Para o Homem do Leme

O homem que viria a ser conhecido como Lewis Carroll nasceu em Daresbury, Inglaterra, no dia 27 de Janeiro de 1832. Foi matemático, lógico, fotógrafo e escritor, sendo reconhecido principalmente como o autor de Alice no País das Maravilhas.
Charles Lutwidge Dodgson, nome de baptismo de Lewis Carroll, nasceu no dia 27 de Janeiro de 1832, em Daresbury, Inglaterra, sendo o terceiro de onze filhos. Filho de um reverendo, Charles cresceu na pequena localidade onde nasceu, tendo por companheiros os seus irmãos, para quem inventava jogos. Em 1850, matricula-se no Christ Church College da Universidade de Oxford, onde o seu excelente desempenho a matemática lhe garantiu o lugar de professor. A sua capacidade e gosto em lidar com crianças devia-se ao facto de ter 8 irmãos mais novos. Charles conseguia comunicar mais naturalmente com crianças do que com adultos. Assim, não é de admirar que o famoso “Alice no País das Maravilhas” seja o resultado das histórias que o professor contava aos filhos dos seus amigos. Carroll não se limitou a escrever histórias infantis, sendo as suas fotografias, maioritariamente retratos de crianças, importantes testemunhos artísticos. O seu pseudónimo, Lewis Carroll, deriva de Charles Lutwidge traduzido para o latim (Carolus Ludovicos) e retraduzido para o inglês. Adoptando este nome para as obras literárias, reservando a sua verdadeira identidade para as obras científicas, foi autor de uma poesia plena de nonsense que fascinou a crítica e, mais tarde, viria a fazer as delícias de muitos surrealistas. Lewis Carroll conta na sua obra com várias histórias para crianças, poemas e livros de matemática. Contudo, foram as aventuras de Alice que o tornaram mundialmente conhecido. Da sua bibliografia poética destaca-se o livro A Caça ao Snark, surgido na mesma época dos Cantos de Maldoror de Isidore Ducasse e de Uma Estação no Inferno de Rimbaud. Morreu no dia 14 de Janeiro de 1898, em Guildford, Surrey.

O poema A Caça ao Snark (dividido em oito cantos) conduz-nos, pela mão do sineiro, a um mundo mágico e maravilhoso, sem destino traçado. O objectivo é a caça ao Snark, um animal fantástico existente apenas na imaginação da personagem e do autor. Mas, afinal, o que singifica esta palavra? "Segundo as interpretações mais correntes a palavra Snark seria uma das palavras-mala tão frequentes na obra de Lewis Carroll e resultaria da aglutinação de snail (caracol) ou de snake (cobra) com shark (tubarão)." (N.T.)
Autor de um dos maiores êxitos da literatura infantil, Alice no País das Maravilhas, Caroll escrevia contos para crianças como ninguém. A Caça ao Snark, escrito na maturidade dos 42 anos, é bem o testemunho dessa aptidão para comunicar com as crianças. Aqui, pela mão da tradução de Manuel Resende, navegamos pelas deliciosas aventuras de um Sineiro “que tomava as aparências muito a sério”.

E é assim que a Assirinha recebe, pela primeira vez, uma obra de um autor estrangeiro, indo ao encontro da definição de critérios estabelecida no momento do aparecimento da colecção: prioridade aos escritores e ilustradores portugueses; traduções, só quando se tratasse de grandes clássicos. Como escreveu, a este propósito, Manuel Hermínio Monteiro no editorial d' A Phalinha, e a propósito da colecção que era, então, lançada: "Ser portuguesa, ou lusófona, sem contudo recusar algumas propostas excepcionais de outras culturas."
A Colecção Assirinha é uma das apostas da BLOOOOOM nesta sua procura pelos mundos mais fantásticos.
[TEXTO RETIRADO DAQUI E DALI...]

A Caça ao Snark, de Lewis Carroll • Ilustrado por Henry Holiday
Assírio & Alvim • Colecção Assirinha • Tradução de Manuel Resende • 2003

As sete vidas de Eurico

São quase oito décadas de existência, divididas entre três continentes, com despedidas e regressos. O princípio de tudo deu-se em Lisboa, mas foi em Macau que deixou sementes, que o fizeram voltar quase meio século depois de uma partida ensombrada pelo que se passava, então, do outro lado da fronteira. Eurico Ferreira caminha com passos firmes pelas ruas de Macau que não esqueceu, aquelas que continuam iguais, quase sem tirar nem pôr, às da década de 1950.
Pioneiro do cinema de animação português e um dos responsáveis pelo primeiro filme produzido e rodado em Macau, Eurico Ferreira vive entre películas, as artérias estreitas do bazar chinês e a blogosfera. À cidade cristã também vai, essa que lembra de outros tempos, mas a nova Macau ainda não é totalmente conhecida. Vai descobrindo os novos espaços quando se aventura em passeios mais longínquos.
Chegou a Macau sargento, em 1951, a bordo do Índia, embarcação que transportou dois mil homens, ao longo de um mês. “Não imagina o que era, todos aqueles homens juntos durante tanto tempo. Atrás seguia o Timor, com outros tantos tropas. Vínhamos substituir o exército português que esteve em Macau durante a guerra.” Mobilizou-se voluntariamente, quis bater o pé, “revoltei-me em Lisboa”, cidade onde nasceu e onde deixou o mundo do cinema, que então entrava numa nova era com as inovações que chegavam do outro lado do Atlântico.

Fiz o documentário, entretanto deu-se um acontecimento em Macau, um funeral majestoso, com todas as tradições chinesas, que foi o funeral do pai do Ho Yin. Fiz esse documentário também.
Em Macau encontrou um “ambiente terrível, os japoneses não entraram cá mas as Portas do Cerco fecharam, havia muita fome e miséria”. As tropas que o Índia e o Timor vieram substituir também não deixaram a melhor imagem dos homens da então metrópole, conta, “a sensação que tive quando cheguei é que estava numa terra diferente, com uma cultura diferente e que tinha que conviver com um povo que mostrava receios, por causa do comportamento da tropa que cá tinha estado.” Mas em Macau encontrou também “a companheira de toda a vida”, um amor à primeira vista de quem teve cinco filhos, quatro nascidos em Macau, o último já num outro continente, “mas feito ainda cá”. E tropeçou, de novo, no cinema.
Dois anos feitos de Macau e de vida militar, “o Ministro do Ultramar resolveu vir cá e trouxe com ele um produtor de cinema, Ricardo Malheiros, e um operador de câmara, que vinham fazer a reportagem da viagem do ministro”. O encontro com o produtor português fez com que a vida desse nova volta, de regresso às imagens e aos sons. Foi dispensado da tropa e começou a trabalhar com Malheiros num documentário sobre os Correios de Macau. “Fiz o documentário, entretanto deu-se um acontecimento em Macau, um funeral majestoso, com todas as tradições chinesas, que foi o funeral do pai do Ho Yin. Fiz esse documentário também”.
Em meados do século passado, a colónia portuguesa não dispunha de meios técnicos de montagem e começaram os primeiros contactos profissionais com Hong Kong. A colónia britânica caracterizava-se, já na altura, por ter “uma indústria de cinema altamente eficaz”, que Eurico Ferreira queria trazer para Macau. “Porque é que Macau não podia ser uma Hollywood? Porque é que não atraímos para Macau a indústria cinematográfica?”, defendia o produtor e realizador. “A Taipa não tinha nada, podiam ter sido construídos estúdios maiores que os de Hong Kong”.
O sonho de Eurico Ferreira não era solitário mas, ainda assim, não teve pernas para andar. “Decidimos começar por fazer um filme para apresentar Macau, com histórias de Macau.” Constituiu-se uma sociedade, com várias pessoas residentes no território, “fui buscar actores a Hong Kong, outros formamos cá”. E aqui começa a história de “Caminhos Longos”. O argumento era baseado em acontecimentos reais do conflito sino-japonês.
“O filme começava com uma família de refugiados de Xangai que vinha de barco para Macau e ia adaptar-se a uma terra que não conhecia. Macau era, naquela altura, um porto de abrigo, entrava toda a gente, tinha as portas abertas”. Pelo meio, ainda a referência à vida boémia da cidade e a histórias verdadeiras de piratas de alto-mar, como a do “tancar chinês que tinha como característica um motor a diesel e que pertencia a um homem chamado Imortal, que era muito respeitado, um pirata que, durante a guerra com os japoneses, saía de noite e ia roubar os barcos que levavam os mantimentos e trazia-os para Macau, onde na altura se morria de fome.”
A meio do filme, o financiamento deixou de existir e houve necessidade de improvisar, cortar nas despesas maiores para poder levar a película à tela. “Deixámos de ter gravador de som, usei um gravador normal e sabia que ia encontrar dificuldades técnicas para poder fazer o filme. Peguei nos sons e medi as imagens, fui para Hong Kong, reproduzi o som até ficar mais ou menos com a mesma velocidade e passei para foto-sonoro. Consegui fazer uma primeira cópia do filme.” Os defeitos técnicos do filme eram bastantes, não dava para levar o filme para a Europa, mas em Macau a expectativa criada era muito grande, não fosse a cidade aparecer no cinema. “Caminhos longos” foi estreado no Vitória, que “já não existe, ficava ali quem desce a Almeida Ribeiro, logo a seguir ao Hotel Central, corria o ano de 1953 ou 54.” Foi um sucesso, garante o produtor e realizador, não obstante alguns pormenores que queria rever numa segunda montagem, a ser feita em Lisboa. “Havia uma cena em que o polícia chegava a casa de uma das protagonistas do filme, ia tocar à campainha, a mão ainda ia no ar e a campainha já fazia trimm, trimm. A malta ria-se à brava.” Estes defeitos técnicos derivados da falta de material para sincronizar imagem e som nunca chegaram a ser corrigidos, outras histórias aconteceram, zangaram-se as comadres e o filme ficou esquecido algures na metrópole. Para a história ficou a aventura, a iniciativa, as novidades. “Os diálogos em chinês tinham legendas em Português e vice-versa,” recorda Eurico Ferreira.
Poucos anos depois, os acontecimentos do outro lado das Portas do Cerco e os ecos da Revolução Cultural fizeram o então funcionário das Finanças arrumar as malas e partir com a família já numerosa para outras paragens. Moçambique foi o destino e por lá ficou vinte anos, até voltar para Portugal. O cinema continuou a fazer parte do quotidiano, a par com as várias profissões que foi tendo, das Finanças ao controlo aéreo.
Há três anos voltou para Macau, depois do maior elo à cidade do Oriente ter desaparecido, cinquenta anos passados do amor à primeira vista. “A minha mulher adoeceu e não resistiu, a minha filha vive cá e convidou-me para voltar.” Aqui sente-se bem, como acompanhou sempre o que há de mais novo publica as memórias num blogue, tem um quotidiano calmo num espaço da cidade quase esquecido. “Há pessoas que não conheço e que me sorriem,” ri-se. O “pouco de cantonense” que sabe chega para conversar, a cidade agrada-lhe, acolhe-o. “Quando vou ali na Avenida Almeida Ribeiro, quando estou ali no Leal Senado, estou a viver exactamente a cidade de Macau daquele tempo. Há coisas de Macau que estão exactamente como era. A única diferença é que, naquele tempo, eu ia à janela do quartel-general e via a ilha da Lapa mesmo em frente. Agora não vejo porque tem um grande prédio.” O crescimento da urbe não o atrapalha porque, sentencia, continua a ser espaço de “aglutinação e intercâmbio de culturas, sem as quais não existem ideias novas”.

Do desenho à cor em movimento

Eurico Ferreira nasceu em Lisboa, em 1928. Cedo, ainda nos tempos do liceu, apaixonou-se pelo desenho, quando Hergé e Walt Disney eram as principais referências em Portugal. “Criei um jornal de parede, que era uma folha grande onde desenhava as minhas histórias e colava no liceu às sextas-feiras. Ao sábado, chegava às aulas e estava toda a gente a ler o jornal”, conta.
As experiências profissionais não tardaram a chegar e começou a ilustrar livros, para a Bertrand e fez obras para crianças. Os desenhos animados em Portugal eram terreno fértil, uma vez que a oferta era praticamente inexistente. “Comecei a aprender a animar, fiz umas primeiras animações e um trailer para um filme”. Até aqui, em Portugal era tudo a preto e branco mas “os americanos já faziam a cor” e chegou o dia em que alguém levou a tecnologia para Lisboa. “Os alemães tinham desenvolvido entretanto um novo sistema de filmar a cores, por camadas, levado depois da Guerra para os Estados Unidos e que foi apresentado em Portugal por César de Sá. Fui ter com ele, que estava empenhado em montar um estúdio, uma empresa chamada Cinelândia.”
Com César de Sá aprendeu a técnica e fez a partilha das ideias sobre a importância do cinema. Para Eurico Ferreira, o cinema não é uma arte ou, pelo menos, não é “a sétima arte”, aquela etiqueta que passou a ser lugar comum. “A linguagem cinematográfica é a primeira linguagem não discursiva inventada pelo Homem, é uma linguagem cujas origens são conhecidas, bem como a sua a evolução e gramática.” Antes de arte é, portanto, forma de comunicação. “O cinema é tão arte como a literatura é arte para a língua portuguesa. Há poetas, há escritores, mas eu não tenho que saber ser Camões para poder falar ou escrever”. Por ser, sobretudo, um meio de comunicação, o cinema “deveria ser dado nas escolas, tal como se ensina a ler e a escrever, música, desenho e trabalhos manuais”, defende indignado, sem grandes esperanças de que tal se torne realidade, pelo menos num futuro próximo.
Realizadores favoritos tem muitos, ou então nenhum, que “os produtores são os pivôs do cinema”. Ver cinema “é como ir ao futebol”, por ser um espaço colectivo, ver televisão “é como jogar matraquilhos, faz-se em casa”. E se a vida de Eurico desse um filme? Nenhum, ou um só, “o filme da minha vida”. Aquele que está por fazer.
POR ISABEL CASTRO • TAI CHUNG POU PORTUGUÊS • FOTOS ANTÓNIO FALCÃO / BLOOMLAND.CN
[e aí vão três Germinators cá da casa]

Diary of a Bad Year (I)

BY J. M. COETZEE

ONE: STRONG OPINIONS
September 12, 2005—May 31, 2006

01. On the origins of the state

Every account of the origins of the state starts from the premise that "we"—not we the readers but some generic we so wide as to exclude no one—participate in its coming into being. But the fact is that the only "we" we know—ourselves and the people close to us—are born into the state; and our forebears too were born into the state as far back as we can trace. The state is always there before we are.
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(How far back can we trace? In African thought, the consensus is that after the seventh generation we can no longer distinguish between history and myth.)

If, despite the evidence of our senses, we accept the premise that we or our forebears created the state, then we must also accept its entailment: that we or our forebears could have created the state in some other form, if we had chosen; perhaps, too, that we could change it if we collectively so decided. But the fact is that, even collectively, those who are "under" the state, who "belong to" the state, will find it very hard indeed to change its form; they—we—are certainly powerless to abolish it.

It is hardly in our power to change the form of the state and impossible to abolish it because, vis-à-vis the state, we are, precisely, powerless. In the myth of the founding of the state as set down by Thomas Hobbes, our descent into powerlessness was voluntary: in order to escape the violence of internecine warfare without end (reprisal upon reprisal, vengeance upon vengeance, the vendetta), we individually and severally yielded up to the state the right to use physical force (right is might, might is right), thereby en-tering the realm (the protection) of the law. Those who chose and choose to stay outside the compact become outlaw.



My first glimpse of her was in the laundry room. It was mid-morning on a quiet spring day and I was sitting, watching the washing go around, when this quite startling young woman walked in. Startling because the last thing I was expecting was such an apparition; also because the tomato-red shift she wore was so startling in its brevity.


J. M. Coetzee • Diary of a Bad Year
Harvill Secker • ISBN: 9781846551208 • September 2007

Mr. Gutenberg

FRANKFURT BOOK FAIR CARTOON OF THE MONTH • MARCH 2007

A imensidão de tão pouca coisa

Ainda com o fundo da deslocação de Dalai-Lama a Portugal vem o enunciar da sua obra "O Universo num Átomo", onde que são desarmados alguns dos pontos controversos e no entanto convergentes que se formam no debate entre a ciência e a espiritualidade. Temas como a origem do universo, a natureza da consciência humana, a evolução da espécie e a engenharia genética percorrem as páginas deste livro que surpreendem tanto pelo rigor científico na busca de uma resposta às dúvidas, e aos complementos, da espiritualidade, quer como a lucidez na discussão dos mesmos, tentando modelar na mesma peça os ensinamentos budistas tradicionais com a biologia e a física modernas.
Galileu, Copérnico, Newton, Einstein, Bohr. As suas descobertas abalaram a nossa consciência de quem somos e do lugar que ocupamos no universo e deixaram, na sua senda, uma coexistência incómoda: a ciência contraposta à religião e a fé à investigação empírica. Qual delas é a detentora da verdade? Qual constitui o verdadeiro caminho para compreender a realidade?
Ao fim de quarenta anos de aprendizagem com alguns dos maiores cérebros científicos - e de uma vida de estudo meditativo, espiritual e filosófico -, o Dalai-Lama apresenta uma análise brilhante do motivo pelo qual é necessário seguir todas as vias de investigação - tanto científicas como espirituais - para chegar mais perto da imagem completa da verdade.

Um dos treinos mais básicos é o cultivo da atenção plena, em especial realizado a partir da observação da respiração. A atenção plena é essencial se nos quisermos aperceber conscientemente de uma forma disciplinada de todos os fenómenos que podem ocorrer dentro da nossa mente ou no meio imediatamente circundante. No nosso estado normal a mente permanece dispersa a maior parte do tempo e os nossos pensamentos deslocam-se de um objecto para outro de uma forma aleatória e vaga. [...]
O treino da atenção está estreitamente ligado à aprendizagem de como controlar os nossos processos mentais. [...] Quanto menos conhecermos as coisas, maior será a necessidade de esforço e de aplicação deliberada para dirigirmos a nossa atenção intencionalemnte [quando há mais do que uma coisa a acontecer] para um objecto ou tarefa escolhidos e para a mantermos. Porém, através da habituação adiquirida no treino, tornamo-nos menos dependentes desse esforço deliberado. [...]
Para mim, um dos efeitos mais notáveis e mais encorajadores do nosso conhecimento do genoma [humano] é a espantosa verdade de que as diferenças nos genomas dos diversos grupos étnicos de todo o mundo são tão pequenas que se tornam insignificantes. Sempre afirmei que as diferenças de cor, língua, religião, etnicidade, etc., entre os seres humanos, não têm substância perante a nossa igualdade básica.
O legado desta obra é uma visão do mundo na qual as nossas diferentes abordagens do conhecimento de nós mesmos, do universo e uns dos outros podem ser postas ao serviço da humanidade.
Ao não receberem o Dalai-Lama, as figuras no topo do governo português, perderam uma rara oportunidade de se cultivarem e poderem usufruir de uns momentos de partilha de ideias e de aprendizagem com um dos homens mais extraordinários deste átomo azul onde todos vivemos. Só isso justificaria qualquer choque diplomático.

TENZIN GYATSO, Sua Santidade o Décimo Quarto Dalai-Lama, foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz e é o líder espiritual e temporal do povo tibetano. O Dalai-Lama percorre o mundo a falar de paz e de compreensão inter-religiosa, a ministrar ensinamentos budistas e a reunir-se com líderes políticos, num trabalho incansável em defesa do povo tibetano.
Reside em Dharamsala, na Índia, e é o chefe do governo tibetano no exílio.

O Universo num Átomo, de Sua Santidade o Dalai-Lama
QUIDNOVI • ISBN: 9789728998325 • 2006

Na dependência da vista

Afrontar os chineses é pois muito difícil, se estivermos a falar do governo da República Popular da China. Mas se os chineses em causa forem imigrantes lutando pela vida em Portugal já qualquer político de segunda categoria serve.
A propósito da visita do Dalai Lama a Portugal, Rui Tavares escreve sobre o Tibete e as relações diplomáticas com as várias perspectivas que se vestem à China. Saiu no Público e pode ler-se aqui, no seu Blog pessoal.

Make it easier

All over the World, kids are losing their teeth. And who is there to gather them up, leaving coins in their places? The Tooth Fairy, of course! A self-described "action kind of gal" with plenty of attitude, she reveals her secrets at last. Learn about her amazing Tooth-o-Finder. Marvel at her ingenious flying machine. Watch her in action, dodging dogs and cats and gerbils. You Think It's Easy Being the Tooth Fairy? is the essential guide for every kid about to lose a tooth.

Sheri Bell-Rehwoldt is an award-winning magazine writer and the author of two children's activity books. This is her first picture book. She lives in Buffalo, New York.

David Slonim is the author and illustrator of several children's books, including the "irresistible and infectious" He Came With the Couch. He lives in Indiana with his wife, Bonnie, and their four children.

You Think It's Easy Being the Tooth Fairy? by Sheri Bell-Rehwoldt
Illustrated by David Slonim

CHRONICLE BOOKS
ISBN13 9780811854603 • Ages 4-8 • Hardcover • Published in August, 2007

A cor da camisola

À entrada da Discoteca dos Tugas:
- És tuga ou és macaio? - o Segurança tinha mais meio metro do que toda a gente.
- Sou tuga. - É preciso fazer um ar sério e sorrir, mas não se pode rir assim sem mais nem menos. Senão ele acha que estamos a gozar e o minuto seguinte pode correr muito mal.
- Podes entrar. Tu aí és tuga ou macaio?
- Sou tuga.
- És tuga? Tens a certeza? Hmmm, não tens nada cara de tuga.
- Mas sou tuga, a sério, sou mesmo tuga, nasci lá e tudo. Vá deixa-me entrar que a minha miúda está lá dentro à minha espera.
- Quero lá saber da tua miúda, a esta hora já deve estar com um monte de outros gajos. És Tuga ou és Macaio?
- Bem, sou um bocadinho macaio, mas nada por aí além.
- Então não entras! - A seguir a isto não havia hipótese. Mas tentava-se sempre.
- Sou também um bocado chinês. Mais chinês que macaio. Na verdade até não sou nada macaio. Sou todo chinês? Chinês, estás a ouvir? - E com isto tenta sempre fazer-se outra cara, pelo menos é o que dizem.
- Chinês? E achas que por seres chinês eu te deixo entrar? Aqui só entram tugas. Não és tuga, não entras! Já devias saber isso.
- Vá lá! Sou chinês, todo chinês, de uma ponta à outra. Tugas, macaios? Não me importam mesmo nada. Sou chinês e a minha pátria é a China. É a minha mãe! E conheço muita gente. Estás ouvir: "conheço muita gente!"
- Conheces? E por acaso conheces o Papa?
- O Papa?! Não, não conheço!
- Então não entras. E mesmo que conhecesses o Papa também não entravas, nem que ele andasse com a tua mãe. Porque aqui...
- Já sei, "só entram tugas"! E tu, já agora, és o quê? Também não tens nada ar de Tuga! És preto? - Às vezes, nunca se sabe, pode sempre apanhar-se o Segurança em falso e ele abre a porta.
- Eu? Não tens olhos? Precisas de uns óculos? Eu sou do Sri Lanka! - "Uau, Sri Lanka", é o que se pensa a seguir.
- Pois. Não podia adivinhar. E deixam-te entrar, a ti?
- Pisga-te, meu. Quem faz aqui as perguntas sou eu. Estou quase a acabar o meu turno e ainda vou lá dentro ver se a tua namorada precisa de companhia. Tu aí atrás, com cara de parvo, és tuga ou és macaio?

Em nome da verdade suprema

Muitos pensam num poema que nunca foi escrito quando se querem referir a algo que não compreendem. A infelicidade, a tragédia, a desventura. É isso um poema, são palavras soltas que não saem de mais nenhuma forma e se juntam naqueles termos de simpatia que por breves momentos escrevem o que não se explica de nenhum outro modo, deixando apenas um travo a coisa passada, mas profundamente marcado na história: são os versos de cada um que a passo e passo se desenrolam numa vida.
É sobretudo o acaso que move toda a engrenagem apesar de todo o plano para a sua criação estar minuciosamente traçado. A criação de um ego e de uma identidade.
Em 1995, no dia 20 de Março, alguns dos comboios do metropolitano de Tóquio atrasaram-se por causa do nevoeiro sobre o Rio Toné. O senhor Ogata, por exemplo, por este motivo também se desprendeu da sua rotina e entrou na viagem para o emprego um pouco mais tarde do que lhe era habitual. O senhor Akashi, nome fictício, que se lamenta que por ter levado a irmã de carro nesse único dia até à estação de metro, a deixou em rota de colisão com a fatalidade em que se veio a transformar toda a sua vida.
Cinco outros homens, na manhã desse dia, espalharam-se pela rede que circula por baixo da terra transportando gás sarin líquido que no momento exacto perfuraram dando início ao que foi o maior ataque terrorista na história do Japão. 12 pessoas morreram e cinco mil ficaram afectadas. Algumas delas sofrem ainda hoje as sequelas desse atentado, danos cerebrais irreversíveis, problemas respiratórios e depressão.
A viúva de Yoshiko Wad crê na sua utopia de que foi a falta de preparação da polícia e a inépcia da justiça, na explicação de outros indícios, que lhe levaram o marido.
São todos estes testemunhos que passam pelas páginas de Underground, título ainda recente lançado pela editora Tinta da China. O autor é Haruki Murakami, escritor japonês com vasta obra publicada, e um dos nomes de maior evidência no panorama literário mundial da actualidade. A razão da sua escrita nasce do confronto com a realidade inexplicável, não só dos acontecimentos que marcam esse encontro com o destino mediático mas tudo o que lhe é adjacente. As questões que ficaram por responder e que tocam o centro da ferida japonesa que se prolonga por todo o seu fatalismo histórico. Como se tudo tivesse sido delineado há muito tempo como a linha de um comboio.
Murakami, há muito a viver no estrangeiro, viu-se na urgência de contar o seu país para o poder compreender, talvez em busca do seu maior poema, e poder de novo considerar-se presente nessa narrativa colectiva da qual se tinha deslocado. Durante quase um ano entrevistou alguns sobreviventes do atentado e procurou sintetizar a réplica da versão que tinha inundado as páginas das notícias. Foi evidente a incapacidade para aceitar a derrota que se abateu sem aviso e que chocou com a noção de que os ataques foram perpetrados por uma seita, de carácter humano, e que apesar de existir em pleno no Japão, foi justificada como uma coisa do mal, externa, a que todos quiseram limpar as mãos. Dando-lhe o alinhamento da inevitabilidade de uma catástrofe natural, como o terramoto de Kobe acontecido em Janeiro desse preciso ano.
O sarin deixa as pupilas contraídas, sem controle, ou cheias de claro ou cheias de escuro, estáticas. De repente, como uma fotografia que fica queimada com a exagerada exposição à luz, o mundo normal desaparece. É desse congelamento que surge esta análise de Murakami. Não só o acontecimento mas a ramificação por outros episódios particulares que levam ao mundo subterrâneo a que o pensamento japonês muitas vezes se recolhe. A imutabilidade que vive à sombra do estigma da “perda de face” e de outros fantasmas. Que justificam os mitos dos Samurais, dos Hara-kiris, dos Kamikazes e possivelmente de um copo de Sake a mais. São histórias individuais, belas, quotidianas, sentenças para o derradeiro momento com que fluem as quadras livres no ritmo cardíaco do momento. Histórias que mais do que formarem um livro são um documento de estudo de toda a sociedade japonesa. Com os seus traumas e os seus mecanismos. As suas ausências. Em que a psique colectiva se confronta pela faixa que se escondeu no reconhecimento partilhado da “Verdade Suprema” como alguém que olhava por eles e os distinguia da sombra da identidade de todas as pessoas.
“Porquê? Porquê a mim?”, perguntam os sobreviventes na voz e na narrativa de Murakami. Nada o poderá justificar à partida mas a concepção do mutismo com que enfrentam o dia-a-dia desafia o rumo de toda a História. Que se viu reflectida no espelho retorcido de uma seita religiosa. O livro é complementado ainda com uma série de entrevistas a alguns membros da Aum Shinrikyo, nome em japonês que não mais será esquecido.
Todas as pessoas já ouviram falar do metropolitano de Tóquio, a imagem que se conhece é a dos funcionários das estações que empurram impassivelmente os passageiros para dentro das carruagens. Nessas horas o metro vai sempre à cunha, e as pessoas viajam torcidas quase sem conseguir respirar. Foi assim nessa manhã, uma como as outras, em que se deu o culminar de um plano bizarro que visava a destruição do centro secular japonês como um terramoto, um processo que se escrevia sob uma crença de fim do mundo. A pouca informação e a incapacidade de reacção das autoridades e meios adequados de resposta à emergência levaram ao extremo das consequências.
Ainda hoje, 12 anos depois, os membros condenados à morte esperam o momento final, em particular o líder supremo Shoko Asahara em quem os seus fiéis depositaram todas as linhas dos seus versos.
Não se trata apenas da descrição do atentado mas a compreensão do seu significado para o futuro, monumentalmente descrito, por quem quer saber mais de si nos outros.
Como o medo ou uma sentença. Ou como um Haiku, os versos que os monges zen ditam para o papel antes de morrer e que nunca antes foram escritos.

Haruki Murakami
Underground, O atentado de Tóquio e a mentalidade japonesa
Edições Tinta da China • Dezembro 2006 • 461 páginas
Título original: “Andaguraundo” • Tradução de Susana Serras Pereira


[PUBLICADO NO TAI CHUNG POU PORTUGUÊS • HOJE • 15 SET 2007 ]

Have I been missing something?

[...] But, it’s the night life that makes Macau a sure shot topper on the fun chart. Macau comes alive with nightfall. But, all the action starts only after 10 pm!
Its nightlife is famous for its variety, frantic pace and constant change. All you night owls can go pub-hopping along its coastal stretch.
You’ll find a great number of them along the Avenida Sun Yat Sen close to the Kum Iam Statue and the Cultural Centre. With its picturesque location, facing the outer harbour and Pearl River, you can enjoy music and the wine while watching the moonlight sea.
If you’re in mood for a midnight snack or drink, head straight to Avenida Marginal da Baia Nova, popularly known as The Docks to locals. A bunch of cool bars and restaurants line this quiet boulevard by the bay.
Want great music coupled with a spectacular view? Step into Opiarium Café. It’s a major attraction for the young and the restless 20 something crowd! [DAAAH!!]
Eva Pavithran in DNA INDIA
I guess Eva left from her village in northern India and for the first time came to Macau where she got her first city experience. This is an opinion for someone that was never in any other place in the world. Even a suburb in a city in Karnataka have more night life than Macau. Unless you want any red and hot stuff, if you know what I mean. Ok, there's Sky 21 now...

Fora de horas

Numa tarde em que José Régio tinha combinado encontrar-se com Pessoa, este apareceu, como de costume, com algumas horas de atraso, declarando ser Álvaro de Campos, pedindo perdão por Pessoa não ter podido aparecer ao encontro.

Rumar contra a tendência

A imagem dá conta, de forma parcial, de um espaço inteligentemente pensado para os mais novos. Livros, teatrinho de marionetes, brincadeiras e brinquedos pedagógicos e gente especializada em transmitir às crianças alegria, entretenimento e alguma formação. Neste espaço a criatividade e imaginação andam soltas, as ciranças também escrevem, pintam, são estimuladas à leitura, brincam, falam e são escutadas. Esta ousadia, de aplaudir e estimular, pertence à livraria Bloom que, em tão curto tempo de existência, já se vem firmando como ponto de referência no panorama livreiro de Macau. Outras concepções, outra gestão de espaço, outras escolhas literárias, outra maneira de conviver com o livro. Na Bloom há o cheiro genuíno das palavras escritas.
[in "TENDÊNCIAS" no HOJE MACAU às Sextas]
A Bloom agradece as palavras amigas do TENDÊNCIAS de hoje. São estas pequenas luzes que nos levam para a frente e que nos dão estímulo para continuar e recriar a situação. Tudo é feito para quem nos visita e para aqueles que ainda acreditam que Macau não é só um tabuleiro de Jogo.

Don't miss it

Is going to happen this weekend in Macau. Just in the real heart of the city, five minutes walk from the Leal Senado Square on the friendly neighborhood of Bloom. Is at LINES LAB, tomorrow, Saturday the 15th at 6 PM, "SUN SET LOUNGING" a multidisciplinary event on the statement "THIS IS MY CITY". Don't miss it.
• SOUNDS, BEATS & GROVES by DJ BISMARK
• VIDEO LOOPS by FUSA MIRACLE
• And presenting X NECKLACE by LINES LAB

A co-organization of LINES LAB and CULTURAL ASSOCIATION +853
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Um fascinante convívio

E se uma pulga, vinda do nada, se alojasse no cérebro de um indivíduo falhado, comandando a partir daí os seus actos rumo à glória absoluta? É esta a estimulante premissa de "Criaturas da noite", "conto moral sem moral" com o qual Lázaro Covadlo argentino radicado em Espanha há mais de três décadas - se apresenta ao público português.

Kafka, Poe, Lovecraft e um punhado de outros ilustres também obcecados pela "glória dos vencidos" - um tema só por si inesgotável na literatura - pairam sobre esta prosa eficaz, que, sob a sua aparente despretensão, revela inventividade e brilho narrativo em doses raras.
O absurdo e o fantástico em que se move a absorvente história encontram a antítese exemplar na figura do protagonista Dionísio Kauffman, um trintão derrotado pela vida que, qual Midas sem fortuna e virado do avesso, consegue transformar em latão (leia-se fracasso) tudo aquilo em que toca.
O errático percurso de vida da personagem começa a mudar no dia em que uma voz lhe interrompe a tranquilidade do sono. O que parecia ser uma alucinação auditiva ou um sintoma de demência revela-se, afinal, bem mais perturbador quando uma pulga propõe ao até aí infausto Kauffman tornar-se a sua consciência - abrindo-lhe de par em par as portas da felicidade terrena -, se, em troca, este lhe permitir uma existência pacífica, devidamente alimentada a sangue, no interior do seu ouvido.
Nesta reflexão sobre a natureza do mal, Covadlo evita habilmente uma tentação frequente em narrativas similares o moralismo. Só assim se explica que Kauffman, ao desviar-se dos rígidos códigos de conduta iniciais, comece a acumular sucessos, mesmo que para tal deixe atrás de si um rastro de atitudes impróprias.
Enquanto cidadão exemplar, embora com uma irreprimível tendência para proferir disparates nas ocasiões mais impróprias, o anti-herói limitou-se a acumular frustrações. A partir do momento em que resolve colocar de lado o altruísmo e centrar-se unicamente no 'eu', a sua sorte muda de rumo. Fama e fortuna passam a ser presenças indissociáveis da sua vida.
Com esta perspectiva arrojada, Lázaro Covadlo ascende ao terreno da amoralidade, ao expor uma visão do mundo que não se confina à redutora visão do bem e do mal, esses opostos tão próximos.
Voz da consciência privada de consciência, a insólita pulga é a personagem-chave de toda a história e, por paradoxal que pareça, a mais real de todas, pois revemos nas suas tomadas de posição os constantes dilemas que atravessam a vida.
A glória sobre a qual Covadlo disserta admiravelmente acabou por atingi-lo quando menos esperava. Depois de um percurso literário marcada pela discrição, o autor argentino obteve com "Criaturas da noite" o reconhecimento de que há largos anos era credor. Além de ter ganho o prémio Café Gijón, mereceu o aplauso unânime de figuras como Enrique Vila-Matas e Luis Sepúlveda. Um êxito improvável que, apesar de só ter chegado quando se aproximava dos 70 anos, ainda nos permite descobrir a sua obra e esperar novas incursões ficcionais em breve.
[SÉRGIO ALMEIDA • JN]

O argentino Lázaro Covadlo (n. 1937) vive desde 1975 em Espanha, para onde veio depois do golpe militar que instaurou no seu país uma das ditaduras mais cruéis da América Latina. Começou a publicar tarde, mas a sua obra, original e cheia de humor negro, depressa conquistou leitores. Este livro é bem um exemplo do estilo ácido e desconcertante com que brinda quem tem a ventura de o abrir. Pode pensar-se em Kafka, claro, mas pouco importa. Nunca a expressão «ter uma pulga atrás da orelha» teve tão brilhante interpretação. Enrique Vila-Matas não lhe poupa elogios: «Trágico e precioso.» A história tem tanto de inverosímil como de verdadeira, num registo burlesco e cómico. Uma surpresa superlativa.

Criaturas da Noite, de Lázaro Covadlo
LIVROS DE AREIA • ISBN:9789899517851 • 2007

Ainda as Minhas Memórias (52)

PS 5
Depois de ter regressado a Portugal, e fundado a QUINECOR, voltei a encontrar o meu amigo Brum Morgado que entretanto também tinha desistido de Moçambique, tendo o seu Avenida sido nacionalizado. Por essa altura eu fizera boas relações de amizade com o Vitoriano Rosa que era Director da revista Plateia e através dele conheci uma produtora espanhola de Barcelona as PRODUCCIONES BALCÁZAR que estava interessado na produção de um filme de longa metragem passado em Portugal. O Brum Morgado associou-se ao projecto e partimos para uma co-produção entre a Quinecor e as Producciones Balcázar. O filme - A Destruição de Marta Hyman - contava uma história rocambolesca toda passada no Algarve, de um vigarista que se fazia passar por pintor e acabava por casar com a filha de um rico industrial português. Assim, toda a equipa de filmagem e artistas espanhóis e portugueses, foi viver para o Hotel Montechoro na Praia da Rocha que nos acolheu a todos graciosamente na condição de fazermos a promoção do Hotel no filme. Foi um encanto. O Algarve e a Praia da Rocha contribuíram para o filme com cenários de uma beleza indescritível. Demo-nos todos maravilhosamente, portugueses e espanhóis. E até eu, co-produtor do filme, desempenhei um pequeno papel de comandante da marinha numa cena logo no principio do filme em que um barco da Polícia Marítima do Algarve procurava o cadáver de Marta, supostamente assassinada pelo marido, tendo encontrado apenas restos da suas roupas o que no dizer do comandante não eram suficientes para sustentar uma acusação de crime.

Achei muita graça porque depois de ter desempenhado o meu papel o realizador espanhol virou-se para mim e disse: - Ombre...Tu és un actor mui natural...

Ora acontece que eu havia feito um contrato com as Producciones Balcázar segundo o qual as receitas do filme em Portugal seriam nossas, as receitas em Espanha seriam deles e as receitas no resto do mundo seriam divididas em partes iguais pelos dois. Estas foram as únicas receitas que tivemos com o filme porque os distribuidores em Portugal recusaram-se a exibi-lo porque era falado em espanhol, apesar de termos feito uma cópia com legendas em português.
Fui assistir à estreia do filme em Barcelona e foi um sucesso.

Também adorei Barcelona e estive muito perto de me transferir para aquela cidade com armas e bagagens. Não o fiz mas ainda hoje não estou absolutamente certo de ter tomado a melhor decisão.
O meu amigo Brum Morgado, depois desta experiência, virou-se para a construção civil com a certeza de que essa actividade seria muito mais compensadora. E sabendo como sabemos a pouca compreensão e conhecimento dos poderes responsáveis em Portugal relativamente ao que verdadeiramente é o Cinema, acho que ele fez muito bem.

Things you must do before you die

YOU MUST HEAR THIS THREE RECORDS:

They are all Roxy Music albuns, launched between July 1972 and December 1973, more than 30 years ago. If you think these are oldies from your parents you are pretty wrong, I can say clearly they are still new, ahead of time, and unbeatable. Click the images to buy them or, just to taste it, you can search for them at Google on the following links:
ROXY MUSIC [info on WIKIPEDIA]
FOR YOUR PLEASURE [info on WIKIPEDIA]
STRANDED [info on WIKIPEDIA]

Another Poll is closed

This time we asked how many books you read per year? There is still a good hope most of the readers say they assimilate around 30 books along one year. It's not bad. It means that slightly every 2 weeks you start a new book. Is it true? Is a good average, but is not for all.
Sometimes we read 3 books at the same time. Some we don't like. We pass our fingers from page to page and then we drop them off in anger or boredom and seek for another dip. Anyway, these are the results - [CLICK THE IMAGE FOR MORE]:
I DON'T READ AT ALL
ONE OR TWO BOOKS
10 AT LEAST
AROUND 30
I READ A LOT! HUNDREDS.

Para que não se esqueça

Na BLITZ de Setembro pode ler toda a história dos Police, a banda formada por Andy Summers, Stewart Copeland e Sting. E, isto é a sério, venha depressa porque temos poucas, na compra da revista fica com a permissão de fazer o download grátis de 4 músicas da Loja iTunes. Precisa que lhe diga mais?

Pela nossa rua

PAULINA CHIZIANE E ONDJAKI
Auditório do Consulado de Portugal em Macau • 20 de Junho de 2006

Como as flores

Ondjaki foi convidado - com Paulina Chiziane e outros autores lusófonos - a participar no colóquio organizado pelo IPOR denominado "Lusofonia: Os Caminhos da Escrita", aconteceu em Junho de 2006, ainda na sequela de mais um 10 de Junho, Dia de Portugal.
O autor angolano era para mim uma novidade. Despertou-me sobretudo a simplicidade como pegava nas palavras e as enchia com o seu calor. Claro, sincero, alegre, mas também cheio de ironia e de dúvida. Nunca antes tinha passado pelos escritos de Ondjaki, e ao ouvi-lo mergulhei imediatamente para o seu mundo, para o mundo quente e doce de Angola - acre, também - ao sabor dos diversos dialectos vi-me em Luanda e nas outras cidades, tanto das outras cidades e aldeias, e das suas pequenas narrativas. Caras depuseram-se à minha frente, mulheres, grandes, com os seus vestidos coloridos e o andar bamboleante, onde nos mercados feitos de terra passeavam com as suas crianças, que como os cães se divertiam em pura alegria. Ou os restos de um conflito, com os homens, sempre em chama, sempre a avizinhar-se grande, na guerra, mas também indiferente de tão queimado. E havia também um chiar dos automóveis, ou outros instrumentos de viagem, aqui e ali, que deixavam as suas cordas nos meus ouvidos e a beira da estrada escura, que os separava do vasto arvoredo seco que ocupava a vista toda. Isto tudo num auditório, ao vivo, a flutuar a sintonia da minha imaginação.
Paulina Chiziane, do mesmo modo, levou-me consigo pela mão e deixou-me pregado numa árvore de Moçambique.
É esta a beleza dos livros. Dos contadores de histórias, das coisas que ficam. Sonhos, vidas e memórias. É isso que nos leva e que nos deixa ficar, que nos faz imortais mesmo depois da nossa passagem pela terra. Nesta estrada com bermas escuras, feitas de pós e sobras das árvores. É assim a obra de Ondjaki, abre-se e vemo-la cair a enfiar-se por dentro de nós:

Era uma tarde quase bonita numa cor amarela e castanha que o sol tinha posto dentro do apartamento pequeno deles. Serviram chá para nós, um chá aguado mas doce, cheio de ternura. Quase ninguém tinha palavras de falar - nem eles, nem nós. Depois o camarada professor Ángel explicou-nos, com palavras um bocadinho difíceis, que a missão deles em Angola tinha terminado e que se iam embora muito em breve. O Bruno coçava a garganta e olhava para a janela, também impressionado com as cores daquele amarelo-sol. A Petra, a Romina e eu vimos a camarada professora María chorar escondida na cozinha e tivemos de fazer força para parar as lágrimas. O camarada professor Ángel continuava a falar e, sem querer, dizia coisas que nos emocionavam muito. Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração.
Bom Dia Camaradas foi a primeira obra com que inundou o mundo literário lusófono, publicada aos 23 anos, em 2003. Este excerto é no entanto do seu último livro, Os da Minha Rua, onde Ondjaki desperta essa saudade do mundo de criança que vive em sono leve dentro do seu corpo. São histórias como as nossas, as que temos também da nossa rua, que cantam de viva alma memórias quentes e urbanas, mais uma vez de Angola. Coisas que se ouvem e vêm a rebolar lá de cima, como a música que salta do colo de uma mãe. Ou um jogo de futebol, a câmara muito lenta, os passos que se enchem das suas pessoas e o repente da imaginação, com um toque de lágrimas, sempre a rolar.
Quando alguém me tocava no ombro, as imagens todas desapareciam, o mundo ganhava cores reais, sons fortes e a poeira também.
Ondjaki nasceu em Luanda em 1977. Prosador. Às vezes poeta. Escreve para cinema e co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (Oxalá Cresçam Pitangas - Histórias de Luanda). É membro da União dos Escritores Angolanos. É licenciado em Sociologia.
A sua obra está disponível, quase na totalidade, na Bloom. Que mais razões precisa para ir até lá?



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