O 25 sem ter 45

Eu não estava em lado algum no 25 de Abril e não me arrependo nada de ainda não ter nascido naquela altura. Foi uns anos depois (não muitos), os Verões já não eram tão quentes, havia iludidos e desiludidos com os cravos, a maioria já alinhava no “consolida, filho, consolida” (obrigada Zé Mário).

Cresci sem nunca ter percebido muito bem qual tinha sido a confusão em que a minha mãe se tinha metido em 58, era então ela uma adolescente de espírito rebelde. O tio M. de olhos verdes e voz suave nunca quis falar daquela Angola que eu conheci pelas fotografias a preto e branco que enviava à minha mãe e que estavam guardadas numa gaveta que já não existe, imagens com dedicatórias cheias de mentiras piedosas, em que a única verdade eram as saudades e os beijos. Confesso que nunca lhe perguntei. O tio F. nunca quis falar da Guiné mas sei que ainda hoje sonha que não está em casa. Cresci sem nunca ter percebido muito bem o que era aquela história do isqueiro e da tal declaração para se ingressar na função pública. Nunca se falou muito do primo V. que desapareceu e não foi numa manhã de nevoeiro ou do tio-avô de hábitos suspeitos com quem não se trocava mais do que um bom dia-boa tarde, não fosse o diabo tecê-las, que acabou por morrer de velho, como o seguro, e ninguém foi ao funeral.

Depois vieram os amigos mais velhos, os que viveram fora do país porque era a única opção, os que não chegaram a poder escolher. Antes disso, já tinha chegado o manual de História do liceu, quando a efeméride ainda era abordada ao de leve. Depois vieram os documentários e os filmes e os depoimentos e os livros. E as músicas, tantas músicas.

Num jornal daqui, li hoje que há gente que acha que aqueles que têm hoje menos de 45 anos não sabem nada sobre o que era a vida antes do 25 de Abril. (Acredito que alguns com mais de 45 também não saibam, ou então já se tenham esquecido, afinal até já passaram uns anitos). Nada, mesmo nada, não será o caso – há sempre as histórias de família ainda hoje contadas em sussurro, as fotografias de África, os fantasmas, as memórias partilhadas a custo por muitos e com mais facilidade por outros. É provável que se saiba pouco, sim. Mas mais importante do que saber números e factos históricos, é saber sentir as pessoas. Não sei como é que isso se ensina ou se aprende. Também é verdade que a História teria outro valor se o presente fosse ligeiramente mais coerente.

É verdade que os que têm a minha idade olham para a liberdade como um dado adquirido, aquela liberdade de poder escrever aqui e hoje o que me apetece. Por mais livros (e eu quero sempre mais) que se guardem na estante depois de lidos e anotados, dificilmente poderia ser de outra forma, para quem ainda não estava cá. Poderia? Não. Mas isto não significa que eu – e outros com menos de 45 anos – não sintam 33, hoje, 25 de Abril que não é de 74, mas de outro ano qualquer.

Nada disto interessa. Ou tudo interessa, não sei. O que me apetece mesmo hoje é fazer um 25 de Abril em casa e na minha rua, apetece-me que todos tenham os seus 25 de Abris de fazer por casa, pelo emprego, pelas ruas onde moram. Que as pessoas não tenham medo de falar. O meu 25 de Abril é isto. Mais do que a História, mais do que histórias, o meu 25 de Abril foi ter crescido a aprender que posso falar, que posso dizer, todos os dias, no dia 26 e no dia 27 e em Maio e em Agosto e Novembro e todos os dias e todos os anos. Mesmo que seja inoportuno, politicamente incorrecto. O que me apetece mesmo hoje é que com mais ou menos de 45 anos não se fale só do 25 de Abril por ser dia 25 de Abril. Quero um 25 de Abril todos os dias. Não o de 74. O de hoje. Quero um 25 de Abril amanhã. Dizer, ouvir. Já nos ensinaram que se pode falar? Já nos ensinaram que se pode ouvir?
Sim, sim,“diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.” (Obrigada Zé Mário).

(Para o meu amigo H.B., que me ensinou que posso ser livre todos os dias.)

Importa-se de repetir?

a. said... in "A heronia dos símios""

E porquê este título? Pode alguém perguntar.
Bem, quanto a mim, há na raíz do ser, algo que nos aproxima de todo o conjunto dos símios, do qual por vezes, dadas as nossas condições genéticas, não nos conseguimos livrar, que justificam acções que de outra maneira, se fossemos matemáticos, ou mecânicos, não existiriam. Quer dizer que ao exprimirmos o contrário daquilo que na verdade significamos, que nos representa, e que pode ser apenas a imagem que os outros têm de nós, estamos a ocultar, depreciando ou engrandecendo, toda a nossa verdade. E isso dá-nos conforto, não nos responsabilizando pelos nossos actos de símio. Daí até à mistura com a palavra herói foi um passo.
O documento fotográfico, histórico, vive muitas vezes deste subterfúgio. Como se quisesse demonstrar no seu corpo visível de imagem, mecânico e matemático, todas as discrepâncias de um passado que ajudou a inaugurar.

Ok, mandem-me calar!

Como se hoje fosse amanhã (ou vice-versa)

Comemora-se mais um Dia da Liberdade. Dia que ficou para sempre gravado na memória de Portugal e dos portugueses a partir do dia 25 de Abril de 1974. Mas a memória por vezes é curta e é preciso exercitá-la. E porque já passaram trinta e três anos sobre esse dia - tanto tempo! - as novas gerações ficam apenas com a Históra para que aprendam e assimilem esse pedaço de conhecimento. Um testemunho do passado que jamais será riscado porque nos pertence e será sempre assinalado ao lado dos Barões que se esperguiçam sempre que se canta o hino. É bom que não se esqueça. Cabe àqueles que pela pele sofreram os derrames do Antigo Regime levantar a sua voz e contar. Passar a palavra. Para que se fale dos valores dessa data, do seu significado, das mudanças. Do céu que se abriu.
Hoje, o mundo é diferente, o país mudou. Não como uma viragem mas como um ciclo. Como se da herança desse passado negro, que antecedeu o 25 de Abril, e na falta de oportunidades e de caminhos, o povo português se justificasse de novo, quase a pedir perdão, e queira voltar ao ponto de partida.
Recentemente, Salazar foi votado como a personalidade mais importante da História de Portugal. Sob as garras da ditadura do Estado Novo, Portugal encostou-se à cauda da Europa e por lá ficou. Período esse em que a ignorância e o analfabetismo eram benvindos, porque se podiam substituir por outras coisas mais básicas, e assim continuar a governar à sombra da ilusão. Anos e anos dentro de um pântano húmido. E até hoje o país não se conseguiu livrar desse espectro. Agora vangloria-se o passado e os seus fantasmas. Não porque verdadeiramente se deseje viver assim de novo mas porque nessa altura se sonhava e se respirava a utopia da mudança. E é isso que o Povo quer: sonhar, viver com os olhos postos na Lua, à espera das Caravelas.

No âmbito das comemorações do 25 de Abril, acompanhado por uma exposição de fotografia, a Assírio & Alvim lançou o livro «POR TEU LIVRE PENSAMENTO – Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses», uma obra com testemunhos de resistentes antifascistas, da autoria de Rui Daniel Galiza e com fotografia de João Pina. O livro e a exposição são o resultado de entrevistas efectuadas a ex-presos políticos, por dois jovens sem qualquer memória pessoal do período em questão, que pela sua acção de luta contra o Estado Novo e em prol da implementação da Democracia em Portugal, viveram experiências de privação de liberdade e maus tratos nas prisões do fascismo. Factos e figuras que parecem simultaneamente tão próximas e tão distantes da memória colectiva de todos nós, principalmente das gerações que os sucederam, para quem a democracia e a liberdade são factos consumados.
Uma das lamentações que os entrevistados mais transmitiram foi o facto de, na sua opinião, Portugal ser "um país sem memória". O objectivo dos autores é prestar um contributo para que se consiga dar a conhecer o que era viver no Portugal de há poucos anos atrás, e tornar visível toda a luta pela sua transformação num país melhor. E o texto de apresentação da obra refere "se isso acontecer a nossa tarefa está cumprida."

A Exposição está patente, até ao dia 24 de Junho, no Centro Português de Fotografia na cidade do Porto. Alguns exemplares estarão disponíveis na Bloom para que se levem para casa e com eles se escovem as raízes da memória.
Centro Português de Fotografia • Antigo Edifício da Cadeia da Relação • Campo Mártires da Pátria • 4050-368 Porto

Scratch and reinvent the City of Dreams

Last February David O'Shea, an awarded journalist from SBS TV in Australia, was in Macau to make a documentary about this piece of land. The gaming industry and its tentacles is always the main subject. Daily the growing economy surpasses all previous records and the border of what's legal and what's not can easily get its prime time around the world. Crime, politics and business is the hybrid cocktail that through the years shared the same platform of quietness, living peacefully among all the rest. But is it this misuse of fortune ruining the future of Macau or the circus will go on as ever before? Check what David O'Shea and DATELINE have documented, find out for yourself and take your own conclusions.

YOU CAN SEE IT HERE.

Date-align in Macau (III)

In gambling there are always more losers than winners. And directly opposite these temples to Mammon, the god of greed, is this once quiet little church, built in 1835. With only months till opening of the new casinos, Father Luis Xavier is worried about the impact on society. He's already inundated with gambling addicts.

FATHER LUIS XAVIER: Imagine that every day, every morning, people come, "You, father, can you lend me 500 patacas "because I lost my money, I don't have money to get to Hong Kong."

REPORTER: That happened?

FATHER LUIS XAVIER: This happens very frequently. We cannot afford to meet all these requests.
by DAVID O’SHEA @ DATELINE ©SBS TV - AUSTRALIA

A heronia dos símios

O que significou para si receber o prémio BES Photo 2006?
Fiquei contente. Não o quero sobrevalorizar, mas também não o desvalorizo. Já estou a trabalhar há tanto tempo em fotografia que penso que é um reconhecimento, pelo menos, do trabalho apresentado e por um júri maioritariamente estrangeiro.

Como se começou a interessar por fotografia?
Por via do cinema e da pintura...

Colaborou com o Independente e o Blitz. Entretanto, desinteressou-se pelo fotojornalismo?
Não, de forma alguma. Só que percebi que o que quero dizer é tão subjectivo, que não pode ser jornalismo. É ficção.

Porquê editar agora Sob Céus Estranhos em livro e DVD?
Era um projecto que existia desde o início e que só agora, graças ao entusiasmo da editora Tinta Da China se pode realizar. A ideia inicial era um livro, depois aconteceu como filme e agora encontrou a sua forma ideal; um livro que integra o filme em DVD. Os livros dão-nos coisas que os filmes não podem dar e vice-versa. Penso que aqui está a prova disso.

Como lhe surgiu a ideia para este trabalho?
Sempre pensei que esta história merecia ser contada e quando iniciei o trabalho não existia mais nenhum sobre o tema. Felizmente entretanto saíram outros livros sobre o assunto. Também quis desmistificar um pouco a ideia que existe de que o regime de Salazar tinha sido um anjo da guarda para esta gente.

Portugal durante a guerra não era a terra prometida mas apenas um corredor até ela, um ponto de passagem. O país do «pão e vinho sobre a mesa» que se gaba de bem receber não tratou bem esses exilados?
Algumas pessoas em Portugal trataram bem os exilados. O país recebeu alguns. Muitos ficaram à porta e morreram por isso. O livro apresenta documentos de crianças com 10 e 14 anos, cujos pais as esperavam já em Nova Iorque, a quem Portugal recusou passagem. Os países podem sempre fazer mais e melhor, não deve haver termos de comparações em questões humanitárias, mesmo hoje.

O filme foi exibido pela primeira vez em 2002. Como foram as reacções?
As reacções são sempre muito diversas. Mas foi muito gratificante apresentar o filme em Nova Iorque e encontrar lá pessoas que tinham tido esta vivência em Lisboa e que, de certa forma, reencontraram uma parte de si neste filme. Com algumas mantenho-me em contacto até hoje.

Sobre o filme: Também padece da ‘doença do exílio’ da sensação de ser um estranho, de não pertencer a nenhum sítio por onde passa?
Eu não padeço de uma “doença de exílio”, mas este tipo de “doença” deixa marcas ao longo de gerações, sem dúvida nenhuma. Daí que, alguns dos conflitos no mundo tenham necessariamente a haver com factos passados há muito tempo.

O Daniel é judeu praticante? Pesa essa herança familiar?
Ninguém na minha família é ou foi judeu praticante. Mas existe uma cultura judaica, da qual eu me sinto próximo. Pelas palavras, pela comida, pelo humor, pelo passado, pelas histórias. Ironicamente foi Hitler e o anti-semitismo que tornou alguns judeus mais judeus.

Vai à sinagoga?
De quando em quando e aqui e ali.

Sente-se e gosta de ser português ou é um conceito conflituoso?
Sinto, gosto, e por isso mesmo é conflituoso. Só quem não gosta de uma terra, ou não a sente como sua, é que a aceita com todos os seus defeitos ou que a deixa ser estragada por interesses económicos.

Este documentário pode ser interpretado como homenagem ao passado de resistência (e paciência, de saber esperar) dos exilados?
Não, este documentário não é nenhuma homenagem. Entre os refugiados existia, como é óbvio, todo o tipo de pessoas, não desejo homenagear a condição de refugiados só por si. Este documentário é antes uma memória, que, talvez, também nos sirva como exemplo no presente, em relação a outros refugiados, exilados ou emigrantes. Por vezes, não temos a noção de como as razões de estado, as decisões públicas, alteram as nossas vidas pessoais. Nós que fomos um país de imigrantes deveríamos ter mais consciência disso.

Ou é uma busca pelas raízes familiares com uma história tão particular? Uma resposta à pergunta ‘onde fica a minha casa'?
Também o é, sem dúvida. Tal como também é um trabalho sobre a própria fotografia, as fotografias de outras fotografias ou as memórias de outra memórias.

O nome do livro+filme Sob Céus Estranhos tem alguma relação com a obra de Ilse Losa de 1962 (também ela refugiada) com o mesmo nome?
Sim, é uma homenagem a uma escritora que veio para Portugal e começou a escrever em português. O romance Sob Céus Estranhos conta-nos igualmente a experiência de um refugiado, neste caso no Porto.

Foi fácil aceder a tantas imagens de arquivo? Os arquivos para além do pessoal, claro.
Os arquivos são sempre burocráticos, porque muitas vezes não são feitos para serem utilizados. Veja-se o da RTP, que passou a negócio, apesar de ter sido pago por nós todos e de ser parte substancial da nossa memória colectiva.
[POR LUÍS MIRANDA /SOL]

E não vou dizer mais vez nenhuma!

Há muito para escrever, eu sei, é preciso. Isto anda assim assim. Não tenho muita vontade de olhar para o mundo e desatar para aqui a dizer coisas sobre ele... não tenho jeito para isso. Imediatamente. Mais tarde se verá. Por agora deixo aqui os restos de um livro da QUASI:

... Claro que Saramago também não diz coisa com coisa, mas, ocasionalmente, faz-nos pensar, pensar de facto. Quando ele diz "a Democracia ocidental está ferida de morte.", nós pensamos "o homem é parvo". Quando ele pede "uma revolução das consciências", nós pensamos "o homem é doido." Quando ele garante que vivemos numa "plutocracia", que como todos sabem é um regime dominado pelo cão do Mickey, eu penso que é altura de oferecer um computador ao Ernesto e esperar pela respectiva obra. Não que o Ernesto não tenha já obrado - a Caminho é que ainda não publicou.

Chama-se "Selecção Nacional" e são as crónicas de Alberto Gonçalves - não sei muito bem quem é o Alberto Gonçalves mas vou averiguar e já cá venho! Caso não saibam, a QUASI tem livros muito bons.

Outro dos livros que gosto da QUASI é o "Albas" do Sebastião Alba. Organizado por Maria de Santa-Cruz, este volume é uma colecção póstuma e fragmentária do espólio do poeta que morreu um dia atropelado numa rua de Braga. Cabem nele “cartas, poemas, bilhetes, rascunhos, crónicas, pensamentos, irónicas meditações” que o poeta de “A Noite Dividida” dispersou por familiares e amigos e que Maria de Santa-Cruz organizou por afinidades temáticas. É um livro que gostariamos de ver na BLOOM. Sebastião Alba a certa altura da sua vida resolveu abandonar o conforto de uma casa para ir viver para a rua como um mero sem-abrigo. Foi aí que escreveu, foi aí que morreu. Tinha sessenta anos.

Sebastião Alba era o pseudónimo de DINIS ALBANO CARNEIRO GONÇALVES, poeta moçambicano, dizem alguns, mas na verdade nasceu na cidade onde morreu, em Braga. Será que era alguma coisa ao autor de "Selecção Nacional"? Fica a pergunta no ar.

Pele com pele

- Tu aí, anda cá!
- Quem? Eu?
- Está aqui mais alguém? Anda cá!
- Fazer o quê?
- Anda cá, já disse!
- Não vou! Tens de me dizer o que vou aí fazer.
- Já disse!!

O bom é inimigo do óptimo


Escreve hoje a Inês Nadais (jornalista que respeito muito) no Público que as boas notícias são que já somos mais de três milhões a ler (somos = portugueses, claro está). Apetecia-me mais para o país onde nasci. Ler é uma forma de viajar, de acabar com fronteiras e conhecer os mundos de outros. E por lá há muito quem precise disso. Por cá também. Precisamos todos de viajar e pode-se fazer isso no sofá.

The Dispositions of the Linen (two)

Turgenev was holding the phone in his hand.
On the other side of the line, somewhere in the melancholic Barents Sea, Dostoevsky was catching a cold. There was no net, the bacterial waves were coming directly to his lungs. No pain, no evidence.
Long distance call.
- Do you accept this call? - Turgenev heard. He was waiting still. Breathing silently while holding his pencil with the other hand. The words were coming. Breathable. Just by having a phone on his hands he suddenly remembered to write about something very important. - I must hang up the phone! - he thought. But as things come, things go.
- It's me, Fyodor. Hey, I need your help. I was here...
- There? - Turgenev mumbled.
- Up in the North, it does not matter. What matter is...
- North? Where? - Turgenev knew by the noise in the background that he was on a boat...
- On a boat, down in the Barents Sea. Came fishing, didn't find anything. The fish are all gone. - That was Fyodor Dostoevsky.
- What do you want?
- I remembered something. WelI... I mean, I wanted to write this very important stuff. Something that just came to my mind and I cannot miss it. Don't have anything here, I was trying to seduce the fish with my notebook, then it fell over, into the water.
Turgenev was about to write his first word of the great idea he just had. - I have to hang up the phone! - He was getting nervous.
- Listen... - The sound on the Barents Sea is very strange, you can never forget it. It seems like you are far from everything and you have arrived at the end of the world. - Do you have a pen or a pencil and paper?
- Yes, but...
- OK. Write it down.

And then something amazing happened. The same thought, the same idea, the same sentences with every word on it, were just the same. Turgenev, as he was hearing, he was writing it down. But he was not listening. He just couldn't. His line was stronger than Dostoevsky's voice and he couldn't stop posting his own idea.
- Got it? - He heard from the boat. - Read it to me...
It seemed like a short dream. Equal to a minute nap, you sleep and you don't know why. When he woke up there he was with a text in his hands.
And Turgenev read it on the phone. The words were beautiful, he never wrote such a thing before. They crossed the world until its end and from the Barents Sea Dostoevsky replied:
- That's beautiful, I never wrote such a beautiful thing. Thank you! - And then he hung up.

Date-align in Macau (II)

« [...] But Macau's history is one of change and the pace is picking up.

BILL GUTHRIE, PROFESSOR OF SOCIOLOGY, MACAU UNIVERSITY: What I've learned is that Macau has always been changing this way. People who only live here a little while - people who only live here five years, 10 years, 20 years will always tell you, "It's ruined now, it's too bad you weren't here 10 years ago when I arrived. "It's too bad you weren't here 20 years ago when I got here. It was real Macau then." Now, for 500 years Macau has been doing it. It has reinvented itself. Every time there's a new market available, Macau completely reinvents itself. Every time the Chinese make a new law, "You can do this or can't do this," Macau reinvents itself.

Bill Guthrie is a professor of sociology at Macau University and he's lived here for 11 years.

BILL GUTHRIE: Bill's rule - if you're walking on flat land, you are not walking on Macau.

He took me for a walk along what used to be the beachfront.

BILL GUTHRIE: All this stuff in front of you as you look out all the way across here to the major modern construction of Macau is all standing on river bottom.

But it's another patch of reclaimed land that will change the face of Macau forever. Just as Las Vegas rose from the Nevada Desert, the Cotai Strip is rising from the sea. It's a multibillion-dollar development being driven by Americans who can now invest directly in China. China has always allowed Macau to do what it doesn't want to be seen doing itself. This time it's gambling.
When it opens later this year, the Cotai Strip will be like a mini city - tens of thousands of suites, convention centres and themed casinos. The centrepiece is The Venetian - a much larger replica of the one in Las Vegas.

BILL GUTHRIE: These are the first real monuments of Macau. All the rest of this stuff is transitory. All these old buildings that look old - they're 20th century. The Venetian, the Macau Tower, these gigantic concrete structures - they are going to be here for a long time and they are going to define people's idea of what Macau looks like. [...] »
The Reporter is DAVID O’SHEA @ DATELINE ©SBS TV - AUSTRALIA

Lápis Azuli

Todos estes instrumentos de trabalho de alguns dedicados funcionários do Estado Novo podem ser encontrados na GALERIA VIRTUAL DA CENSURA, ao qual recomendamos de pronto a sua visita.

World Book Day 2007

In a survey to mark the tenth anniversary of World Book Day, a survey has been conducted to find the ten books the nation (England) cannot live without. Over 2000 people voted online at www.worldbookday10.com

Results reveal that Pride and Prejudice tops the list, with Tolkein’s fantasy trilogy, The Lord of the Rings, in second place. Two of the Bronte sisters appear alongside Charles Dickens, showing that classics are still the most essential reads. The Bible is also still relevant to many, coming in sixth in the poll.

The top ten are as follows:

1) Pride and Prejudice – Jane Austen 20%
2) Lord of the Rings – JRR Tolkien 17%
3) Jane Eyre – Charlotte Bronte 14%
4) Harry Potter books – J K Rowling 12%
5) To Kill A Mockingbird – Harper Lee 9.5%
6) The Bible 9%
7) Wuthering Heights – Emily Bronte 8.5%
8) 1984 – George Orwell 6%
= His Dark Materials - Philip Pullman 6%
10) Great Expectations – Charles Dickens .55%

Date-align in Macau (I)

REPORTER: This city is known for history of crime, of vice, prostitution, money laundering criminal activity connected to the triads. Is all of this still a concern, still a problem here?

PEDRO MOITINHO DE ALMEIDA, PORTUGUESE CONSUL GENERAL – MACAU: Well, this is something you should ask the Macau authorities, not myself, but I can only say I have lived here before the handover and I live here and my family lived here for some periods and never had any problems, either before or after. It's one of the safest cities in the world. Of course, it's known that there are triads working in Macau but for the common people, the common citizens of Macau, this is something we don't feel the presence of.
©SBS TV - AUSTRALIA

World Book and Copyright Day - April 23

By celebrating this Day throughout the world, UNESCO seeks to promote reading, publishing and the protection of intellectual property through copyright.

23 April: a symbolic date for world literature for on this date and in the same year of 1616, Cervantes, Shakespeare and Inca Garcilaso de la Vega all died. It is also the date of birth or death of other prominent authors such as Maurice Druon, K.Laxness, Vladimir Nabokov, Josep Pla and Manuel Mejía Vallejo. It was a natural choice for UNESCO's General Conference to pay a world-wide tribute to books and authors on this date, encouraging everyone, and in particular young people, to discover the pleasure of reading and gain a renewed respect for the irreplaceable contributions of those who have furthered the social and cultural progress of humanity.

The idea for this celebration originated in Catalonia where on 23 April, Saint George's Day, a rose is traditionally given as a gift for each book sold. The success of the World Book and Copyright Day will depend primarily on the support received from all parties concerned (authors, publishers, teachers, librarians, public and private institutions, humanitarian NGOs and the mass media), who have been mobilized in each country by UNESCO National Commissions, UNESCO Clubs, Centres and Associations, Associated Schools and Libraries, and by all those who feel motivated to work together in this world celebration of books and authors.
UNESCO.ORG

Inés à descoberta

“É uma pena que, na altura, eu não soubesse escrever, porque teria começado a tomar notas. Apesar de ainda não suspeitar que a minha vida seria merecedora de uma crónica como esta, aquela viagem merecia ser registada detalhadamente, já que muito poucas pessoas tinham cruzado a salgada extensão do oceano, água de chumbo, fervilhando de vida secreta, pura abundância e terror, misto de espuma, vento e solidão. Neste relato, escrito muitos anos depois de ter feito a travessia, é meu desejo ser o mais fiel possível à verdade, mas a memória é sempre caprichosa, fruto do que se viveu, desejou e fantasiou. A memória também está tingida pela vaidade. Neste preciso momento em que a Morte está sentada numa cadeira junto à minha mesa, à espera, ainda sou avassalada pela vaidade, não só para pintar as faces de carmim quando recebo visitas mas também para escrever a minha história. Haverá alguma coisa mais pretensiosa do que uma autobiografia?”

in "Inés da minha alma", de Isabel Allende • DIFEL

Yesterday was Earth Day

"Every day is Earth Day."
Author Unknown

"We could have saved the Earth but we were too damned cheap."
Kurt Vonnegut, Jr.

"Thank God men cannot fly, and lay waste the sky as well as the earth."
Henry David Thoreau

"A human being is part of the whole, called by us 'Universe', a part limited in time and space. He experiences himself, his thoughts and feelings as something separated from the rest - a kind of optical delusion of his consciousness. This delusion is a kind of prison for us, restricting us to our personal desires and to affection for a few persons nearest to us. Our task must be to free ourselves from this prison by widening our circle of compassion to embrace all living creatures and the whole [of] nature in its beauty."
Albert Einstein

"Man has been endowed with reason, with the power to create, so that he can add to what he's been given. But up to now he hasn't been a creator, only a destroyer. Forests keep disappearing, rivers dry up, wild life's become extinct, the climate's ruined and the land grows poorer and uglier every day."
Anton Chekhov, "Uncle Vanya"

"We shall require a substantially new manner of thinking if mankind is to survive."
Albert Einstein

Earth can satisfy your needs but not your greeds. Use only what you need.

Orson on-air

The 25th was a cold morning for April. At 7.45 am the following radio announcement stunned hundreds Of thousands of Portuguese into a realisation that a new phase in their history had begun:

The Portuguese Armed Forces appeal to all the inhabitants of Lisbon to stay at home and to remain as calm as possible. We sincerely hope that the seriousness of the hour will not be saddened by personal injuries. We therefore appeal to the good sense of all military commanders to avoid any confrontation with the Armed Forces. Apart from being unnecessary, such action would only create or aggravate serious divisions between Portuguese people, which must be avoided at all costs. It is because of our concern to spare Portuguese blood that we are appealing for a civic spirit. All medical personnel, especially those in hospitals, should hold themselves ready to give help, though it is hoped this will not be needed. To all political and military forces, the Command advises maximum caution to avoid any action which may be dangerqus. It is not our intention to shed blood unneeessarily, but if we meet provocation we shall deal with it. Go back to your quarters, and wait for orders which will be given by the Movement of the Armed Forces. Commanders will be held responsible for any attempt, in any form whatsoever, to lead their sub-ordinates into conflict with the Armed Forces We appeal to the forces of the GNR (National Guard) and PSP (Riot Police) - and even to the DGS (Political Police) and Portuguese Legion - who may have been recruited under false pretences to remember their civic duty of maintaining public order. In the present situation this can only be achieved if there is no reaction against the Armed Forces Attention, all military and police units. Since the Armed Forces have decided to take your place in the present situation any opposition to the troops which surround the city will be deak with drastically. By not obeying this advice you could provoke a senseless blood-bath, whose responsibility will be yours alone.

12043 dias depois

Era um ambiente indescritível, os cravos vermelhos a serem enfiados nos canos das G3, os populares que vitoriavam os soldados. Quando cheguei ao Quartel do Carmo vi-me envolvido por uma multidão que enrouquecia a cantar o Hino Nacional. Foi o momento mais digno da minha vida.
Salgueiro Maia

À la recherche du temps perdu

TOMORROW! TOMORROW!

How empty, dull, and useless is almost every day when it is spent! How few the traces it leaves behind it! How meaningless, how foolish those hours as they coursed by one after another!

And yet it is man's wish to exist; he prizes life, he rests hopes on it, on himself, on the future... Oh, what blessings he looks for from the future!

But why does he imagine that other coming days will not be like this day he has just lived through?

Nay, he does not even imagine it. He likes not to think at all, and he doeswell.

'Ah, tomorrow, tomorrow!' he comforts himself, till 'tomorrow' pitches him into the grave.

Well, and once in the grave, you have no choice, you do not more thinking.
"DREAM TALES AND PROSE POEMS" BY IVAN TURGENEV

And yet so soon

Suffering is one very long moment. We cannot divide it by seasons. We can only record its moods, and chronicle their return. With us time itself does not progress. It revolves. It seems to circle round one centre of pain. The paralysing immobility of a life every circumstance of which is regulated after an unchangeable pattern, so that we eat and drink and lie down and pray, or kneel at least for prayer, according to the inflexible laws of an iron formula: this immobile quality, that makes each dreadful day in the very minutest detail like its brother, seems to communicate itself to those external forces the very essence of whose existence is ceaseless change. Of seed-time or harvest, of the reapers bending over the corn, or the grape gatherers threading through the vines, of the grass in the orchard made white with broken blossoms or strewn with fallen fruit: of these we know nothing and can know nothing.

For us there is only one season, the season of sorrow. The very sun and moon seem taken from us. Outside, the day may be blue and gold, but the light that creeps down through the thickly-muffled glass of the small iron-barred window beneath which one sits is grey and niggard. It is always twilight in one’s cell, as it is always twilight in one’s heart. And in the sphere of thought, no less than in the sphere of time, motion is no more. The thing that you personally have long ago forgotten, or can easily forget, is happening to me now, and will happen to me again tomorrow. Remember this, and you will be able to understand a little of why I am writing, and in this manner writing...
"De Profundis" by Oscar Wilde

Selvagem ainda amanhã de manhã

De Profundis é uma longa carta escrita por Oscar Wilde na prisão de Reading ao seu amante Lord Alfred Douglas. Nela o homem que havia procurado o prazer estético inspirado nos clássicos gregos e o brilho social, tira consequências da sua descoberta de que o «segredo da vida é o sofrimento». Condenado num julgamento que desencadeou e sabia perdido, perseguido pelo escândalo, abandonado por amigos, Oscar Wilde revela a sua complexa personalidade. É um texto íntimo, um monólogo dramático que permaneceu singular numa obra repartida pelo ensaio, a poesia, o teatro, o romance e os diálogos ocasionais. Oscar Wilde tinha a «virtude do encanto» como afirmou Borges. Mas foi capaz de jogar «tragicamente com o seu destino». No seu voluntário exílio em Paris disse a Gide que quisera conhecer «o outro lado do jardim». Nascido em Dublin em 1854, Oscar Wilde morreu 46 anos depois no discreto Hôtel d’Alsace. Como escreveu Borges «a sua obra não envelheceu; podia ter sido escrita esta manhã».

Beat but not broken...



"Nobody saves America by sniffing
cocaine, Jiggling yr knees blankeyed in
the rain, When it snows in yr nose
you catch cold in yr brain."
Allen Ginsberg

Printer Love Poem

How strange to think of you now,
Gone beneath waves of oriental perfumes.
Not stranger than the remembrance of you
Whom I never really wanted
But loved so close to the edge of myself.

Not nearly a lifetime to piece together
The images of a tattered and threadbare artist
When your face disappeared behind the music
The rumours and yellow sheets of paper
Drowned even the memory of you.

R.E.L.

The Book of Bunny Suicides












"If you are a bunny contemplating suicide,
then this is the book for you."
Paul Whitehouse, comedian

In heaven everything is fine

Bukowski said, «We got cable TV here, and the first thing we switched on happened to be Eraserhead. I said, 'What’s this?' I didn’t know what it was. It was so great. I said, 'Oh, this cable TV has opened up a whole new world. We’re gonna be sitting in front of this thing for centuries. What next?' So starting with Eraserhead we sit here, click, click, click — nothing.»

One thing leads to the other

Loyalty, betrayal, justice, revenge... Nick Cave has made a movie out of his favourite themes. But is the world ready for his brutal Australian western?

Four years ago, Nick Cave received an intriguing request from Russell Crowe. The actor wanted him to write a draft screenplay for Gladiator II. Although Cave found the writing process "hugely enjoyable", Crowe and director Ridley Scott decided they had better look elsewhere.
"Luckily, it was so completely unacceptable they didn't even ask me to do rewrites," says Cave, with a kind of amused pride. "It wasn't makeable." Why not? "I wanted to write an anti-war film and use Gladiator as a raging war machine. He died in the first one so he comes back as the eternal warrior. It ended up in Vietnam and the Pentagon." He shrugs his spindly shoulders. "It was just this really wacked-out script."

Sadly we do not live in a world where a Hollywood studio is willing to risk a multi-million dollar franchise on the wilder imaginings of a moonlighting songwriter, but at least one of Cave's scripts has made it to the screen, a savagely brilliant outback drama called The Proposition.
[FOLLOW ON]

Good Sin

I asked my friend, "What are your three favorite pleasures in life?" and she replied, "A martini before and a cigarette after."
Unknown
In a decade of invigorated zeal towards healthy living, which has us trading in our cigarettes and martini glasses for Feng Shui and green tea, nearly all of which is known collectivley as 'sin' - namely drinking, smoking and screwing - has fallen into disrepute. Therefore it's refreshing and not a little surprising to some across a book which so brazenly, and eloquently, eulogizes those unfashionable mortal arts of pleasure and abandon. A delightful selection of fiction, essays and poetry from great writers (Henry Miller, Bukowski, Dorothy Parker, Don Marquis, Anais Nin, among others) this book is a must read for anyone with a drop of self-indulgent hedonism in their blood.
To the Princess, it was an enigma why anyone would smoke, yet the answer seems simple enough when we station ourselves at that profound interface of nature and culture formed when people take something from the natural world and incorporate it into their bodies.
Three of the four elements are shared by all creatures, but fire was a gift to humans alone. Smoking cigarettes is as intimate as we can become with fire without immediate excruciation. Every smoker is an embodiment of Prometheus, stealing fire from the gods and bringing it on back home. We smoke to capture the power of the sun, to pacify Hell, to identify with the primordial spark, to feed on the marrow of the volcano. It's not the tobacco we're after but the fire. When we smoke we are performing a version of the fire dance, a ritual as ancient as lightning.
Tom Robbins, 'Still Life With Woodpecker'
in '
Drinking Smoking and Screwing - Great Writers on Good Times'

Blostcard #001

"Eu trato-te"

E que dizer da última crónica de António Lobo Antunes escrita entre as paredes de um hospital?
A notícia, a doença, a mudança abrupta de perspectiva, colhe sempre de surpresa. Mesmo quando se trata de outra pessoa, mesmo quando não somos nós. Mesmo quando esse mal "antes levou tantas das pessoas" que mais queríamos. Que mais querer quando nos afecta a nós? Quando está ali, dentro do corpo, a fazer com que o futuro desapareça. É isso que lemos das palavras de Lobo Antunes ainda cheias do embaraço da dor e da explosão da realidade. Isso mesmo, sem "tretas".
E agora? Onde está o escritor, onde está aquilo que sempre esteve dentro dele, o homem. Ou será ao contrário? Lobo Antunes sempre disse que as palavras não eram dele, os livros que estão para aí, publicados, não são dele, são das palavras que os escrevem, como o último, já "pronto há um ano e tal" e que espera pelas traduções para se espalhar como metástases pelo mundo inteiro, todo em simultâneo. O mundo de repente num só lugar, dentro de um só momento, entre quatro paredes de um hospital. "Esse livro tem a melhor prosa que fiz até hoje", diz o homem, aflito, que com a perspectiva desfocada saltou do altar de escritor, "Parece recitado por um anjo." E as mãos a tremer por terem deixado de ser nossas, por que já não são elas que escrevem e nós não estamos dentro delas.
Onde está Lobo Antunes a esta hora? Neste momento? Ainda no hospital? Em casa? Ainda a remoer estas páginas novas da sua vida, que se encavalitaram por cima das outras, por cima dos livros e as mancharam com um borrão?
A última crónica do escritor, do homem, não do anjo, é das coisas mais belas que li até hoje. É um espanto, como é um espanto os dias que nos percorrem. Como é um espanto a beleza do mundo que de repente, sem dizer nada, sem recitar, muda de feição e vai fazer o ninho para outro lugar. O futuro a encurtar-se, as pessoas para lá disso, a esperança, e tanto ainda por fazer!

O livro e o espelho

"Bea diz que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos cá dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos. Todos os meses recebemos ofertas para nos comprarem a livraria e transformá-la numa loja de televisores ou de alpergatas. Não nos tiram daqui a não ser com os pés para a frente."

in "A Sombra do Vento", Carlos Ruiz Záfon

Vision

My language is universal. My language is what I see.

This book is hard to get!

For once, a book that merits its wacky title, this collection of Japanese writer Tsutsui’s seldom-translated short stories playfully skips across the conventions of both sci-fi and slapstick. With the same knowing approach to genre as US metafictionist John Barth, he pits tight-buttoned scientists and browbeaten salarymen against a variety of near-future woes, including the rampantly indecent (yet strangely fascinating) alien flora and fauna of the title story’s planet. Back on Earth, we encounter a civil war fought by armies of commuting soldiers, a mysterious rural railway tribe and a fantastically jumbled retelling of the life of Mozart.

Mostly written in the 70s, the stories’ satirical elements and sexual politics may now seem a little creaky. Yet the sense of a world bordering on paranoid hysteria is as strong as ever, as though Tsutsui’s spineless office workers and fickle housewives were trapped inside an episode of 'Some Mothers Do Have ‘Em' penned by Stanislav Lem.
"Salmonella Men On Planet Porno" by Yasutaka Tsutsui • ALMA BOOKS
[FROM BBC's COLLECTIVE]

The Carny Nation (II)

CONTEXT
In the beginning of the 1970s, the authoritarian regime of the Estado Novo continued to weigh heavily on the country, after a half-century of rule under President of the Council of Ministers António de Oliveira Salazar. After the military coup of May 28, 1926, Portugal implemented an authoritarian regime of social-Catholic and Integralist inspiration. In 1933, the regime was recast and renamed Estado Novo ("New State"), and Salazar was named as President of the Council of Ministers until 1968, when he suffered a stroke following a domestic accident. He was replaced by Marcelo Caetano in September who served as President of the Council of Ministers (Prime Minister) until he was deposed on April 25, 1974.

Under the Estado Novo, Portugal was not considered a democracy, whether by the opposition, by foreign observers, or even by the regime leaders themselves. There were formal elections but they were rarely contested - with the opposition using the limited political freedoms allowed during the brief election period to openly protest against the regime, before withdrawing theircandidates before the election so as not to provide the regime with any legitimacy. In 1958, General Humberto Delgado - a former member of the regime - stood against the regime's presidential candidate, Americo Tomaz, and refused to allow his name to be withdrawn from the competition. Tomaz won the election, but only amidst claims of widespread electoral fraud that denied Delgado of his 'legitimate' victory. Immediately after this election, Salazar's government abandoned the practice of popularly electing the president, with that task being given thereafter to the regime-loyal National Assembly. During Caetano's time in office, his attempts at minor political reform were obstructed by the important Salazarist elements within the regime (known as the Bunker). The Estado Novo's political police — the PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), later to become DGS (Direcção Geral de Segurança), and originally the PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) — persecuted opponents of the regime.

The International context was not favourable to the Portuguese regime. The Cold War was near its peak, and both Capitalist and Communist-bloc nations were supporting the guerrillas in the Portuguese colonies, attempting to bring these under, respectively, American and Soviet influence (see Portuguese Colonial War). The intransigence of the regime and the desire of many colonial residents to remain under Portuguese rule led to a delayed decolonisation process, in the case of Angola and Mozambique, nearly 20 years.

Unlike other European colonial powers, Portugal had long-standing and close ties to its African colonies. In the view of many Portuguese, a colonial empire was necessary to continued national power and influence. In contrast to Britain and France, Portuguese colonial settlers had extensively inter-married and assimilated within the colony over a period of 400 years. Despite objections in world forums such as the United Nations, Portugal had long maintained that its African colonies were an integral part of Portugal, and felt obliged to militarily defend them against Communist-inspired armed groups, particularly after India's unilateral and forcible annexation of Portuguese enclaves Goa, Daman and Diu, in 1961.

Independence movements in the African colonies — Mozambique, Angola, Guinea-Bissau, São Tomé and Príncipe, and Cape Verde — all eventually manifested some form of armed guerilla resistance. Except in Portuguese Guinea, these armed guerilla forces were easily contained by Portuguese counterinsurgency forces and home defense militia, despite various arms embargoes against Portugal. Nevertheless, the various conflicts forced the Salazar and subsequent Caetano regimes to spend more of the country's budget on colonial administration and military expenditures, and Portugal soon found itself increasingly isolated from the rest of the world. After Caetano succeeded to the presidency, colonial troubles became a major cause of dissent and a focus for anti-government forces in Portuguese society.

Economically, the regime maintained a policy of corporatism that resulted in the placement of a big part of the Portuguese economy in the hands of a few industrial groups. However, the economy was growing strongly, especially after the late 1950s, and Portugal co-founded EFTA, the OECD and NATO. The administration of its African colonies was costing the Portuguese state an increasing percentage of its annual budget, and this contributed to the impoverishment of the Portuguese economy, as money was diverted from infrastructural investments in the home country. Until the 1960s the country remained relatively poor, which stimulated emigration after WWII to fast-growing, labour scarce west European countries. To many outsiders, the Portuguese government was ageing, seemingly unresponsive to a world that was undergoing great cultural and intellectual change.
[SOURCE: WIKIPEDIA]

Pramoedya Ananta Toer


Foi daqueles escritores que descobri por acaso e foi já há alguns anos. A vida a Oriente leva-nos à procura de novas referências, literárias também, mas não foi o caso. Encontrei-me com ele numa tarde (na altura recusava-me a viver de manhã) e ainda me lembro da estante onde estava, do espaço que ocupava. Levei-o para casa mas já lá não está. Um livro que se distingue mais pelo facto de as palavras poderem ser tanta dor, morte e prisão, e tanta liberdade e vida, do que propriamente pelo génio do autor.
Dele recordo que a vida sem escrita é igual a uma vida de fome, que a vida sem palavras num papel é a pior prisão de todas. Em Buru, havia proibições em relação à escrita. Mas nem isso o impediu de escrever. Lido e relido, passou para outras mãos, na altura presas, que os livros também são formas de abrir janelas. E foi assim que guardei o Solilóquio Mudo. Depois veio a Fabulosa Jacarta, noutro estilo, igualmente forte nas palavras. Esta semana encontrei numa outra estante A Rapariga de Java, com quem partilho o espaço.
Dizem há já alguns anos ser o mais forte candidato asiático ao Nobel. Nos últimos anos foi acusado de ter posições pouco lineares. Morreu no ano passado.
Há dias em que não quero mesmo saber da política que pode estar escondida nas palavras.

Porque quem as gaitinhas dobram

Por entre a vasta planície de títulos da editora Campo das Letras podemos encontrar, na área da literatura infantil, uma colecção denominada NOVOS ILUSTRADORES. Aqui são apresentados os novos talentos da ilustração em Portugal que se juntam, numa mistura híbrida, mas ao mesmo tempo homogénea, à tradição do conto português. São oito os títulos publicados até agora. "A Gaitinha Mágica" de José Viale Moutinho é um deles, o ilustrador neste exemplo puro de criatividade, tanto na adaptação escrita como no traço, é Pedro Nora.

Contista por excelência, José Viale Moutinho, trabalha a palavra com a memória, nesse encanto que sobra do tempo e que se reveste de ritmo e de humor. O necessário para atrair a imaginação fértil de uma criança. Nome do jornalismo, que ao longo de muitos anos exerceu no Diário de Notícias, tem um incontornável trabalho literário já referenciado por outras distinções, nomeadamente o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores e mais o Prémio Edmundo de Bettencourt, atribuído ao livro de contos "Já os Galos Pretos Cantam" (Caminho, 2003), galardão promovido pela Câmara do Funchal, cidade onde o escritor e jornalista nasceu.
Investigador de temas históricos e de alguns dos maiores vultos das letras portuguesas, ficcionista e poeta com uma linha estética próxima do «realismo mágico», José Viale Moutinho aparece em varíadissimas edições no domínio da literatura infanto-juvenil. Mas também em outras áreas literárias que são exemplo o volume "Camilo Castelo Branco: Memórias Fotobiográficas", "Os Melhores Contos Portugueses do Século XIX. Na forja estão sempre mais romances e novelas.

Terminada a gaitinha, levou-a aos lábios e soprou. Saiu um som esquisito, pelo que ele teve de lhe dar mais uns golpes. Levou-a de novo aos lábios e então soou uma melodia que ele logo viu não ser apenas obra sua. Ali havia magia! A música saía-lhe tão linda e animada da gaitinha que acabava de fazer, que ele a tirou da boca e pôs-se a olhar para ela.
E olhou também para o lado, ficando a pensar que as duas canas e a cestinha, que levara para a pesca, não estavam no mesmo sítio. Era uma cana para a direita, outra para a esquerda e a cestinha dos peixes quase ao pé da água. E não vira quem fizera aquilo, tão entretido o Pedro estava com a sua gaitinha. Foi arrumar tudo e de novo pôs -se a tocar.
Então viu.
O que viu?
Pois que ao som da música, as canas, a cestinha, mesmo as folhas das árvores, tudo o que não estava agarrado à terra, se punha a bailar por causa da música!
- Ora esta! Então, esta gaitinha...
Este livro, que se preparar para voar para Macau, é recomendado pela Meloteca - O Sítio da Música e das Artes em "Sugestões de Planificação para a Música no 1º ciclo". Esta colecção da Campo das Letras é um espaço onde novos ilustradores editam o seu trabalho.

Sobre o outro autor:
Pedro Nora nasceu em 1977, em Vila Nova de Gaia. É licenciado em Design de Comunicação-Arte Gráfica pela da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP). Em 1999, foi convidado a representar o departamento de Design da FBAUP, no Workshop de Arte Pública Sites & Situations, na Willem de Kooning Academy Rotterdam, em Roterdão. É autor dos livros "Metamorfose" de Franz Kafka (Íman Edições, 2001); "Chapéus e Sombras – livro de esboços" (Mundo Fantasma, 2004) e co-autor com David Soares da edição francesa do livro "Mr. Burroughs" (Fréon + Amok – Frmok, França, 2003). Tem publicado ilustrações em diversas revistas de banda desenhada e é, desde 2002, co-editor da revista semestral especializada em BD, "Satélite Internacional". Trabalha, desde 2003, na agência Bmais Comunicação.

"A Gaitinha Mágica" de José Viale Moutinho e Pedro Nora
Campo das Letras • ISBN: 9726107326 • Ano de Edição: 2003

Pourquoi parles-tu en français?

Parce que les plus bel mots sont écrits en français...

Conte de fées

Il était un grand nombre de fois
Un homme qui aimait une femme
Il était un grand nombre de fois
Une femme qui aimait un homme
Il était un grand nombre de fois
Une femme et un homme
Qui n'aimaient pas celui et celle qui les aimaient

Il était une fois
Une seule fois peut-être
Une femme et un homme qui s'aimaient.

Robert Desnos
Le poète libre...

The Dispositions of the Linen (one)

And there she was.
- Kiss me, darling! Vite! Vite! Vite!!
- Hey! Why are you talking in French?
- Because I'm in a hurry!

No campo das letras

Os japoneses têm um provérbio: o sujeito começa a envelhecer quando não quer mais aprender. Meu provérbio é que o sujeito começa a envelhecer quando não quer mais amar, quando perde o entusiasmo pela comunhão sexual, não tem mais coragem de enfrentar a incandescência, os refinamentos eróticos e também as desilusões, aflições e a logística exasperante da aventura amorosa. É preciso, como afirma Don Juan do Molière, manter um olhar atento para os méritos de todas as mulheres, render homenagem a cada uma e pagar a cada uma o tributo a que nos obriga a natureza.
Rubem Fonseca em "Diário de Um Fescenino"

Transmuted in your heart


"Introduction to Mark" by Nick Cave

O Diccionário

Há aquela luz que de vez em quando se vê nos filmes antigos. Uma lâmpada pendurada por um fio, que abana quando uma porta se abre e entra uma corrente de ar. Esse tipo de luz faz barulho, uma espécie de bzzz, como se existissem dentro dela centenas de pequenas moscas. É isso que tenho por cima de mim.
É de noite. E eu levanto a voz.
- Ouve lá, esta palavra entra no dicionário ou não? - É preciso gritar. Estamos nisto há que horas, é sempre o mesmo. Cada ano que passa, acabamos sempre por vir aqui parar e, como nínguém consegue decidir patavina, nunca saímos daqui a tempo de conseguir dar uma volta e ver ainda o brilho da noite. É terrível sair daqui de dia. Levamos sempre as moscas atrás que nos acompanham até ao fim das horas diurnas. Até conseguir ir para a cama. Pode alguém acreditar que chego a sonhar com elas? Às vezes penso que o que está dentro desta lâmpada a fazer bzzz são apenas os restos do meu cérebro que ainda funcionam.
Os filmes não precisam de ser bem antigos. Esse cinema moderno - de hoje! - também tem a mania de recalcar esses ambientes manhosos, de outrora.
- Estás a ouvir? - Como é que ele se chama? Às vezes esqueço-me. Estou com ele há tanto tempo que deixo de saber que nome tem. Jonas. É para aí Jonas, ou assim.
- Jonas!!? Foda-se... - foi à casa-de-banho, o Jonas, saiu daqui há duas horas, levou um calhamaço de uma dessas novas editoras que andam para aí. Cabrão.
Letra T, é onde vamos, ainda faltam as outras todas. Parece pouco, eu sei, se olharmos para tantas que já passaram. Mas estou tão farto disto que cada palavra que escrevo me fere toda a aptidão do gosto e do sentir. Torno-me um maneta qualquer, isto porque já não consigo encontrar os termos certos para me explicar. Por isso digo maneta. Podia também dizer qualquer outra coisa parecida com a palavra "bronco", mas agora não estou para aí virado.
Lá está de novo a lâmpada a abanar. E o estrondo da porta que se cola sempre ao seu rasto.
- Jonas?? Mas quem é que te disse que eu me chamava Jonas? Tu tens com cada uma. Leonardo!!
Ok! Leonardo. Que seja.
Sei lá se é Leonardo ou outro nome qualquer, sei lá se o gajo me está a enganar.
- Trocadilho... - digo-lhe eu, meio queimado com o bronze que esta exposição eléctrica me está a dar. - "Trocadilho", entra no dicionário ou não? É isso que quero saber, estou a chamar-te há meia hora!
- Trocadilho?? - e coça a cabeça... bzzz.
Já sei no que isto vai dar. Porra, são quase cinco da manhã e se vejo mais uma vez a luz do dia transformo-me em Lobisomem, ou lá o que é.
Aquela última frase do bronze não estava muito clara, eu sei. Queria dizer que a luz eléctrica me bronzeava o rosto, por estar aqui há tanto tempo. Talvez mais tarde volte de novo a esta página e dê a volta ao texto. O que eu queria era apenas fazer um trocadilho. Depois disto tudo ninguém pode levar a mal. Mas deixo aqui as minhas desculpas, ou condolências, pelo sucedido. Nunca se sabe.
Sorry la!

The Carny Nation (I) *

The Carnation Revolution (Portuguese, 'Revolução dos Cravos') was an almost bloodless, leftist, military-led coup d'état, started on April 25, 1974, in Lisbon, Portugal, that effectively changed the Portuguese regime from an authoritarian dictatorship to a liberal democracy after two years of a transitional period known as PREC ('Processo Revolucionário Em Curso'), characterized by social turmoil and power dispute between left and right wing political forces. Although government forces killed four people before surrendering, the revolution was unusual in that the revolutionaries did not use direct violence to achieve their goals. The population, holding red carnations ('cravos' in Portuguese), convinced the regime soldiers not to resist. The soldiers readily swapped their bullets for flowers. It was the end of the Estado Novo, the longest authoritarian regime in Western Europe (but not the last to end; Francisco Franco ruled Spain until his death in 1975). The revolution is often simply referred to, as its celebratory holiday, 'o dia vinte e cinco de Abril' (the 25th of April).
[SOURCE: WIKIPEDIA]

* title half-taken from Nick Cave's song called 'The Carny' (a sad story about a traveling carnival, a freak-show troupe, and a deadly horse) that makes a pun with the word Nation. It starts like this: «And no-one saw the carny go / And the weeks flew by / Until they moved on the show / Leaving his caravan behind.»
Nothing to do with 'carnation', though. Maybe resembling the remains, and the aims, of the 'portuguese revolution' nowadays, somehow, and, further more, this case could be applied in a symbolic way to the description of how the Past - the moribund portuguese regime: The "Dog-boy, Atlas, Half-man, The Geeks, the Hired Hands" and, of course, "the dwarves" - went away, down the well, with no glory. But I'm not sure. ;-)

Anyway it ends like this: «Until nothing was left, nothing at all / Except the body of sorrow / That rose in time / To float upon the surface of the eaten soil.» «And a murder of crows did circle round /First one, then the others flapping blackly down.» «And the carny's van still sat upon the edge / Tilting slowly as the firm ground turned to sludge.» «And the rain it hammered down.» «And no-one saw the carny go / I say it's funny how things go.»
This beauty fool and dark music was on the Wim Wender's movie "Der Himmel über Berlin" where I first saw Solveig Dommartin and heard this song, that can be dug down here.
Strange how all of this came to my mind... If there's any connection upon it, please let me know.


THANK YOU VERY MUCH FOR BEING THERE!

For humanitary reasons

«First comes the photo, and then morality.»

«If your pictures aren’t good, you haven’t been close enough.»
ROBERT LEBECK

Self-conscious and impolite, that’s the way press photographers talk about their difficult trade. They are working at the front line, not only in times of war. They condense contemporary history’s events and everyday life situations, they tell stories in pictures which are meant to state what is essential on just a few pages.

Photojournalism has existed for 150 years. Even though its artistic ambitions have to play a secondary role, it is one of the most impressive chapters in the history of photography.

What readers throw away after a short while, an observant contemporary has picked up and kept: photojournalist Robert Lebeck owns an important collection of magazines which documents the history of photojournalism. The illustrated broadsheet of famous photo reports extends from new railway stations in the 19th century to legendary photo series on the war in Vietnam, from Roger Fenton to Robert Capa, from the Berliner Illustrirte Zeitung to USSR in Construction, from Life and Vu to Stern magazine.

"Kiosk - A History of Photojournalism" by Robert Lebeck, Bodo von Dewitz
STEIDL • ISBN: 388243791X • HARDCOVER

As palavras do Homem não são nada!

O espaço no tempo é ainda demasiado curto para que se comece a escrever a História três minutos depois de ter acontecido...
Repórter, a emitir em directo, no relato da Revolução dos Cravos.
[AQUI os acontecimentos do Quartel do Carmo no dia 25 de Abril de 1974 / via IUTUBÍU]

Maior que o pensamento

1. Porque se fez o 25 de Abril?

Alertado pela possibilidade de um movimento conspirativo estar em curso na sua Região Militar, o general Moreira da Câmara interrompe abruptamente as suas férias estivais e regressa a Évora. A fuga de informação deve-se a uma improvidência do capitão Dinis de Almeida que, no decurso dos preparativos do evento, no intuito de adquirir carne a melhor preço, se dirige ao RAL 3 em Évora, dando a conhecer ao seu comandante, major Gaspar, que está a preparar uma «confraternização» de militares num monte situado a poucos quilómetros da cidade.
O sigilo fora, até então, a palavra de ordem. Apenas um grupo muito restrito tem conhecimento do local exacto do evento. Os contactos efectuados nos primeiros dias de Setembro em diferentes pontos do país garantiam a presença de, pelo menos, uma centena de oficiais que, segundo indicação recebida, deveriam acorrer a dois locais – o Templo de Diana e o campo de aviação de Évora – a fim de receber instruções e indicações mais precisas.
Ostensivamente camuflados sob óculos escuros e trajes civis, o general Moreira da Câmara e o brigadeiro Carrilho (segundo-comandante da RME), anotam as matrículas dos carros que acorrem ao largo do Templo de Diana. O capitão Vasco Lourenço, que afincadamente distribuía croquis com a localização do monte, aborda-os acintosamente convidando-os a participar no encontro. A iniciativa inviabiliza as intenções do general que, apanhado de surpresa, recusa o convite. A operação revela-se um sucesso e, em breve, o Monte Sobral será palco de um momento histórico. Esta reunião de 136 capitães, tenentes e alferes do Exército e da Força Aérea, realizada a 9 de Setembro de 1973, assinala, simbolicamente, o nascimento do Movimento dos Capitães e o início da conspiração. [...]

É assim por dentro esta nova edição sobre o 25 de Abril. O que levou a que naquele dia se libertasse todo um país e o seu regime estrangulado que dominava o país há mais de quatro décadas. É a história dos Capitães e todo seu movimento contado ao pormenor, os detalhes, as reuniões secretas no meio da noite, o levantar de uma voz. O grito final. O dia aberto, claro e sem nuvens. A tona da água e o seu transbordo.
Tratou-se de uma revolução em nome da liberdade? Existia um grau de politização entre os revoltosos? Até que ponto não foram as questões corporativas centrais na mobilização e primeiros passos do movimento dos Capitães?
Porque é que o primeiro presidente da República da transição foi António de Spínola e não Francisco da Costa Gomes como planeado pelos Capitães? Foram os partidos coagidos a assinar a Plataforma de Acordo Constitucional com o MFA? A 25 de Novembro os páras ocupam a base aérea de Tancos: houve ou não uma tentativa de golpe de Estado? Quais os seus autores? Quem deu a ordem de saída aos páras?

Passados mais de 30 anos sobre estes episódios, só agora se começam a revelar as verdades que permitem desmascarar os mitos que fazem parte da história do 25 de Abril. Neste livro, a historiadora Maria Inácia Rezola traz-nos uma visão geral da Revolução, analisando os seus episódios mais polémicos, sem medo de desconstruir mitos e ideias formadas sobre este episódio fundamental do século XX português.
É uma edição da Esfera dos Livros, agora que se dobram trinta e três anos sobre esse dia de viragem. As primeiras páginas podem ser encontradas aqui.

"25 de Abril - Mitos de uma Revolução" por Maria Inácia Rezola
Esfera dos Livros • Colecção: História Séc. XX • ISBN: 9789896260545

Uma questão de economia

Cena filmada, off the record, entre dois funcionários dos Serviços de Economia.
- Espera, estás a dizer o quê? - Era um homem que falava.
- Isso que acabaste de ouvir, isso mesmo, sem tirar nem pôr... - Esta senhora tinha saias. E não era má de todo.
- Mas porquê, posso saber porquê?
- Se queres saber, sempre quis experimentar, sempre me apeteceu. É uma fantasia de longo curso. - Sim, não era má de todo. Olhando para ela uma pessoa quase que se perdia. Ficando sem saber onde estava.
- Mas ouve lá mesmo agora saiu este Código de Integridade, não podias ter escolhido outra altura? - O homem estava um pouco mal vestido. Despenteado, até.
- Sim, quero lá saber. Aliás, quero, porque me irrita, mas não tem nada a ver para o caso. É mera coincidência. É mais uma rampa de lançamento.
- E o que é que eles vão dizer? - Lá fora estava um daqueles dias cinzentos, cheio de humidade no ar. O costume.
- Para além disso, nesse código que falas, que por acaso tenho em cima da minha secretária, não diz que uma pessoa não se pode prostituir. - E com isto encostou-se um pouco à parede, mas só porque estava um pouco cansada.
- Mas diz para "não solicitar prostitutas"! Isso é bem claro. Para "não dissipares o teu dinheiro". Para formares "bons hábitos de vida". Não me digas que a prostituição é um bom hábito de vida.- Não dava para perceber se o homem estava realmente interessado no assunto em profundidade ou se estava só a meter conversa.
- Queres saber? Sempre quis, um dia ou outro, ser uma Puta. Sim, Puta com P grande.
- Uma Senhora Puta? - perguntou ele. Estava de boca aberta.
- Isso. Ou tanto faz, também não importa muito.- Abanou de leve o cabelo, suave, apetecia passar as mãos por ele. E tentar tocar qualquer coisa, uma valsa, ou assim.
- Mas queres ir para a cama com desconhecidos, é? - Ele não sabia bem em que ponto estava, se eram realmente conhecidos ou desconhecidos. Estranhos.
- Não é isso, não te sei explicar. Primeiro apetece-me brincar. Brincar comigo. Estar ali à espera do que vier, que não sei bem o que é. É qualquer coisa. Quero experimentar. E para além disso sempre tenho uma companhia, sempre posso passar um bom bocado. Mesmo que seja mau. Mesmo que não goste. Tu não percebes isto, são coisas de mulheres... - Faltavam dois minutos para a hora de almoço. O homem começava a ficar impaciente.
- Se queres companhia, eu posso fazer-te companhia. Posso ir contigo até onde tu quiseres. Não precisas de te prostituir. Garanto-te que podemos passar um bom bocado. Tenho a certeza... - Não tinha bem a certeza, realmente, a que se referia. Antes tinha tido três ou quatro encontros amorosos. Sem sabor. Ou mais, já não se lembrava muito bem. Porque lhe pareciam todos o mesmo. Um bocado à bruta. E prostitutas tinha conhecido várias. Umas eram massagistas disfarçadas, as outras pediam-lhe sempre dinheiro, mais cedo ou mais tarde.
- Não digo que não. Que não possa ir contigo a qualquer lado. Até posso. Se quiseres até podemos ir já, que estou com um certo calor. Preciso de mudar de roupa. E enquanto mudo de roupa posso esperar um bocado, podes ficar a ver. E podemos, sim, fazer qualquer coisa. - Pegou na mala e começou a andar em direcção ao corredor onde estava uma fila de pessoas à espera para picar o cartão, ou enfiar o dedo no novo reconhecedor de impressões digitais, que ainda estava em fase de testes.
- Hmmm... Sim... Espera, hmmm, claro, vamos, onde? - Um pingo de suor caía-lhe da testa. Tinha um pequeno bigode. Lembrou-se também que não tomava banho há dois dias. Normalmente, quando ia à casa-de-banho e fazia as suas necessidades - de pé! - não conseguia ver bem o que estava a fazer. Tinha uma barriga de seis ou sete meses, este homem.
- Há muito que não experimento um barrigudo. Vamos lá, só temos uma hora e meia.- Na fila estavam quinze pessoas, de várias idades e etnias.
- Não sabia que eras assim, há quanto tempo estou aqui e eu sem dar por isso, que eras assim... - As suas mãos estavam húmidas. Um certo pavor subia-lhe ao de leve pela camisa. Não sabia se era nervoso ou se era o começo de algum prazer acidental. Um delírio.
- Pois, não importa. Mas ouve, vamos já estabelecer aqui uma coisa. Isto não quer dizer nada.
- O quê? É melhor para ti, não é? Assim não precisas de te prostituir. - Parecia-lhe mesmo que tinha dito uma coisa acertada. E por pouco o seu rosto quase que se iluminava.
- Aí é que tu estás enganado, era isso que te queria dizer, no final vais ter de me pagar, e não é pouco!
O homem estava confuso. Ali no último lugar da fila, que começava agora a avançar para a hora de almoço, lembrou-se de novo do Código de Integridade. Uma das recomendações finais era de que caso tivesse dúvidas podia recorrer ao conselho do seu superior hirárquico. Já não tinha bem a certeza do que estava a fazer, se no final do ano lhe iriam renovar o contrato. Mas, pelo sim pelo não, era preciso estar calmo. - Pára de suar! - disse para dentro de si, ao mesmo tempo que olhava por cima do ombro, para o fundo do corredor.
Lá atrás estava o seu Chefe que, um pouco apressado, se preparava para sair pela porta de emergência. Momentos antes, também de relance, tinha visto alguém esgrimir-se pela mesma saída. Tinha quase a certeza que era a rapariga do bar, a Não Sei Quantas.

A break for... a Tango!

For the tanguero, Tango is as much a part of life as eating and sleeping. Not a dance but an obsession. It's the erotic, passionate and melancholic connection of two bodies and two souls.

The nature of lust

James Joyce's "Ulysses" is one of the most important books of the 20th century, but its size and style often scare away would-be readers. And, while his language has been praised for its poetic and varied style, it has also been criticized for its explicit nature. "Ulysses" was first published in serial form in "The Little Review," starting in 1918. Several years later, in 1921, the serialized form of the book was first seized and challenged in a New York court with the result that the court ruled against "The Little Review" and its "Ulysses" excerpt. The controversy surrounding the book did not end with its first complete publication in 1922. This time, instead of simply taking the book to court, New York postal officials seized and burned 500 copies of "Ulysses".

Copies of the book were distributed in bootleg-fashion until 1932, when Customs once again seized a copy of "Ulysses," which was being sent to Random House. Since the publishing house was intending to publish and distribute copies of the book, the press came to the book's defense. In his decision, Judge John M. Woolsey ruled in favor of Random House, stating that the book was "not pornographic," and that "Joyce has attempted - it seems to me, with astonishing success - to show how the stream of consciousness with its ever-shifting kaleidoscopic impressions carries..." Judge Woolsey further said that Joyce "shows how each of these impressions affects the life and behavior of the character which he is describing." Judge Woolsey's decision was upheld by the circuit court of appeals, with Judge Austus Hand explaining the decision: "We think 'Ulysses' is a book of originality and sincerity of treatment, ant that it has not the effect of promoting lust." The case was not appealed to the Supreme Court... and "Ulysses" could finally be obtained in the United States by legal means.Two years later, in 1936, the novel was finally legalized in the United Kingdom. But, what is the book about?
[READ ON...] [TEXT BY Esther Lombardi]

Invitation au voyage




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