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Suddenly we're gone. We didn't announce it, didn't tell anyone, it just happened. But we're not gone for good. We're building a new spot. Ring Joid already found a new home here. We'll coming next. But this space will not die. Stay tuned!

Na verdade

Gostava de ficar sempre acordado!

O que vinha aqui fazer?

Não sei. Liguei a música, o som veio lá do fundo, num crescendo, tomando todos os sentidos. As linhas. O pensar.
E esqueci-me.
Fechei os olhos, à espera. Fui ficando. Uma frase. Outra frase. O mínimo para um pequena estrada. Um parágrafo. Mas que estrada me trazia aqui?
Vejo sempre esse caminho. Sei-o de memória: É quase fim do dia. Uma recta sem fim, o alcatrão já esbadito, cheio de tempo e de rodas. Um céu sem cor, ou talvez cheio dela. E a tarde a esvair-se. Um vermelho ali, por entre umas nuvens azuis e o sol a deixar todo o seu medo para trás ao ver a curva no fio do horizonte. Invisível.
É nessa estrada que eu vou ficar. Ao lado, no campo, a um nível mais baixo, vou deixar estar aí tudo o que faz o meu corpo. A terra mole e húmida, com os cheiros todos. O cheiro dos animais que passaram. E aqueles sons dos pássaros.
A estrada ainda molhada, da chuva que caiu e que deixou o céu revoltado. E a dor do ventre dos pneus que me diz o que estou aqui a fazer.
O que estou aqui a fazer?

Língua portuguesa

Não vivo na Ásia. Quero pensar que estou apenas de passagem. Como todos. Mas eu vivo mais para cima, mais a Norte. E o norte sabe sempre tão bem.
- És portuguesa? - perguntei-lhe.
Ela não respondeu.
- Não és portuguesa, o que podes ser? Do you speak english? - quis continuar.
O silêncio manteve-se. Mas quando virou a página do livro que estava a ler, os seus olhos perderam-se por um instante, nos meus. E sorriu, leve, já sem olhar.
E sorriu de novo, na página seguinte. Com mais intensidade. Eu ali a um pouco de distância, dois passos away. Não era chinesa, nem japonesa, nem tailandesa, isso podia ver-se pela sua cara. Podia ser imensa coisa.
Em todas as páginas, debruçava o seu tempo no meu, cada vez com menos pressa.
O livro era em português, todavia. Mas isso não queria dizer nada. Podia coleccionar letras, a fugirem das palavras que não compreendia. Ler não quer dizer nada, se não se ouve. E eu não estava a ouvir um sopro que fosse. E estava tanto vento lá fora.
As páginas andavam para trás e para a frente. Desnorteadas. Eu sorria. Desde o princípio de mim, que eu sorrio.
- "Lês?" - disse ela. Imaginei eu.
- "Leio!"
- "Podes ler-me uma história?" - E eu li-lhe todas as histórias.
Nessa altura, sem imaginar, estávamos de mão dada. Numa só. Ela ao meu lado. A caminharmos na rua. Um sol bonito. Um céu refrescante.
Não falámos, porque eu não sei falar. E também não sei dizer. Eu sei apenas sorrir. E olhar.
E o que me pareceu foi que ela também não fazia mais do que isso. E quando o percebi, beijei-a.
E beijei-a de novo.
E as nossas línguas conheceram-se, finalmente, numa das duas bocas.
A minha sei que é portuguesa. A dela não sei, porque, na verdade, não importa. Se não é preciso falar.

The ruler #1 [very very first draft]

They passed me by this questionnaire and I took up my pen and read it.
I should just answer the truth and nothing else. That was stated on a small red footnote. If not I would not get the job. I was applying at the local circus troupe for this vacancy of a lion tamer. I didn't have any experience with ferocious animals, but that was not a must, you could be just anyone, man or woman. Anyway, the only thing I had were some cats at home. But the question was not about that. I mean "the question" because there was only one on the paper.
"If you could choose, what would be your way of life?"
Well, I scratched my head a bit bringing on stage all my ancestral desires and wishes. Those things you dream when you're young and once you cross your teens you completely forget. Suddenly they were all there on the same table watching my reaction. So I started.
"If I could choose I would be..."
"A millionaire?", I thought. Yes, a millionaire would be a good idea. I would be just a millionaire and that's all. But then, on second thought, that is a very common answer and like that I would never tame the lions. I never heard about any millionaire taming some savage creatures. Have you?
Of course not. So, apart from being a millionaire I should be something else, at least I would need to mention it, and on the way I should verify all my dilapidated memories and dig deep on it. Telling just the truth and nothing else.
And that's how it ends to be the beginning of this story.
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Regresso em infinito

Baby, está frio lá fora!

Naquela livraria há duas longas prateleiras cheias de livros. Largas centenas, talvez milhares. Estão empilhados ao monte e arrumados sem nexo por alguém que não tem tempo ou destreza para o fazer. Os volumes, não sua maioria cópias contrafeitas na própria casa, umas copiadas à mão outras à máquina, foram ordenados arbitrariamente. E para lá ficaram sem refilar confortados no seu infortúnio. Tanto que eu mendigo por um sítio destes, onde possa comprar livros com esse peso incalculável que vive para além do conteúdo das palavras que lhes vestem as tripas. Obras impressas com paixão, sempre, sem o objectivo necessário do lucro ou a avareza mercantil do negócio puro. Um espaço onde se possa estar a decifrar as páginas que formam estes objectos únicos seguindo as letras calmamente, uma a uma, esperando que as frases se alonguem em linhas e se consagrem num mundo mágico dentro do nosso espírito, por múltiplas páginas; e no final, acariciados dentro das nossas mãos, levá-los para a caixa registadora e sair sem deixar em troca a roupa toda. É raro encontrar um sítio assim. Onde o vender por vender não é de todo o mais importante. Uma livraria é sempre um espaço de culto onde se venera essa unidade central construída pelos habitantes de todos as histórias e pelos seus autores.
Aconteceu-me há uns dias encontrar um espaço assim. Entrei e perdi-me, desaparecendo por completo. Não me lembro em que rua fica, desconheço o seu local exacto, sei que se situa no norte, na fronteira que separa a zona mais antiga da cidade dos bairros de habitação social, uma espécie de Caxemira perdida na floresta de prédios que escondem o beijar do sol. Lá estavam. Duas longas prateleiras que se olham de frente, sem pestanejar, num corredor fundo e mal iluminado. Dir-se-ia luminoso apenas pela luz que bate no pavimento da rua e que rodopia para o interior da loja. Lá dentro o pó dificulta a sua progressão, acabando num indecifrável quadro negro que seria uma parede branca se por acaso existisse o rasgar de uma lâmpada.
Peguei num livro ao acaso, um livro minuciosamente ilustrado à mão, exemplar único, disse-me o guardião daquele templo, que me vigiava os passos. Quando o inquiri acerca do título da obra, uma edição em chinês, respondeu-me que se tratava de uma versão do D. Quixote de Cervantes. Talvez alguém que leu a obra original e fascinado pelo seu enredo debitou das próprias mãos as cores do invólucro feito na memória. Qualquer coisa assim. Teria sido deixado por um viajante que o trocou num casino por quatro fichas de jogo. Abri-o, sem mais. Numa das páginas, envelhecidas com o fundir do tempo, onde três cavaleiros galopam em cima de cavalos agoniados, nenhum deles parecendo o Sancho Pança, dou com um fotografia colada do lado esquerdo. Uma polaroid! Nesse relance, ainda sem a noção imediata do reconhecimento, contemplo uma figura observada por um grupo de camponeses que me olhavam cheios de espanto. Tristes, dei comigo a pensar. Mas o que quase me fez desmaiar foi ver-me representado na clausura plana daquela imagem. Preso e cabisbaixo. Sim, lá estava eu, ao fundo, com um cartaz ao peito onde estava escrito o meu nome. Não quis acreditar no que estava a ver. Tudo aquilo era impossível. Nem um sonho poderia ser.
Constrangido fechei o livro e caminhei para o fim do corredor. Queria pensar mas não era capaz, o ar estava demasiado congestionado. Sentei-me em cima de uma resma de capas duras e onde acabava uma das estantes, à minha frente, estava uma parede de vidro fosco. Um vidro fosco que quase parecia borracha. Ou uma substância pastosa, quase líquida, dependurada na vertical sem se distrair e cair para o chão. Seduzido aproximei-me dela, tocando-lhe. O que aconteceu foi que a minha mão desapareceu lá dentro e quando a retirei, sem esforço, senti-a mais fria. Pousei no chão tudo o que trazia comigo e sem me importar com o velho dono da loja, que me puxava o ombro, dei uma grande salto para a frente.
O que se seguiu não sei bem o que representa. No instante seguinte estava no meio de uma multidão em fúria. Rapazes e raparigas de dentes mal lavados brandiam nos punhos pequenos livros vermelhos. O Livro Vermelho do Camarada Mau, reconheci prontamente. Não sei que terra era aquela, parecia-me tudo muito longe, frio e seco. Um Inverno que me saltou para cima sem qualquer aviso prévio. O meu relógio marcava a mesma hora, dez da manhã. Talvez aquilo fosse uma escola, não dava bem para ver, a profusão humana em delírio, uma matilha imberbe que saltava e gritava esgares sem nexo, ocupava todo o horizonte. Ao meu lado um grupo de homens acorrentados e deitados no chão, quatro ou cinco, comiam páginas de livros. Não era bem comer já que em frente a eles umas enormes espátulas empurravam todo aquele degusto matinal. Mais atrás o crepitar de uma enorme fogueira, onde ardia um incontável número de livros, ocupava o resto da paisagem.
A primeira coisa que me fizeram foi empurrar-me para o meio de um grupo de homens assustados, ordenando de seguida, com ajuda de uma vareta que me vincou o pescoço, que me despisse. Falavam a minha língua porque os percebia, mas tudo o que ouvia era um sibilar de sons desconhecidos. Nem tive tempo de formular qualquer tom de pânico, porque nada daquilo cabia dentro dos meus sentidos e dos meus pêsames. Obedeci. De longe choveram umas patéticas túnicas que sem pensar vesti de imediato. Os jovens enlouquecidos, com as suas pequenas armas pontiagudas, atiravam a doer sem que alguém lhes pudesse governar os ânimos. Aquilo era um joguinho. E eu compreendia o que eles estavam a fazer, porque já tinha lido sobre isso. Mas tomar parte do evento era estar com os dois pés dentro de um inferno muito particular. Aquele movimento de caça a quem ainda tinha um pensamento válido dentro da cabeça, que por alguma razão estudava, criava, ou pertencia ao mundo das artes ou do ensino – a que denominavam com o pomposo nome de contra-revolucionários – regia-se pelo livre arbítrio sem olhar a uma grande lógica, atingindo apenas o fim. Eram hordas de ultra-radicais insuflados que escovavam da face da nação tudo o que lhes fizesse frente. E o fazer frente era não fazer nada, era existir apenas, era saber, era ter um pensamento que fosse fora da ordem que moldava aquele regulamento transitório. As vítimas destes Guardas Vermelhos eram socadas e chutadas por turbas vociferantes e furiosas. Milhares com destino incerto e em certas cidades desapareciam em massa.
No meu caso, depois de me raparem o cabelo, berraram para que escrevesse o meu nome num painel branco que colocaram no chão. Não me deixaram mais espaço, não me deram mais tempo, pegaram em mim e atiraram-me para o meio da praça, para dentro de um palanque onde me deram uma enciclopédia e um pacote de manteiga. Eu deixei que tudo caísse aos meus pés, derrotado. Uma marcha de cornetas e tambores preparava-se para dar a ordem de partida. Para dar continuidade àquela paródia. Foi nesse instante de espera que apareceu alguém com uma máquina fotográfica. Uma linha de mulheres à minha frente de pronto se compuseram e um homem de vinte e poucos anos, vestido com as minhas roupas, desatou a disparar para todos os lados, eu não queria olhar, fixava apenas o chão. Disparava, disparava e disparava. E as imagens, instantâneas, a caírem para dentro de um saco. Eu, com o nome feito em letras de imprensa pendurado ao peito, numa sequela de toda aquela alucinação, dei de novo com o mesmo plasma líquido à minha frente, desta vez a mexer-se no chão, a troçar de mim. Não pensei duas vezes, debrucei-me no varandim e deixei-me cair até ser engolido por aquela pasta húmida. Soube-me bem.
Vim parar de novo ao chão da livraria repleto de pó. O velho monge, guardião do estabelecimento, morto de riso por causa da minha vestimenta, deu-me a mão e ajudou-me a pôr de pé. “Muito perigoso ali dentro”, disse, “tem monstro feio que come criancinha!”. Peguei no meu nome que ainda tinha ao peito e pendurei-o num prego por cima da parede de vidro. O homem deu-me as minhas coisas e com as duas mãos estendeu-me o livro, “oferta da casa, amigo”. Abri-o e a fotografia continuava lá, lembro-me bem, agora. Os cavaleiros a galope fugiam da revolta da cultura que dentro dos moinhos de La Mancha os perseguiam em estridentes cantorias. D. Quixote nem vê-lo.

NOTA: Este texto é uma paródia sobre a extensão do tempo. Inspirado num livro do Henry James chamado The Sense of the Past em que o protagonista se vê representado numa pintura do século anterior. Daí, fascinado pela tela, consegue transferir-se para a data em que a executaram. Entre as pessoas que encontra, figura necessariamente o pintor e este pinta-o com temor e aversão. Chama-se a isto o regressus in infinitum. A causa é posterior ao efeito, o motivo da viagem é uma consequência da viagem.
Eu queria escrever sobre a Revolução Cultural na China, que se estendeu entre 1966 e 1976, ano em que o "Grande Timoneiro" faleceu. É uma pequena escovadela à memória.
[Foi publicado no HOJE MACAU em Agosto de 2005]

Retratos da vida de um homem armado

- Quando ele ia a passar a porta principal do Hotel, eu que já estava à espera há um bom bocado, tirei a pistola do bolso e dei-lhe um tiro. Dei-lhe um tiro e depois outro. Foram dois tiros. Secos.
- E depois?
- Depois começou a chover. Larguei a arma mais à frente num caixote do lixo e fui para casa. Quando lá cheguei fiz um café e sentei-me na cama a ler. É sempre isso que faço. Leio quando chego a casa.
- Quando é que isso foi?
- 18 de Novembro de 1998.
- Tens a certeza?
- Tenho! Era o dia de anos da minha namorada. Esperei que ela chegasse e fomos jantar fora. Num restaurante lá perto. Ofereci-lhe um anel de diamantes, com o dinheiro que me deram.
- Mas quando ele morreu que fizeste? Que aconteceu?
- Não sei, fiz como se não fosse nada comigo. Virei as costas de imediato e não quis saber de mais nada. Nem sei para que lado ele caiu. Nem me lembro da cara dele. Só depois, de ver nos jornais, por acaso.
- E quem te encomendou o serviço?
- Ninguém!
- Ninguém?
- Sim, ninguém.
- Então?
- Não sei. Não tinha nome. Recebi uma encomenda em casa, sem remetente, com a arma, o dinheiro e o local e a hora onde tudo ia acontecer. Só isso, mais nada. Não foi ninguém.
- Alguém terá sido...
- Talvez...
- Mas é assim?
- É! Pego naquilo tudo, olho para o relógio e se for naquele dia meto-me no autocarro e vou lá. Nessse dia ainda tive tempo para ir à ourivesaria. Gastei o dinheiro todo.
- Quanto era?
- Um milhão e meio...
- ...num anel para a tua miúda...
- Sim, na altura ela era boazinha. Eu gostava dela.
Faz-se uma pausa. Depois continuam.
- Obrigado Senhor Juíz. Não tenho mais nada a perguntar.
E todos se sentam.

Tomo II

Lime & Purple mais uma vez num lugar qualquer, um lugar sem importância, talvez uma Pastelaria.
- Sabes... já não tenho nada a dizer, não tenho paciência, nem para me aprofundar em comentários. Quer dizer com as pessoas com quem raramente lido... já não me apetece fazer nenhum bolo com elas!
- Hmmmm... Tem cuidado para não ficares numa concha, não se pode perder esta abertura ao mundo. Seja quem for... que cada um é como cada qual.
- Mas que mundo, que concha? Que abertura?
- Digo fechado na concha e ao mundo, às pessoas. Acho que é bom não se derrapar e cair no vício. É preciso voltar à tona como a baleia branca, que também serve de metáfora à epifania, ao rasgo de asa. Digo a mim que o que mais temo é a amargura, um certo misantropismo...
- Mas que queres, é que às vezes não me apetece mesmo...
- Nem a mim... mas já te disse isto uma vez, acho que é sempre preciso ultrapassarmo-nos, fugir da natureza... da nossa natureza e estabelecer, digamos, um compromisso.
- É isso às vezes não me apetece... negociar... Deixo-me ir como vou e pronto...
- Mas é assim, aqui onde vivemos, não tem piada, o deixar ir... por isso é preciso tomar uma outra posição.
- Sim, não tem.
- Mas... sei lá...
- Sei lá!
- Outro dia estive na igreja porque me sentia mal fisicamente e estava mal, em desequilíbrio. Fui procurar silêncio, respirar, fazia assim onde vivia antes de vir para esta terra.
- Respira-se mal aqui, o problema é esse... os sentidos respiram mal... enferrujam mais facilmente...
- Não era uma necessidade tanto espiritual... mas de elevação de mim próprio... um pouco de ascese, é isso. Como que procuro viver uma certa ascese e tudo o resto perde a expressão... Não perder de vista o longe, o horizonte, que já não existe como se sabe... como seguir pisando a linha que na praia separa a terra do mar. Isso é o importante.
- Mas isso da ascese nao é pores-te a decorar essa concha?
- Não. É deixar-me lá na concha e no mundo... e sair, ver-me ao longe, observar-me lá em baixo. Mas também é por aí que vamos, a decorar a concha... é uma sedução.
- Às vezes estou tão perto de um certo abismo... que quase o abraço com satisfação... por o reconhecer... por saber que ele me acompanha... atrás de uma certa montanha que também arrasto... mas que não tem espessura. Uma montanha infinita sem espessura... infinita em peso e em tamanho... mas sem expressão... sem sentimento... sem valor... bla bla bla... um reverso qualquer... de uma coisa importante... que é todo o nosso sentido... e que por isso está lá. Ainda hoje quando esperava pelo sinal verde para atravessar a estrada dei com o abismo debaixo de um camião e quase que lhe estendi o braço num compromisso de entre-ajuda. Percebe-se?
- Não! Mas tu percebes, não percebes?
- Mais ou menos... percebo e não percebo... Porque de uma maneira geral o mundo é para não perceber! Porque é mundo...
- Lá estamos nós, mas quem é que quer perceber o mundo? Percebe-se e não se percebe e qual o drama?
- Se um mundo fosse unidade, Lime, talvez se percebessse... mas assim... somos plasticina...
- Plasticina...
- E é na elasticidade que reside a nossa possível felicidade.
- Não somos pedra tens razão mas não é elasticidade, é este estádio intermédio entre o nada e o tudo...
- Que são a mesma coisa... o nada e o tudo, é o que acho... estou sempre a pensar nisso.
- Soundbytes portanto...
- Nada de muito mais ou Cesarinny, portantes! E assim está na hora de me pirar...
- Portantes! Palavra bonita. Quase tão bonita como "ascese."
- Até logo...
E o pano desce.

Zul

Apagava as luzes e lá vinha a escuridão total. Todo o negro de um cego. O bréu. E aí agarrava-me a ela. Agarrava-me e beijava-a, tocando-lhe em todas as partes do corpo. Abraçava a escuridão e mexia nas suas partes húmidas. Era isso. Nos pântanos. Imaginando-a com mil caras. Imaginando todas as figuras possíveis. Bocas. Seios. As ancas. O cabelo e a cor dos olhos. Até a curva do nariz podia imaginar. E nisto desenhava toda a minha vida, com o tacto, nas paredes negras de um cego. Os dias chegavam assim com uma outra luz. Uma luz mais clara. Cheia de imaginação.

Conferência

Quando me sentei o meu coração batia muito depressa. E eu pensei: "O meu coração está a bater tão depressa... nunca bateu assim. Até consigo ouvi-lo, não vou conseguir dizer nada!" E calei-me. Sem ter sequer falado. E esperei que aquilo tudo parasse.
Parou. Porque me esqueci do que estava a bater cá dentro. E comecei a falar e a dizer. E tudo o que falei e disse não foi mais do que o bater do meu coração, a acalmar-se.

There are things I will never forget!

Keeping quiet with my name

People ask about my name. Where it comes from. I often don't tell and most of the times I keep quiet, trying to mumble some birdish sound in between my teeth. Then they ask me something else and forget it. Why should I tell anyway? Fuck them, I think, with all those stupid questions. Asking me 'who are you?' or even in the third person, all eyes trembling with a funny face, 'who the hell is Ring Joid?'
As soon as they start, when I'm sitting in front of them, they holding a pen or a sound device to record my voice, I drift away to a faraway land where I find myself driving in the middle of a field full of dry unharvested barley, the sun up high, me raving the engine of some four wheeler bike. And suddenly something else. Crows or other type of straight birds, a swimming pool, some nice girls around, a glass of lemonade. Then how can I pick up with the mind in front of me, searching for glory on some sentence I might tell?
"Hmm?", I say, completely out of mark. And then they repeat the same thing again and again and I take a full breath to keep it on focus for a while.
"Oh, my name...", I restart, sometimes I'm in a good mood, and holding my lemonade in one of my hands I say, "I got my name on this book, with this guy called Holden Caulfield, a kid, you know him, his eldest brother's favourite writer was Ring Lardner, and I don't know why, that flipped my mind."
The other part I don't know, even if they ask me with a hammer I can't tell. I think it was my parents or something. My mom Joy and my father Void. "I really can't tell", I add. Because I never knew my parents but that's what I believe. Or maybe it was the name of a train station or the brand of the tyres on my full roaring bike.
Sometimes I get some piece of paper and I write them the place where they can find something about it. Something like this. And they sort of get happy and turn off the tape and go home. That leaves me satisfied.
[IN CASE YOU DIDN'T GET THE LINK]

Fasterflame

When I get there I close my eyes. There's still some road to drive, but from that little corner, from the set of those trees leading the curve, I don't need to see any further. I take my hands of the wheel, with my eyes completly shut, I let myself go. It's beautiful. I can hear the happiness of the birds. I can almost touch that home at the end. And I can feel my whole world apart becoming reunited. For a moment it seems just like a dream.
Then I open them again. My eyes. And that's when I crash.

O Escritor - Parte Primeira

Perguntaram-me pelo Escritor. Eu, ao que parecia difícil, porque me encontrava distraído, respondi:
- Sentei-o!
Sim, é essa a verdade, sentei-o, ao Escritor; uma mesa quadrada, com dois lugares de restaurante de cada lado. Uma ligeira brisa quente que com os seus odores espreitava da zona da cozinha. Perguntaram-lhe se vinha sozinho, onde estava a namorada; riram-se, as duas mulheres do restaurante, e quando elas já estavam quase a coçar as barrigas, com o que parecia ser uma grande anedota, ele disse:
- Sim, estou sozinho!
Disse-o noutra língua que não conhece como devia conhecer. Disse-o nas palavras que sabia dizer, que não eram muitas. Talvez cinquenta, talvez mais. Os óculos escuros abandonados na mesa, o bule de chá a chegar de imediato. Sentou-se com as costas direitas virado para o vidro que o separava da rua e, sem perder mais tempo, começou a prever o futuro imediato olhando para a ementa.
Mas o interrogatório prosseguiu. Não chegava o começo da história, não chegava uma alusão do ambiente, as luzes frias, o cheiro da comida, era preciso mais.
- E depois? - continuaram eles.
Não eram polícias, nem agentes da autoridade. Na realidade não se ouvia ninguém. A meu ver, eram apenas leitores. Ávidos leitores da obra prima que se estava a escrever. E não pediam menos do que isso. Para quê perder tempo se na verdade não é uma obra prima, se é uma porcaria qualquer?
O Escritor, acima de todos os outros problemas que tinha, que sobrariam das páginas da enciclopédia da sua vida, se ela existisse, tinha um grave dilema com o qual se debatia no seu dia-a-dia. O problema grave do Escritor, que encobria todas as outras acções que prefaziam a sua existência, era que ele não escrevia.

Ring Joid & The Speeds From Mars


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Unselfish-portrait #1

WHEN I WAS PLAYING MY OWN SUPPORT PART • CLICK FOR MORE

Self acclaimed

I've seen it everywhere. I've heard stories of people that constantly die. By every second. On TV, on newspapers. On bold letters. Death is epidemic, is the disease of being alive. Even if I didn't ever see a dead body. My relatives that passed on I could only be by their closed wooden boxes. And it was a safe matter. Not saw them.
But. As I keep living. This is my true being and until then. Until the bold letters come upon me. I'm immortal. And immortality is what keeps me alive.

The Rembrandt

- I asked you two times, I will not ask you again. Will you do it?
Before we go any further I have to explain that there are two guys in the middle of a road. A red car with the doors opened wide. Sunshine and a breeze. Still the scent of a distant sea. They are almost the same size. Even if one seems stronger, the other, the one that is about to answer, he doesn't care.
- No! - He tells without looking straightways.
- As you wish. Then don't ask me why!
- I will not! I'm not asking anything.
- I will do it then. And you will see. I will steal it myself!
The first man enters the car. He forgets to close the other door and rides away. At the curve afar the door closes by itself. The other man walks in the opposite direction. Hands on his pockets. Jiggling about his happiness. He's on the loose. He will see nothing at all and he's carefree upon it.

A crina da memória

Agarrei bem as rédeas com uma das mãos. A outra tinha de estar solta. Para o equilíbrio, foi o que me disseram. As pernas a empurrarem-se uma contra a outra, com todo o lombo do animal pelo meio. Muita força, era preciso demasiada força. Muito mais do que aquela que tinha. Isto durou talvez uns dez segundos. A preparar-me. Quando abriram o portão lembro-me apenas de um raio de sol que me entrou pela retina e que fez parar todo o tempo. Voei de imediato pelo ar e fui cair na terra fofa cheia de estrume dos animais, o cheiro doce acompanhou-me pelos sonhos. Acordei há meia hora atrás, parece-me que um ano ou uma vida depois. Escrever ajuda-me a perceber o que aconteceu.

Tudo o que dizes

São essas as palavras
que vejo
celebrando na tua
boca
todo o curso de uma língua
que no silêncio
soletram a ínfima forma dos teus lábios
Um pequeno vento
uma curva suave
talvez o olhar distante
Tentado a ouvir o que sentes
que sem necessidade de falas
é tudo o que fica por dizer.

[TROCAR BOCA POR LÁBIOS POR LÍNGUA]



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