que pudesse ouvir, que todos filmes ou jogos de futebol a que assistisse, me fariam ser melhor, mesmo que adormecesse a meio de qualquer destas actividades, mesmo que o Benfica não ganhasse.
Mas receio ter já consumido todo o potencial que me foi concedido para ser bom...
8. Como vês o futuro dos livros?
Penso que os livros irão certamente incorporar novas tecnologias, que contribuam para a optimização do seu uso e consumo, não só quanto à forma mas também quanto aos próprios conteúdos, e sempre que essas tecnologias os mantenham economicamente acessíveis.
Enquanto isso não acontece, temos 50 anos à nossa frente. Vai ser editar até cair para o lado.
9. Lês muito? Perdes-te no meio dos livros? Perdes a noção da realidade? Tens um Diário da tua Guerra?
Tenho sempre um livro que estou a ler. Nunca digas nunca, mas não é habitual perder-me. Pelo contrário, os livros ajudam-me a orientar no tempo, no espaço e, como leio muita ficção, com eles perscruto muito melhor a realidade. É como se estivesse num helicóptero.
Não podias ter feito uma pergunta que me desse mais jeito... É que tenho mesmo ! Chama-se “Diário de Guerra, Angola 1961-65”, foi escrito pelo soldado do exército português Etelvino da Silva Batista e publicado em edição de luxo, pela Três Sinais, editora de que fui gerente e sócio maioritário (sublinhado). E é possível que a Guerra e Paz o reedite num formato mais tradicional.
10. Vens muito menos a Macau. O que te traz ainda por cá? O jogo? A humidade relativa? O passado? O que resta dele?
O jogo não é, até porque estou impedido de jogar enquanto (não, não é por ter feito batota...). Ao passado, viajo interiormente, onde quer que esteja e sem encargos de maior.
Mas então, e as Patacas?
11. Há sempre aqueles que de um modo ou de outro regressam ao território, vem à procura não se sabe de quê. Achas que é possível encontrar a felicidade em Macau e ficar aqui até ao fim dos nossos dias?
Obviamente é possível encontrar doses de felicidade em muitos locais, em diferentes épocas e situações, mesmo de algum infortúnio. A dificuldade reside em combiná-las de maneira eficaz e tão certo é isso que as pessoas morrem à procura da fórmula.
E, em Macau morre gente todos os dias !
12. Que futuro vês em Macau, de Guerra ou de Paz?
Há várias provas de que sou péssimo como profeta: nunca acertei no Euromilhões, em tempos idos nem sequer desconfiei da proximidade da descolonização e também não consegui adivinhar o crash da bolsa em 1987.
Colocadas, humildemente, tais reservas, estou convencido de que Macau continuará a manter-se um case study de crescimento económico, temperado pela cuidada vigilância de Pequim, muito pouco interessada no insucesso do modelo a que deu asas. Se desse crescimento, que também é fisico e é brutal, vier a resultar uma considerável melhoria na qualidade de vida, material e espiritual das pessoas que por cá andam, será bom.
Mas, especificidades à parte, Macau não é assim tão diferente do resto do mundo, mas nem o facto de a humanidade se movimentar tão lentamente facilita as previsões, pois “nada muda já como soía”.
(sim, ao Sá de Miranda é absolutamente impossível resistir).
13. Que poderás dizer aos nossos leitores, para este pequeno universo que se forma na Bloomland, alguma mensagem especial, um conselho?
Lê e faz o que quiseres.
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Ser Nada – George W. Bush: um Simulacro Presidencial de Carol V. Hamilton é uma oferta de Verão da Livros de Areia e que a Bloom recomenda. É uma introdução a Chance de Jerzy Kosinsky, obra imortalizada no grande ecrã por Peter Sellers, disponível agora nesta Editora. Falámos pouco deles e das suas edições mas queremos falar muito mais e ter mais dos seus livro. No entanto, no nosso espaço pode já encontrar a maioria dos seus títulos. Mais uma razão para vir até à zona do Porto Interior, mesmo ao fundo da Rua das Estalagens.
{MAIS À FRENTE, SE CONTINUAR COM PRECISÃO, PODE ENCONTRAR O BLOG DA LIVROS DE AREIA E DESCOBRIR MAIS INFORMAÇÃO SOBRE CHANCE. É MESMO AQUI.}
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Gene Tierney in Leave Her to Heaven
|BLOOM TV • 2007|
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José Costa é outro testemunho da Guerra da Guiné. Para ele a guerra foi um alívio à miséria que vivia na sua aldeia em Portugal. Foi aí que conheceu a vida e o pão que com a ajuda do diabo ele próprio amassou sem medo. É um pequeno excerto retirado de um programa que foi emitido pela RTPn. Uma das vozes silenciosas que fizeram a história ambígua do país e que pode agora ser sintonizada aqui.
|BLOOM TV • 2007|
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Aqui está o boletim informativo que foi por esse mundo fora, onde se destaca o nosso próximo evento na Bloom. É já no próximo Sábado pelas 18 horas que vamos apresentar em Macau "Diário da Guiné - Lama, Sangue e Água Pura" da autoria do também sinólogo, António Graça Abreu.
Pela editora Guerra e Paz estará presente um dos seus administradores, José Santos. Pela Guiné, com a memória sempre viva, estará Fernando Sales Lopes, que muito terá a dizer sobre esse forno onde se cozinhou o 25 de Abril.
Amanhã vamos estar todos na Rádio, a Bloom, a Editora e esperamos que a Guiné também possa ir, ao programa da tarde do Hélder Fernando, logo a seguir ao noticiário das 18 horas. Fiquem atentos. Há sempre muito para falar. E vamos ter um Diário da Guiné para um dos ouvintes da Rádio Macau. Para aquele que melhor souber passar a palavra.
Daqui agradecemos a todos os participantes desta aventura em terras de África, ao António, que nos leva até lá, ao José, ao Fernando, ao Hélder e a todos os que nos acompanharem, também àqueles que não é preciso dizer o nome: MUITO OBRIGADO!
No Sábado, pelo Largo do Bazar, teremos também bebidas frescas para afastar o calor. Não falte!
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Fui-me encontrar com o César de Sá na CINELÂNDIA, um estúdio na Alameda das Linhas de Torres que tinha pertencido à Bárbara Virgínia.
Em breve estava a frequentar a Cinelândia todos os dias, onde o César de Sá pusera à minha disposição uma sala onde pudesse fazer o meu filme de desenhos animados a cores. De facto comecei a fazer a animação de um pássaro desesperado, a andar para trás e para diante, porque estava na emergência de ser pai enquanto a seu lado a sua companheira chocava os ovos.
Mas, a coisa ficou por aí, porque outros valores mais altos se levantaram.
Chegaram uns caixotes vindos dos Estados Unidos, onde o César de Sá havia adquirido um equipamento de som, para além de outros acessórios. Fui eu que tive a honra de abrir esses caixotes, ver e ajudar a montar esse equipamento de som que era o primeiro equipamento profissional de cinema de 35 milímetros para gravação magnética em Portugal - o REEVE SOUND.
Com esse gravador magnético vinha também um gravador foto-sonoro, um misturador de som de dez canais, dez microfones, dois altifalantes ALTEC LANSING, amplificador de som e mais uma variedade de componentes destinados à construção de uma máquina de revelar.
Naquele tempo, uma das coisas com a qual todos pareciam estar de acordo era que a qualidade de som dos nossos filmes e até a das gravações das nossas orquestras era bastante mau. Eu recordo que as transmissões da própria Emissora Nacional, da sua orquestra ligeira, eram um amalgamado de sons em que não se distinguiam os instrumentos individualmente e que no seu conjunto não passava de um empastelado musical. Eu admirava as gravações das orquestras de Count Basie, Duke Ellington, Louis Armstrong, Benny Goodman, Harry James e quantos outros.
A qualidade das nossas gravações era verdadeiramente uma borrada em comparação com aquelas.
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Entre Junho de 1972 e Abril de 1974, desempenhei funções de pequeno oficial do exército português num Comando de Agrupamento Operacional na Guiné Portuguesa, ainda então não denominada Guiné-Bissau. Quiseram os acasos, a sorte e o destino que a minha passagem pelos tempos finais do conflito militar se desdobrasse por três cenários de operações bem diferenciados, a região norte, em Canchungo (Teixeira Pinto), o centro, em Mansoa, e finalmente uma permanência de quase onze meses na zona sul, em Cufar.
Não sendo propriamente um operacional, o facto de estar integrado num comando de operações e de contactar todos os dias homens e lugares onde ocorriam acções militares, possibilitou diluir-me no quotidiano da guerra, vivê-lo por dentro, ser testemunha e actor de um drama real que se desenrolava diante de nós, camaradas de armas e desdita. Tinha então vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete anos e, tal como muitos outros milhares de soldados enviados para as guerras de África, escrevi um “diário secreto”, redigi centenas de aerogramas e cartas endereçadas a familiares, a amigos em Portugal.
Três anos depois de regressar da Guiné, os acasos da fortuna levaram-me outra vez para distantes paragens, agora o Extremo Oriente, a China onde – depois de todas as guerras, – me embebi num quotidiano de paz, sortilégios, alvoroços e fascínios a povoar o respirar célere da passagem dos anos. Quase esquecia o tempo da Guiné.
Os anos passaram. De novo em Portugal, sabia que continuavam comigo o “diário secreto” e muitas das cartas que escrevera em África. Mas considerava esses textos uma herança demasiado pessoal. Publicar, dar a conhecer o “diário” corresponderia talvez a um confessado exercício de auto-complacente contemplação do umbigo, de narcisismo. Eu, eu e mais eu.
António Graça de Abreu in "Diário da Guiné" • GUERRA E PAZ • 2007
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