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FELIZ 2008

Uma leitura, hoje à noite, em Lisboa


A tua pele é da cor do interior das igrejas

Perry Blake é um dos maiores cantores e compositores contemporâneos. Dizemo-lo porque o sabemos verdade, porque em cada uma das suas lindas canções de amor há um olhar novo sobre a música popular, um reescrever de formas e de parecenças que nos parecem atirar para um mundo absolutamente único. Desde o seu homónimo albúm que se instituiu na música popular com um particular culto de uma imensa minoria em terras lusas e no mundo. Regressa em 2005, com mais um fabuloso conjunto de canções. Pelo meio deixou-nos à beira da mais profunda melancolia com Still Life, redimensionou as canções dos primeiros discos num brilhante registo ao vivo, fez-nos felizes com o ritmo up beat do magistral California e revisitou a matéria dada com Songs For Someone.
Neste livro lêem-se versos quer em português, quer em inglês, cantando cada um deles e esperando que novas páginas cheguem para que um dia se aumentem ainda mais These Pretty Love Songs.

Perry Blake faz parte da secção de Música em Palavras presente no escaparate da Bloom. De lá os ecos de melodias belas soam todos os dias. Como o mistério que envolve a presença dos pássaros:

Voltar para casa
Vou voltar para casa

Não te escondas mais
Não vivas o sonho dos outros
Não mintas mais
Não vivas o sonho dos outros
Eu não quero morrer
A viver o sonho dos outros

Voltar para casa
Vou voltar para casa

Não tentes
Viver no sonho dos outros
Não queiras morrer
A viver o sonho dos outros

Voltar para casa
Vou voltar para casa

de "Canções Para Alguém"
These Pretty Love Songs / Estas Lindas Canções de Amor, de Perry Blake
EDIÇÕES QUASI - VILA NOVA DE FAMALICÃO - 2005

Dos passados e de outras coisas

Existem aqueles livros de que a gente gosta sem uma razão muito objectiva. São bons e pronto. Vão de encontro às nossas necessidades literárias. As letras encaixam-se naturalmente no espaço mental que temos para elas e depois ficam por ali, a fazerem-nos pensar. São livros de que se fala com muito entusiasmo mas sem grandes considerações teóricas, porque são tão naturais como todas as outras coisas sobre as quais teorizar não é imperativo. Foi assim o meu “O Vendedor de Passados", que comprei lá e li no avião para cá, com uma osga literária por companhia num voo a roçar a eternidade.

Ontem, soube-se que José Eduardo Agualusa foi distinguido com o XII Prémio de Ficção Estrangeira, entregue pela National Portrait Gallery de Londres, pelo livro onde os passados são à escolha do freguês e a narração é feita por um ser de pequenas dimensões mas de grande alma, que habita nas paredes de uma África que salta nas frases e nos cheiros. A não perder.

Segundo o contador ali da coluna da direita, já passaram por aqui quase três mil visitas. E quase todas elas silenciosas. Hoje, dia de Liberdade (de se escrever ou de ficar com as palavras só para nós), deixamos um desafio: peguem na caneta! Escrevam-nos! Sobre qualquer coisa, tudo ou nada, se for caso disso! Digam de vossa justiça – afinal, a Bloomlândia existe (também) pelas palavras que se escrevem.

We had almost three thousand visitors here, according to that counter on the right side. Most of them are really quiet. Today, a day to be Free (freedom of writing or keeping the words for ourselves), we challenge you: use your pen! Write us! About anything, about everything or nothing! Tell us what you think – Bloomland (also) exists because of the words that we all write.

(Título roubado ao Sérgio Godinho, a quem roubaria as frases todas de bom grado.)

O 25 sem ter 45

Eu não estava em lado algum no 25 de Abril e não me arrependo nada de ainda não ter nascido naquela altura. Foi uns anos depois (não muitos), os Verões já não eram tão quentes, havia iludidos e desiludidos com os cravos, a maioria já alinhava no “consolida, filho, consolida” (obrigada Zé Mário).

Cresci sem nunca ter percebido muito bem qual tinha sido a confusão em que a minha mãe se tinha metido em 58, era então ela uma adolescente de espírito rebelde. O tio M. de olhos verdes e voz suave nunca quis falar daquela Angola que eu conheci pelas fotografias a preto e branco que enviava à minha mãe e que estavam guardadas numa gaveta que já não existe, imagens com dedicatórias cheias de mentiras piedosas, em que a única verdade eram as saudades e os beijos. Confesso que nunca lhe perguntei. O tio F. nunca quis falar da Guiné mas sei que ainda hoje sonha que não está em casa. Cresci sem nunca ter percebido muito bem o que era aquela história do isqueiro e da tal declaração para se ingressar na função pública. Nunca se falou muito do primo V. que desapareceu e não foi numa manhã de nevoeiro ou do tio-avô de hábitos suspeitos com quem não se trocava mais do que um bom dia-boa tarde, não fosse o diabo tecê-las, que acabou por morrer de velho, como o seguro, e ninguém foi ao funeral.

Depois vieram os amigos mais velhos, os que viveram fora do país porque era a única opção, os que não chegaram a poder escolher. Antes disso, já tinha chegado o manual de História do liceu, quando a efeméride ainda era abordada ao de leve. Depois vieram os documentários e os filmes e os depoimentos e os livros. E as músicas, tantas músicas.

Num jornal daqui, li hoje que há gente que acha que aqueles que têm hoje menos de 45 anos não sabem nada sobre o que era a vida antes do 25 de Abril. (Acredito que alguns com mais de 45 também não saibam, ou então já se tenham esquecido, afinal até já passaram uns anitos). Nada, mesmo nada, não será o caso – há sempre as histórias de família ainda hoje contadas em sussurro, as fotografias de África, os fantasmas, as memórias partilhadas a custo por muitos e com mais facilidade por outros. É provável que se saiba pouco, sim. Mas mais importante do que saber números e factos históricos, é saber sentir as pessoas. Não sei como é que isso se ensina ou se aprende. Também é verdade que a História teria outro valor se o presente fosse ligeiramente mais coerente.

É verdade que os que têm a minha idade olham para a liberdade como um dado adquirido, aquela liberdade de poder escrever aqui e hoje o que me apetece. Por mais livros (e eu quero sempre mais) que se guardem na estante depois de lidos e anotados, dificilmente poderia ser de outra forma, para quem ainda não estava cá. Poderia? Não. Mas isto não significa que eu – e outros com menos de 45 anos – não sintam 33, hoje, 25 de Abril que não é de 74, mas de outro ano qualquer.

Nada disto interessa. Ou tudo interessa, não sei. O que me apetece mesmo hoje é fazer um 25 de Abril em casa e na minha rua, apetece-me que todos tenham os seus 25 de Abris de fazer por casa, pelo emprego, pelas ruas onde moram. Que as pessoas não tenham medo de falar. O meu 25 de Abril é isto. Mais do que a História, mais do que histórias, o meu 25 de Abril foi ter crescido a aprender que posso falar, que posso dizer, todos os dias, no dia 26 e no dia 27 e em Maio e em Agosto e Novembro e todos os dias e todos os anos. Mesmo que seja inoportuno, politicamente incorrecto. O que me apetece mesmo hoje é que com mais ou menos de 45 anos não se fale só do 25 de Abril por ser dia 25 de Abril. Quero um 25 de Abril todos os dias. Não o de 74. O de hoje. Quero um 25 de Abril amanhã. Dizer, ouvir. Já nos ensinaram que se pode falar? Já nos ensinaram que se pode ouvir?
Sim, sim,“diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.” (Obrigada Zé Mário).

(Para o meu amigo H.B., que me ensinou que posso ser livre todos os dias.)

Poesia e mintoi


"Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nus e suados."

Eugénio de Andrade

Fotografia roubada a Lois Greenfield

Literatura obrigatória (1)



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