Retratos da vida de um homem armado

- Quando ele ia a passar a porta principal do Hotel, eu que já estava à espera há um bom bocado, tirei a pistola do bolso e dei-lhe um tiro. Dei-lhe um tiro e depois outro. Foram dois tiros. Secos.
- E depois?
- Depois começou a chover. Larguei a arma mais à frente num caixote do lixo e fui para casa. Quando lá cheguei fiz um café e sentei-me na cama a ler. É sempre isso que faço. Leio quando chego a casa.
- Quando é que isso foi?
- 18 de Novembro de 1998.
- Tens a certeza?
- Tenho! Era o dia de anos da minha namorada. Esperei que ela chegasse e fomos jantar fora. Num restaurante lá perto. Ofereci-lhe um anel de diamantes, com o dinheiro que me deram.
- Mas quando ele morreu que fizeste? Que aconteceu?
- Não sei, fiz como se não fosse nada comigo. Virei as costas de imediato e não quis saber de mais nada. Nem sei para que lado ele caiu. Nem me lembro da cara dele. Só depois, de ver nos jornais, por acaso.
- E quem te encomendou o serviço?
- Ninguém!
- Ninguém?
- Sim, ninguém.
- Então?
- Não sei. Não tinha nome. Recebi uma encomenda em casa, sem remetente, com a arma, o dinheiro e o local e a hora onde tudo ia acontecer. Só isso, mais nada. Não foi ninguém.
- Alguém terá sido...
- Talvez...
- Mas é assim?
- É! Pego naquilo tudo, olho para o relógio e se for naquele dia meto-me no autocarro e vou lá. Nessse dia ainda tive tempo para ir à ourivesaria. Gastei o dinheiro todo.
- Quanto era?
- Um milhão e meio...
- ...num anel para a tua miúda...
- Sim, na altura ela era boazinha. Eu gostava dela.
Faz-se uma pausa. Depois continuam.
- Obrigado Senhor Juíz. Não tenho mais nada a perguntar.
E todos se sentam.

1 Comment:

  1. Braz said...
    Gostei desse diálogo... vai continuar?

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