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A próxima edição de aniversário do jornal Público, no dia 5 de Março, vai ter uma particularidade. Vai estar a cargo do escritor António Lobo Antunes que irá dirigir no local todas as operações. Um dia diferente na redacção deste jornal português que marca nessa data o seu 19º aniversário. Para Lobo Antunes será também uma experiência inédita e decerto do seu agrado.
Já curiosos sobre o resultado, a Bloom irá reservar um exemplar desta edição e guardá-la no seu baú de boas recordações, sejam elas quais forem.
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Queria tomar partido por alguém. Dizer alguma coisa que ninguém consegue dizer. Como por exemplo que a tua galinha é maior do que a minha. Sim, é verdade. Ou que o Conde Barão é que devia ser o presidente. Mas vou esperar. Vou esperar e volto amanhã para um novo ensaio, com o corpo na mesma mas com a mente mais sã, decerto. Prometo!
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Pistas para a sua identificação - O cinéfilo tem sempre tempo para ir ao cinema.
- É muito chato e refere repetidamente aos amigos, e outras vítimas, cenas preferidas, actores, filmes, bandas sonoras e alguma trivia.
- Sabe a data de nascimento da Asta Nielsen.
- Não viu, inexplicavelmente, alguns filmes que toda a gente viu, como Música no Coração ou Os Canhões de Navarone.
- Viu filmes que mais ninguém viu, como La Petite Fée de Solbaken, e é especialista em géneros obscuros, como Bergfilms germânicos.
- Sabe nomes de directores de fotografia e as características gerais do seu trabalho.
- Desvaloriza Sundance em favor do Festival de Cinema de Telluride.
- Sorri, iluminado, quando alguém sai do cinema a dizer que o filme tem uma grande fotografia.
- Sabe de cor bocados de filmes obscuros, como O Coronel Wolodyjowski, e encontra meios de incluir nas conversas, mesmo a despropósito, referências a esses filmes.
- Vai ao cinema sozinho.
- Consegue lançar numa conversa, com uma certeza imune ao mais leve pestanejar, nomes difíceis, como Adoor Gopalakrishnan, Apichatpong Weerasethakul, ou mesmo, prova máxima, nomes de realizadores coreanos.
- Sabe que o último filme do Wong Kar Wai é uma merda.
- Usou gabardina e, a dada altura, cachecol à nouvelle vague.
- Vai às sessões das 14:00 e recorda que a certa altura havia sessões às 11 da manhã.
- Lembra, saudoso, ciclos de cinema a que assistiu há mais de 20 anos, e onde, invariavelmente, se passaram episódios inesquecíveis.
- Tem opiniões firmes sobre o cinema mudo dinamarquês.
- Sabe de cor títulos de filmes na língua original, preferindo dizer Neokonchenaya Piesa dlya Mekhanicheskogo Pianino a Peça Inacabada para Piano Mecânico.
- Também sabe títulos de filmes em bengali, ladaque, azeri, além de japonês ou russo.
- Por vezes finge não saber a tradução de títulos de alguns filmes.
- Teve/tem paixões fortes por actores ou actrizes. Uma vez jantou num restaurante em Carcassone onde estava, a 18 mesas de distância, a Catherine Deneuve.
- Odeia militantemente alguns géneros (como o musical – exemplo : Les Parapluies de Cherburg), alguns actores (Anthony Quinn), ou alguns filmes (Il Postino).
- Detestava, até à altura em que passou apenas a responder com um sorriso trocista, que alguém que não considera um “gajo do cinema“ lhe sugerisse ver este ou aquele filme, vivendo no terror de ouvir a frase : “ó pá, se és meu amigo tens de ir ver isto”.
- Passou horas em bichas para comprar bilhetes para ciclos, onde fez amizades para a vida. Conclui lembrando que: “ainda tenho lá em casa os bilhetes de...”.
- Abusa de frases superlativas começadas por Nunca, como: “nunca a Garbo esteve tão sublime como em...”, que faz acompanhar de um gesto de mão, abrangente e nostálgico.
- Vê filmes sem legendas em línguas que não domina.
- Insiste que os filmes do Syberberg: “até se vêem bem, é uma questão de entrar neles“.
- Só em casos excepcionais vê filmes dobrados, quando não há outra cópia de um filme dificílimo de encontrar, e envolvendo uma língua que não entende, como por exemplo um filme em dinamarquês dobrado para italiano.
[POR BOI LUXO em Luz de Inverno, no Hoje Macau da passada Terça-feira]
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S. Lázaro | Ilustrador Peter Suart apresenta “The Master and Margarita” na Bloom
O bem só existe porque o mal anda por aí. Considerado um livro dos demónios, “The Master and Margarita” é a obra-prima de Mikhail Bulgakov. Peter Suart, artista britânico com fortes ligações a Hong Kong, vem hoje a Macau explicar porque é que o escritor do início do século passado é incontornável. E falar das razões que o levaram a ilustrar as palavras do russo maldito.
O encontro com a obra de Bulgakov aconteceu há já alguns anos. Peter Suart identificou-se com a abordagem do mundo feita pelo escritor e dramaturgo russo, um mal-amado de Estaline. Gostou do tom – da ironia e do sentido de humor. Um dia, o artista britânico multifacetado que cresceu em Hong Kong recebeu uma proposta de uma editora de Londres: ilustrar “The Master and Margarita”, obra-prima de Mikhail Bulgakov. No processo, encontrou semelhanças com a sua própria forma de encarar o mundo. E de o passar para o papel.
“É a obra-prima de Bulgakov e tem uma história muito peculiar: em parte, diz respeito a um escritor que não consegue ver o seu livro publicado”, resume Peter Suart ao Hoje Macau. “E é isso que acontece ao livro de Bulgakov, que foi publicado apenas depois de o escritor ter morrido. Há um curioso eco entre o livro e a vida, o que é muito interessante.”
Esta coincidência (ou não) entre a criação e o criador é importante, porque a obra representa uma “vitória” de Bulgakov. Não em vida, já na morte. O livro foi amaldiçoado, à semelhança do seu autor. “The Master and Margarita” começou a ser redigido em 1928. Dois anos depois, o autor queimou o primeiro manuscrito, quando uma outra obra sua foi interdita. Em 1935 voltou a dedicar-se à construção das personagens. Diz-se que Margarita foi influenciada pela sua terceira mulher, com quem tinha casado três anos antes, e que acaba por desempenhar um papel fundamental para que o livro seja concluído. Seguiram-se mais duas versões – partes da final foram ditadas por Bulgakov à mulher.
O mestre morreu sem que tenha tido tempo para concluir a obra. Margarita fez o resto. Só em 1989 é que a Rússia publicou o livro na sua versão integral, sem quaisquer censuras.
Do Yin e do Yang
Oitenta anos depois de ter começado a ser escrita, “The Master and Margarita” continua a ser uma obra que incomoda. Pelos temas que aborda, intemporais e transversais – o bem e o mal, a inocência e a culpa, o racional e o irracional, a ilusão e a verdade. Jerusalém consta da obra e Moscovo também.
A Peter Suart agrada-lhe particularmente a visão de Bulgakov em relação a Jesus, na medida em que o entende como ser não divino. “Em parte, foi por isso que gostei tanto do livro. A descrição que faz do dia da morte de Jesus é muito convincente - e eu sou uma pessoa sem fé. Bulgakov apresenta Jesus enquanto um homem com um contexto muito especial, o que vai de encontro àquilo que penso.” Sobre certos domínios da vida do escritor não se sabe muito e o ilustrador não tem a certeza de que Bulgakov fosse totalmente alheio a convicções de índole religiosa. “Os pais tinham fé. A posição dele não é explícita neste âmbito. Mas, por aquilo que se vê no livro, é muito clara a representação de Jesus como um ser humano.”
O artista tem noção de que se trata de uma “questão muito sensível”, esta da materialização do filho de Deus. Por isso, garante “respeito” na abordagem que vai fazer hoje à tarde, na Livraria Bloom, no Albergue de São Lázaro. “No entanto, não vou deixar de dizer o que penso. E eu considero que é muito importante sermos capazes de falar abertamente sobre estes assuntos”, defende.
A dicotomia entre o bem e o mal são temas que não podem escapar a uma abordagem sobre “The Master and Margarita”. “É um dos problemas mais antigos. Há um parágrafo neste livro em que se defende que não pode haver o bem sem que exista o mal. É o conceito de yin e yang – não podemos ter um sem o outro.” O ilustrador concorda com esta perspectiva, mas acrescenta que, “na vida, tenta-se minimizar a existência do mal”.
Peter Suart lembra que estes conceitos nem sempre foram bem interpretados por quem lê Bulgakov. “A forma como encarou este tema deve ser entendida como uma metáfora, como uma forma de pensar o mundo, não como uma verdade literal.” As leituras feitas sobre o demónio ultrapassam Estaline e a sua época. Há menos de dois anos, o museu baptizado com o nome do escritor, em Moscovo, foi vandalizado por fanáticos que alegaram que “The Master and Margarita” é obra do diabo.
“Bulgakov não condena a figura do diabo no seu livro. A forma como escreve sobre ele é muito invulgar – é uma figura com charme, civilizada. Mas isto não significa que o mal seja bom. É apenas algo enigmático.” Por isso - e pela fidelidade das imagens às palavras – o ilustrador também não sataniza o diabo. “Não há uma posição moral directa no conjunto de ilustrações.”
O livro que pede para ser ilustrado
Suart, autor das narrativas dos seus livros desenhados, explica que não foi difícil ilustrar “The Master and Margarita”. É um escritor “fantástico e com um grande sentido de humor”. E acrescenta que “tem uma escrita muito visual e a narrativa é muito completa – é um livro que pede, ele próprio, para ser ilustrado.” E já o foi muitas vezes, com outras interpretações que não a do artista britânico. O que diminui, de algum modo, a responsabilidade final do ilustrador.
Até que ponto as imagens, de leitura mais imediata do que as palavras, condicionam o leitor? “Há várias versões do livro. Claro que se as pessoas lerem aquela que ilustrei primeiro, o peso das minhas imagens será maior. Mas, quando se pensa no processo editorial desta obra, a minha versão é apenas uma entre muitas, pelo que a minha responsabilidade não é assim tão grande”, esclarece, ressalvando que, “fundamentalmente, a ilustração tem um dever para com o leitor”. Peter Suart fez “muita pesquisa sobre o livro” para chegar à conclusão de que deveria associar as imagens às estações da Via Sacra.
O ilustrador conta ainda que, embora tenha começado a escrever os seus livros antes de ler Bulgakov, algumas das suas ideias estão no trabalho do escritor russo. Talvez seja a transversalidade das ideias. Suart não se afasta do escritor da Rússia de Estaline no que diz respeito “à natureza de Jesus e Maria”.
Peter Suart nasceu na Jamaica e cresceu em Hong Kong. Partiu para o Reino Unido para estudar. Em 1985, regressou à então colónia britânica para trabalhar enquanto artista plástico, músico, escritor e actor, mas em 1999 voltou para Inglaterra. É autor de uma série de livros ilustrados, “The Tik and Tok Adventures”. Fala fluentemente cantonês. A palestra de hoje, com início marcado para as 18h00, será feita em língua inglesa.
[POR ISABEL CASTRO NO HOJE MACAU]
CARLOS PICASSINOS DE VOLTA?
Segundo apurou o JTM, Carlos Picassinos, actualmente em Barcelona, mas ainda ao serviço do Hoje Macau, poderá estar de regresso ao território e ao mesmo periódico onde exercia a função de jornalista até há uns meses, mas, desta feita, para o cargo de editor executivo.
Confrontado com o possível regresso do jornalista, que se destacou na área da cultura, o director do Hoje Macau, Carlos Morais José, preferiu abster-se de comentários, ainda que tenha reconhecido ao JTM ter-se encontrado recentemente com Carlos Picassinos na cidade espanhola.
Carlos Morais José frisou, porém, que o Hoje Macau continua em fase de consolidação desde que se fundiu com o suplemento do “Tai Chung Pou” e que, portanto, possivelmente só em Setembro é que estará “sedimentado” por completo. Por agora, o projecto Hoje Macau continua “pujante”, sublinhou.
[NO JTM DE ONTEM]
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The crown of Midnight's Children
0 comments Semeado por / Sowed by: Bloom * Creative Network at 16:27LINDESAY IRVINE ON THE GUARDIAN
Rushdie Best of the Bookers
For the second time, Midnight's Children by Salman Rushdie has been judged the best ever winner of the Booker prize. The Best of Booker award, which has been announced at the London literature festival this afternoon, marks the prize's 40th anniversary. A similar contest - the Booker of Bookers - was held in 1993 to coincide with its 25th birthday, and came to the same conclusion.AUDIO: Salman Rushdie talks to Stuart Jeffries
Rushdie is currently in Chicago, promoting his latest novel The Enchantress of Florence, and appeared at the ceremony via videomessage. "I have to say this is just a marvellous moment for me and for Midnight's Children ... I'm slightly lost for words which usually I'm not," he said. The recently knighted author's sons Zafar and Milan accepted the trophy, which is the award's only immediate reward (although considerable additional sales can be confidently expected to follow). "I think there's something rather wonderful about my real children accepting a prize for my imaginary children," said Rushdie.
Midnight's Children is a teeming fable of postcolonial India, told in magical-realist fashion by a telepathic hero born at the stroke of midnight on the day the country became independent. First published in 1981, it was met with little immediate excitement. It was an unexpected winner, but went on to garner critical and popular acclaim around the world. The novel's popularity, very unusually for a literary award, is what has secured the prize, having been picked from the shortlist by an online public vote that drew just over 7,800 votes. The shortlist itself was selected by a panel of judges - the biographer, novelist and critic Victoria Glendinning; writer and broadcaster Mariella Frostrup, and John Mullan, professor of English at University College London.
As well as securing a welcome boost for Rushdie and the other shortlisted authors, John Mullan argued that the honour was a different kind of accolade to the annual award because of its longer view.
"The Booker is usually a marker of 'this year's thing'," he said. "The contenders for the Best of Booker stretched back almost half a century. It means that we were able to look at books that seem likely to endure because of their inherent qualities, as opposed to 'catching the zeitgeist'."
The Booker - which aims to reward the best novel in English by a writer from Britain, Ireland and the Commonwealth - has established itself as this country's most influential literary honour. But Mullan was more cautious about whether this award amounts to being declared the very best English novel of the last 40 years.
"The annual Booker winners weren't necessarily the best novels published that year," he explained. "One or two novelists have won for novels which weren't their best."
Glendinning, who chaired the panel, said that "the readers have spoken - in their thousands. And we do believe that they have made the right choice." But her comments fell a little short of the enthusiasm for Midnight's Children on the Booker website, where one voter wrote that "maybe only Shakespeare can top this sort of genius".
BLOG: They picked the right winner
IN PICTURES: The life of Salman Rushdie
REVIEW: Read the original Guardian review (PDF)
EXCERPT: Read an extract from Midnight's Children
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O Señor Joid, com os amigos americanos, a posar para a foto ao volante do "Aleluia"{uma versão da história, sempre melhorada, publicada hoje em papel, virá para aqui no Domingo}
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Não deixe de ler a primeira aventura de Ring Joid, de novo nos jornais, com As Marquesas. Está mais abaixo. Precisamos do seu feedback, deixe-nos o seu comentário com a sua opinião. Sincera. É isso que nos faz ir para a frente e apanhar mais fruta.
[AQUI]
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É preciso começar por qualquer lado, o princípio, não importa muito como são as primeiras letras, o que dizem as frases iniciais. Como aparecem. O som delas. Depois o eco. E por fim o declive da sua memória.
Espantoso. Achava que já tinha passado aquele limite de idade em que já não fazia figuras como esta. Não, não é vergonha. Só o invisível empenho que demarca a nossa conduta e nos mantém aptos junto aos restantes. O Mundo. De certo modo, e mesmo com todo o meu passado, de pessoa respeitável, o que já é um feito a ter em conta, nem eu estava à espera de me comportar desta maneira. Mas aqui estou. Não consegui fugir ao inevitável. Já me tinham avisado. Por muitas vezes tinha observado o comportamento dos outros em idênticas circunstâncias. Até me tinha rido com isso e ter achado que era, sem sombra de dúvida, bastante ridículo. Agora não há muito a dizer. Nem mais nada para explicar. Aconteceu. Isso é tudo o que conta.
E como foram as primeiras frases desta minha nova vida? Nem sei. Foi como se estivesse há muito a olhar para a mesma imagem, lá ao longe, remota, desfocada, uma coisa muito minha, que a pouco e pouco se foi tornando mais nítida, a ganhar os seus contornos e a receber as suas cores, de sombras profundas. A tornar-se mais perceptível. Para no final perceber do que se tratava e reconhecer a sua forma por completo, compreendendo acima de tudo que ela me tinha acompanhado a vida inteira, e que não era mais do que a configuração absoluta do meu carácter às voltas dentro de mim. Só que até ali, todo o tempo em que a ignorei, não tinha tido capacidade para a decifrar, porque não tinha aprendido a viver. Assim. E quando isso aconteceu já era tarde demais. Já nada tinha o seu valor. Se isto é que é viver? Não quero ter uma resposta. A partir daí nem por sombras queria voltar para trás. Nunca mais. Estava a desenhar uma nova forma de escrita com uma compostura rara e desconhecida. Letras.
E já vamos longe na introdução, já passámos disso. A esta altura já estou muito mais à frente. O Era uma vez já aconteceu muitas vezes.
Foi num dia, num ciclo de cinema, eu estava ali quieto, como em todos os filmes, as mãos entrelaçadas em cima do colo, no escuro, numa das filas da frente. A sala quase cheia. O aborrecimento, lembro-me, legendava o que estava a ver, que até ali não trazia nada de extraordinário. Quando ele entrou, vindo devagarinho, passo a passo, e se pôs a cantar.
Foi um arrepio a primeira frase. Pensei que fosse do frio, do ar-condicionado, da escuridão súbita. Mas ele continuou e eu não quis acreditar. Comecei a sentir-me esmagado, numa paródia de pleno êxtase. Ele a andar, com o sol a rebentar a um fio de nascer e ainda no fim da noite, com o nó da gravata fugido da garganta, o som das cordas na voz da guitarra, tivesse continuado sem mais esperança até ao dia seguinte. Ele, sim. Pensei que tudo aquilo era saudade. Essa palavra que não colabora. Saudade do mar. Saudade a navegar na memória da cidade que me encantava. O amor por uma vida remota e desfocada, funda de sombras, que retomava ali os seus divinos contornos e encantos. Visível. Toda ela óbvia. A apertar-me contra a cadeira. Contra a minha estranha forma de vida.
E fiquei, sentando, as mãos em alvoroço, o olhar fixo naquela representação da realidade, e nas outras que se iam seguindo. Pequenino, ali, sem o conseguir encarar de frente. E a projecção do meu inevitável destino a tornar toda a minha existência perceptível. Não foi de todo medo o que senti. Apenas a exuberância de estar vivo.
Que tempos esses de puro alerta, sem horas, sem dias. Apenas o pó de frases bonitas a apertar com um nó todo o meu ser. A música. O canto. Tabefes, murros, desastres. Mas ao contrário. Sim, com as mesmas letras, mas do avesso.
Não conto o que fiz depois. Que foi tanto. É, se me tivessem explicado antes, diria, que depois dos quarenta já ia muito atrasado, para abraçar toda aquela adolescência por viver. Mas isto não tem idade. Não tem outro feitio. É alegria pura. Sempre, sempre que quiser.
Sim, tem piada só de pensar. Dá-me uma imensa vontade de rir. E isso não é bom? Não é um feito considerável? Correr atrás dele feito o maior dos palermas. Decidido. E segui-lo, para aqui e para ali, país fora. Aos gritos pela estrada, como aquelas meninocas das novelas. Cidades, vilas, aldeias. Quero lá saber. Digo quantas asneiras forem preciso. Isso faz bem. Ajuda. Faço trinta por uma linha, mas eu vou, de dentes cerrados, e amo o azul, o púrpura e o amarelo que moldam toda essa vida. Estou lá! Pouco me interessa, como já me disseram tantas vezes, que me achem, sem sombra de dúvida, bastante ridículo. A verdade é tão simples.
Fico quietinho, num lugar qualquer nas três filas da frente, e sinto. Fecho os olhos. Deliro um pouco. E é uma certa maneira de sofrer. Hmmmmm. Os arrepios de novo. Alguém consegue perceber isto? Saio fora de mim, mas ao mesmo tempo entro, por que aquilo, foi o que me contaram quando era criança, é que é o Paraíso. E eu acredito nisso. Não é uma questão religiosa. Eu sou completamente incrédulo perante essas coisas que fazem as guerras no mundo. Não ligo nem um segundo a essas histórias. E no entanto... sigo-o. Mas ele, posso dizer, é uma pessoa de carne e osso. Não é nenhuma relíquia do passado. Nenhum fantasma. Não lhe inventaram uma cruz nem uns parafusos. Ou um Black & Decker.
E agora estou aqui em cima desta árvore, no meio dos pássaros, a olhar para o palácio, que nem um burro, à espera que ele saia. Formidável. Estão cá mais. Mais mulheres do que homens, como sempre. Mas não importa. Por meu desejo basta que ele se vislumbre. Chega vê-lo de raspão. Eu que não o consigo encarar de frente. Para mim, se alguém quiser saber, esta coisa, é um amor que eu não sei explicar. Facilmente o coração me salta para as mãos, assim, alvoraçado, e fica aqui entrelaçado no colo. Não está escuro, está um sol imenso. Céu azul e tudo, gaivotas pelo ar. Muitas. Vieram também com certeza. Que figura a minha, a minha família diz o mesmo. Tão bom! Não conheço mais nada assim. Acreditem, eu nem gostava disto. Facilmente solto as lágrimas que me apetecer. E isso não é saudade, é saúde. Muita. Choro, sem ninguém dar por isso, assim que ele abre os lábios. E solta do nó da garganta a guitarra toda dobrada dentro da voz. Mas é uma coisa muito íntima, muito minha e dele. Só nossa. Só eu é que noto.
Mas é em absoluto a vida toda a voltar atrás e sou eu a voltar a vivê-la. E para isso, o fim, escreve-se com qualquer letra. O que importa, no final de tudo, são apenas os ecos da memória. Este precipício, que aqui fica.
[As Marquesas • PUBLICADO SEMANALMENTE NO HOJE MACAU E AQUI AOS DOMINGOS • #1 DE 11 ABR 2008]
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Não perca amanhã aqui o regresso de Ring Joid às páginas dos jornais, reposto na web. Todos os domingos, "dia de descanso", para quem não chega à edição em papel, pode encontrar neste espaço a recapitulação de todos os seus passos.
[IMAGEM DO HM LIGEIRAMENTE EDITADA PELO PRÓPRIO]
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Será que hoje ainda vou conseguir comprar um exemplar do Hoje Macau, que traz o regresso do Ring Joid às páginas dos jornais?
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Um dos grandes acontecimentos desta semana, há muito esperado pela legião de fanáticos que anda por aí, é o regresso de Ring Joid às páginas dos jornais. É verdade. Vai acontecer todas as sextas-feiras, mais uma vez no jornal Hoje Macau, agora sob a renovada direcção de Carlos Morais José. E esperem de qualquer coisa, porque não vai ser simples de se fazer. Mas pelo que sabemos vai haver mesmo de tudo. Sem medo. É já daqui a dois dias. Stay tuned!
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The Disinformation Company is a multimedia company that specializes in presenting information of a controversial, subversive, extreme, or just plain unusual nature. The company publishes a number of books and DVDs, as well as a web site (disinfo.com) about conspiracies, subculture, politics, and other topics the traditional media don't often cover. Launched on September 13, 1996, disinformation was designed to be the search service of choice for individuals looking for information on current affairs, politics, new science and the "hidden information" that seldom seems to slip through the cracks of the corporate-owned media conglomerates. The Disinformation Company is independently owned with offices in New York City. In addition to its site, The Disinformation Company also has thriving publishing, television and home video divisions.
THESE ARE SOME OF THEIR TITTLES:
Bird Flu: Everything You Need to Know
by John Farndon • Foreword by Tony Minson
A Bird Flu pandemic is inevitable - so we are told. First identified in China, this apparently merciless virus, which originated in chickens, supposedly has the potential to mutate and kill thousands, even millions, of people. But how accurate is this picture? Is it a panic created by the media? Or a genuine threat we should protect ourselves against immediately - and how can we do this? What exactly is it and what do terms like "mutate" actually mean? John Farndon answers these questions and also investigates: the history of pandemics - and how this one might be different; the last great flu outbreak - the Spanish flu of 1919; what a virus is and how it spreads; how antiviral drugs and vaccines work; how the statistics of death rates are worked out; what the government's emergency plans are. Whether you are worried about the implications of bird flu for you and your family, or you are simply interested in learn more than what you see and read in the media, this book is for you.
50 Facts That Should Change the World 2.0
by Jessica Williams
Jessica Williams revisits her classic series of snapshots of life in the twenty-first century. Revised and updated with lots of new material, this book is every bit as vital as the first edition. From the inequalities and absurdities of the so-called developed world to the vast scale of suffering wreaked by war, famine, and AIDS in developing countries, it paints a picture of incredible contrasts.
The 2.0 edition again contains an eclectic selection of facts addressing a broad range of global issues, now with added emphasis on climate change, the decline in human rights and democratic freedoms around the world, the unexpected global impact of corporate growth, sports and media madness and inequality, and lots of updated facts and figures. Each is followed by a short essay explaining the story behind the fact, fleshing out the bigger problem lurking behind the numbers. Real-life stories, anecdotes, and case studies help to humanize the figures and make clear the human impact of the bald statistics. All of the facts remind us that whether we like to think of it or not, the world is interconnected and civilization is a fragile concept.
Underground!: The Disinformation Guide to Ancient Civilizations, Astonishing Archaeology and Hidden History
by Preston Peet
Where did 'modern' civilization begin? What lies beneath the waves? Do myths describe interstellar impact? Was the Ark of the Covenant a mechanical device? Were there any survivors of the Atlantean catastrophe? Who really discovered the 'New' World?
Hidden history continues to fascinate a wider audience and all of these questions are answered in this compendium of facts. Peet and his various all-star contributors guide readers through exciting archaeological adventures and treasure hunts, ancient mysteries, lost or rediscovered technologies and assorted forteana, all the while using serious scientific studies and reports, scholarly research and some fringe material. A massive compendium questioning established wisdom about the history of the world. Contributors include: Graham Hancock (Fingerprints of the Gods, Underworld) David Hatcher Childress (Lost Cities and Civilizations series), Colin Wilson (From Atlantis to the Sphinx), and many more.
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O Tai Chung Pou em português continua o seu rumo. Histórias da cidade e das suas pessoas, de quem intervém nela. Nos seus mais variados aspectos, mas muito pela criação e inovação, aqueles que a fazem efervescer.
A edição de hoje traz-nos Ung Vai Meng, Director do Museu de Arte de Macau. Não é um caso único em Macau mas sem dúvida uma excepção ao modo como se vive e se enfrentam as vicissitudes deste território, na sua permanência lúdica e predadora do Jogo. Guilherme, o seu nome em português, encara a vida como um objecto de criação, uma obra de arte, em que a experiência 'artística', que se assemelha à explosão crónica de um fogo-de-artifício, e o modo como ela acontece, em processos mentais únicos, vale por tudo o resto e arrasta todos os planos de uma existência, das relações humanas ao conhecimento de si e dos outros, trazendo no seu fluxo o encanto da pura felicidade. Qualquer pequeno momento encolhido no meio da rotina diária é motivo para um pequeno diálogo em que a criatividade se desenrola por si. Num pedaço de papel, num traço esquecido no rebordo de uma mão, ou apenas no modo de pensar e de olhar. É dessa maneira, no encontro e na diferença, que se forma uma pessoa. O indivíduo e o seu reflexo como rosto de uma engrenagem social.
O Tai Chung Pou custa 2 patacas, pode ser adquirido pela cidade fora, lá dentro estão estas quatro páginas, no seu papel crespo e longo, escritas em português. Não perca, porque é da construção de uma cidade com uma profusão de vértices de que se fala.
Pode também ser sintonizado aqui.
LIGAÇÃO RÁPIDA: • TAI CHUNG POU EM PORTUGUÊS
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ARTUR WARDEGA • DIRECTOR OF MACAU RICCI INSTITUTE © BLOOMLAND * CREATIVE NETWORKWith Artur Wardega, the new Director of Macau Ricci Institute, whom I never met before, it was very simple. While we talked I just took my camera and shoot. From his office we moved outside to the large balcony that surrounds the typical old Macau house. It's a beautiful place with its yellow walls and the wooden doors, with a little garden beyond that escapes from the city traffic that runs alongside, on the Tap Seac Square and on the border of the Lou Lim Ieoc Garden.
Mr. Wardega was clearly relaxed and enjoying what it seemed like a small fashion shooting, look there, move a little to the left and that was it. The picture above was the best of the set. Even if you cannot see the warm yellow, the black and white throws underneath all the spectre of the colors and it still gives you the ambiance and the weight of an institution that goes through the realms of history in Macau. Artur Wardega is polish, he came from Taiwan. And there he stands somehow nostalgic freezing both future and past, of personal and systematic challenges.
It was on the front page of Tai Chung Pou in Portuguese (check it here).
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Depois do início em papel da versão portuguesa do Tai Chung Pou* já está no ar a sua congénere electrónica e pode ser bisbilhotada neste sítio. O eTaiChungPou é interactivo como nós e tanto lá como aqui pode - e deve! - deixar os seus comentários, a sua opinião conta e é necessária.
Dada a colaboração da Bloom * Creative Network, e minha em particular, daremos com alguma assiduidade destaque ao que acontece nesta parte da esfera jornalística local, onde as imagens se deslocam com facilidade da malha dos impressores, o que torna tudo ainda mais especial.
* O Tai Chung Pou em Português é o suplemento em português do jornal mais antigo de Macau. Tai Chung Pou significa "Diário para Todos" e teve páginas em língua portuguesa ao longo dos 74 anos de existência. As duas línguas voltaram a juntar-se em Setembro de 2007.
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São quase oito décadas de existência, divididas entre três continentes, com despedidas e regressos. O princípio de tudo deu-se em Lisboa, mas foi em Macau que deixou sementes, que o fizeram voltar quase meio século depois de uma partida ensombrada pelo que se passava, então, do outro lado da fronteira. Eurico Ferreira caminha com passos firmes pelas ruas de Macau que não esqueceu, aquelas que continuam iguais, quase sem tirar nem pôr, às da década de 1950.
Pioneiro do cinema de animação português e um dos responsáveis pelo primeiro filme produzido e rodado em Macau, Eurico Ferreira vive entre películas, as artérias estreitas do bazar chinês e a blogosfera. À cidade cristã também vai, essa que lembra de outros tempos, mas a nova Macau ainda não é totalmente conhecida. Vai descobrindo os novos espaços quando se aventura em passeios mais longínquos.
Chegou a Macau sargento, em 1951, a bordo do Índia, embarcação que transportou dois mil homens, ao longo de um mês. “Não imagina o que era, todos aqueles homens juntos durante tanto tempo. Atrás seguia o Timor, com outros tantos tropas. Vínhamos substituir o exército português que esteve em Macau durante a guerra.” Mobilizou-se voluntariamente, quis bater o pé, “revoltei-me em Lisboa”, cidade onde nasceu e onde deixou o mundo do cinema, que então entrava numa nova era com as inovações que chegavam do outro lado do Atlântico.Fiz o documentário, entretanto deu-se um acontecimento em Macau, um funeral majestoso, com todas as tradições chinesas, que foi o funeral do pai do Ho Yin. Fiz esse documentário também.
Em Macau encontrou um “ambiente terrível, os japoneses não entraram cá mas as Portas do Cerco fecharam, havia muita fome e miséria”. As tropas que o Índia e o Timor vieram substituir também não deixaram a melhor imagem dos homens da então metrópole, conta, “a sensação que tive quando cheguei é que estava numa terra diferente, com uma cultura diferente e que tinha que conviver com um povo que mostrava receios, por causa do comportamento da tropa que cá tinha estado.” Mas em Macau encontrou também “a companheira de toda a vida”, um amor à primeira vista de quem teve cinco filhos, quatro nascidos em Macau, o último já num outro continente, “mas feito ainda cá”. E tropeçou, de novo, no cinema.
Dois anos feitos de Macau e de vida militar, “o Ministro do Ultramar resolveu vir cá e trouxe com ele um produtor de cinema, Ricardo Malheiros, e um operador de câmara, que vinham fazer a reportagem da viagem do ministro”. O encontro com o produtor português fez com que a vida desse nova volta, de regresso às imagens e aos sons. Foi dispensado da tropa e começou a trabalhar com Malheiros num documentário sobre os Correios de Macau. “Fiz o documentário, entretanto deu-se um acontecimento em Macau, um funeral majestoso, com todas as tradições chinesas, que foi o funeral do pai do Ho Yin. Fiz esse documentário também”.
Em meados do século passado, a colónia portuguesa não dispunha de meios técnicos de montagem e começaram os primeiros contactos profissionais com Hong Kong. A colónia britânica caracterizava-se, já na altura, por ter “uma indústria de cinema altamente eficaz”, que Eurico Ferreira queria trazer para Macau. “Porque é que Macau não podia ser uma Hollywood? Porque é que não atraímos para Macau a indústria cinematográfica?”, defendia o produtor e realizador. “A Taipa não tinha nada, podiam ter sido construídos estúdios maiores que os de Hong Kong”.
O sonho de Eurico Ferreira não era solitário mas, ainda assim, não teve pernas para andar. “Decidimos começar por fazer um filme para apresentar Macau, com histórias de Macau.” Constituiu-se uma sociedade, com várias pessoas residentes no território, “fui buscar actores a Hong Kong, outros formamos cá”. E aqui começa a história de “Caminhos Longos”. O argumento era baseado em acontecimentos reais do conflito sino-japonês.
“O filme começava com uma família de refugiados de Xangai que vinha de barco para Macau e ia adaptar-se a uma terra que não conhecia. Macau era, naquela altura, um porto de abrigo, entrava toda a gente, tinha as portas abertas”. Pelo meio, ainda a referência à vida boémia da cidade e a histórias verdadeiras de piratas de alto-mar, como a do “tancar chinês que tinha como característica um motor a diesel e que pertencia a um homem chamado Imortal, que era muito respeitado, um pirata que, durante a guerra com os japoneses, saía de noite e ia roubar os barcos que levavam os mantimentos e trazia-os para Macau, onde na altura se morria de fome.”
A meio do filme, o financiamento deixou de existir e houve necessidade de improvisar, cortar nas despesas maiores para poder levar a película à tela. “Deixámos de ter gravador de som, usei um gravador normal e sabia que ia encontrar dificuldades técnicas para poder fazer o filme. Peguei nos sons e medi as imagens, fui para Hong Kong, reproduzi o som até ficar mais ou menos com a mesma velocidade e passei para foto-sonoro. Consegui fazer uma primeira cópia do filme.” Os defeitos técnicos do filme eram bastantes, não dava para levar o filme para a Europa, mas em Macau a expectativa criada era muito grande, não fosse a cidade aparecer no cinema. “Caminhos longos” foi estreado no Vitória, que “já não existe, ficava ali quem desce a Almeida Ribeiro, logo a seguir ao Hotel Central, corria o ano de 1953 ou 54.” Foi um sucesso, garante o produtor e realizador, não obstante alguns pormenores que queria rever numa segunda montagem, a ser feita em Lisboa. “Havia uma cena em que o polícia chegava a casa de uma das protagonistas do filme, ia tocar à campainha, a mão ainda ia no ar e a campainha já fazia trimm, trimm. A malta ria-se à brava.” Estes defeitos técnicos derivados da falta de material para sincronizar imagem e som nunca chegaram a ser corrigidos, outras histórias aconteceram, zangaram-se as comadres e o filme ficou esquecido algures na metrópole. Para a história ficou a aventura, a iniciativa, as novidades. “Os diálogos em chinês tinham legendas em Português e vice-versa,” recorda Eurico Ferreira.
Poucos anos depois, os acontecimentos do outro lado das Portas do Cerco e os ecos da Revolução Cultural fizeram o então funcionário das Finanças arrumar as malas e partir com a família já numerosa para outras paragens. Moçambique foi o destino e por lá ficou vinte anos, até voltar para Portugal. O cinema continuou a fazer parte do quotidiano, a par com as várias profissões que foi tendo, das Finanças ao controlo aéreo.
Há três anos voltou para Macau, depois do maior elo à cidade do Oriente ter desaparecido, cinquenta anos passados do amor à primeira vista. “A minha mulher adoeceu e não resistiu, a minha filha vive cá e convidou-me para voltar.” Aqui sente-se bem, como acompanhou sempre o que há de mais novo publica as memórias num blogue, tem um quotidiano calmo num espaço da cidade quase esquecido. “Há pessoas que não conheço e que me sorriem,” ri-se. O “pouco de cantonense” que sabe chega para conversar, a cidade agrada-lhe, acolhe-o. “Quando vou ali na Avenida Almeida Ribeiro, quando estou ali no Leal Senado, estou a viver exactamente a cidade de Macau daquele tempo. Há coisas de Macau que estão exactamente como era. A única diferença é que, naquele tempo, eu ia à janela do quartel-general e via a ilha da Lapa mesmo em frente. Agora não vejo porque tem um grande prédio.” O crescimento da urbe não o atrapalha porque, sentencia, continua a ser espaço de “aglutinação e intercâmbio de culturas, sem as quais não existem ideias novas”.
Do desenho à cor em movimento
Eurico Ferreira nasceu em Lisboa, em 1928. Cedo, ainda nos tempos do liceu, apaixonou-se pelo desenho, quando Hergé e Walt Disney eram as principais referências em Portugal. “Criei um jornal de parede, que era uma folha grande onde desenhava as minhas histórias e colava no liceu às sextas-feiras. Ao sábado, chegava às aulas e estava toda a gente a ler o jornal”, conta.
As experiências profissionais não tardaram a chegar e começou a ilustrar livros, para a Bertrand e fez obras para crianças. Os desenhos animados em Portugal eram terreno fértil, uma vez que a oferta era praticamente inexistente. “Comecei a aprender a animar, fiz umas primeiras animações e um trailer para um filme”. Até aqui, em Portugal era tudo a preto e branco mas “os americanos já faziam a cor” e chegou o dia em que alguém levou a tecnologia para Lisboa. “Os alemães tinham desenvolvido entretanto um novo sistema de filmar a cores, por camadas, levado depois da Guerra para os Estados Unidos e que foi apresentado em Portugal por César de Sá. Fui ter com ele, que estava empenhado em montar um estúdio, uma empresa chamada Cinelândia.”
Com César de Sá aprendeu a técnica e fez a partilha das ideias sobre a importância do cinema. Para Eurico Ferreira, o cinema não é uma arte ou, pelo menos, não é “a sétima arte”, aquela etiqueta que passou a ser lugar comum. “A linguagem cinematográfica é a primeira linguagem não discursiva inventada pelo Homem, é uma linguagem cujas origens são conhecidas, bem como a sua a evolução e gramática.” Antes de arte é, portanto, forma de comunicação. “O cinema é tão arte como a literatura é arte para a língua portuguesa. Há poetas, há escritores, mas eu não tenho que saber ser Camões para poder falar ou escrever”. Por ser, sobretudo, um meio de comunicação, o cinema “deveria ser dado nas escolas, tal como se ensina a ler e a escrever, música, desenho e trabalhos manuais”, defende indignado, sem grandes esperanças de que tal se torne realidade, pelo menos num futuro próximo.
Realizadores favoritos tem muitos, ou então nenhum, que “os produtores são os pivôs do cinema”. Ver cinema “é como ir ao futebol”, por ser um espaço colectivo, ver televisão “é como jogar matraquilhos, faz-se em casa”. E se a vida de Eurico desse um filme? Nenhum, ou um só, “o filme da minha vida”. Aquele que está por fazer.
POR ISABEL CASTRO • TAI CHUNG POU PORTUGUÊS • FOTOS ANTÓNIO FALCÃO / BLOOMLAND.CN
[e aí vão três Germinators cá da casa]
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Muitos pensam num poema que nunca foi escrito quando se querem referir a algo que não compreendem. A infelicidade, a tragédia, a desventura. É isso um poema, são palavras soltas que não saem de mais nenhuma forma e se juntam naqueles termos de simpatia que por breves momentos escrevem o que não se explica de nenhum outro modo, deixando apenas um travo a coisa passada, mas profundamente marcado na história: são os versos de cada um que a passo e passo se desenrolam numa vida.
É sobretudo o acaso que move toda a engrenagem apesar de todo o plano para a sua criação estar minuciosamente traçado. A criação de um ego e de uma identidade.
Em 1995, no dia 20 de Março, alguns dos comboios do metropolitano de Tóquio atrasaram-se por causa do nevoeiro sobre o Rio Toné. O senhor Ogata, por exemplo, por este motivo também se desprendeu da sua rotina e entrou na viagem para o emprego um pouco mais tarde do que lhe era habitual. O senhor Akashi, nome fictício, que se lamenta que por ter levado a irmã de carro nesse único dia até à estação de metro, a deixou em rota de colisão com a fatalidade em que se veio a transformar toda a sua vida.
Cinco outros homens, na manhã desse dia, espalharam-se pela rede que circula por baixo da terra transportando gás sarin líquido que no momento exacto perfuraram dando início ao que foi o maior ataque terrorista na história do Japão. 12 pessoas morreram e cinco mil ficaram afectadas. Algumas delas sofrem ainda hoje as sequelas desse atentado, danos cerebrais irreversíveis, problemas respiratórios e depressão.
A viúva de Yoshiko Wad crê na sua utopia de que foi a falta de preparação da polícia e a inépcia da justiça, na explicação de outros indícios, que lhe levaram o marido.
São todos estes testemunhos que passam pelas páginas de Underground, título ainda recente lançado pela editora Tinta da China. O autor é Haruki Murakami, escritor japonês com vasta obra publicada, e um dos nomes de maior evidência no panorama literário mundial da actualidade. A razão da sua escrita nasce do confronto com a realidade inexplicável, não só dos acontecimentos que marcam esse encontro com o destino mediático mas tudo o que lhe é adjacente. As questões que ficaram por responder e que tocam o centro da ferida japonesa que se prolonga por todo o seu fatalismo histórico. Como se tudo tivesse sido delineado há muito tempo como a linha de um comboio.
Murakami, há muito a viver no estrangeiro, viu-se na urgência de contar o seu país para o poder compreender, talvez em busca do seu maior poema, e poder de novo considerar-se presente nessa narrativa colectiva da qual se tinha deslocado. Durante quase um ano entrevistou alguns sobreviventes do atentado e procurou sintetizar a réplica da versão que tinha inundado as páginas das notícias. Foi evidente a incapacidade para aceitar a derrota que se abateu sem aviso e que chocou com a noção de que os ataques foram perpetrados por uma seita, de carácter humano, e que apesar de existir em pleno no Japão, foi justificada como uma coisa do mal, externa, a que todos quiseram limpar as mãos. Dando-lhe o alinhamento da inevitabilidade de uma catástrofe natural, como o terramoto de Kobe acontecido em Janeiro desse preciso ano.
O sarin deixa as pupilas contraídas, sem controle, ou cheias de claro ou cheias de escuro, estáticas. De repente, como uma fotografia que fica queimada com a exagerada exposição à luz, o mundo normal desaparece. É desse congelamento que surge esta análise de Murakami. Não só o acontecimento mas a ramificação por outros episódios particulares que levam ao mundo subterrâneo a que o pensamento japonês muitas vezes se recolhe. A imutabilidade que vive à sombra do estigma da “perda de face” e de outros fantasmas. Que justificam os mitos dos Samurais, dos Hara-kiris, dos Kamikazes e possivelmente de um copo de Sake a mais. São histórias individuais, belas, quotidianas, sentenças para o derradeiro momento com que fluem as quadras livres no ritmo cardíaco do momento. Histórias que mais do que formarem um livro são um documento de estudo de toda a sociedade japonesa. Com os seus traumas e os seus mecanismos. As suas ausências. Em que a psique colectiva se confronta pela faixa que se escondeu no reconhecimento partilhado da “Verdade Suprema” como alguém que olhava por eles e os distinguia da sombra da identidade de todas as pessoas.
“Porquê? Porquê a mim?”, perguntam os sobreviventes na voz e na narrativa de Murakami. Nada o poderá justificar à partida mas a concepção do mutismo com que enfrentam o dia-a-dia desafia o rumo de toda a História. Que se viu reflectida no espelho retorcido de uma seita religiosa. O livro é complementado ainda com uma série de entrevistas a alguns membros da Aum Shinrikyo, nome em japonês que não mais será esquecido.
Todas as pessoas já ouviram falar do metropolitano de Tóquio, a imagem que se conhece é a dos funcionários das estações que empurram impassivelmente os passageiros para dentro das carruagens. Nessas horas o metro vai sempre à cunha, e as pessoas viajam torcidas quase sem conseguir respirar. Foi assim nessa manhã, uma como as outras, em que se deu o culminar de um plano bizarro que visava a destruição do centro secular japonês como um terramoto, um processo que se escrevia sob uma crença de fim do mundo. A pouca informação e a incapacidade de reacção das autoridades e meios adequados de resposta à emergência levaram ao extremo das consequências.
Ainda hoje, 12 anos depois, os membros condenados à morte esperam o momento final, em particular o líder supremo Shoko Asahara em quem os seus fiéis depositaram todas as linhas dos seus versos.
Não se trata apenas da descrição do atentado mas a compreensão do seu significado para o futuro, monumentalmente descrito, por quem quer saber mais de si nos outros.
Como o medo ou uma sentença. Ou como um Haiku, os versos que os monges zen ditam para o papel antes de morrer e que nunca antes foram escritos.
Haruki Murakami
Underground, O atentado de Tóquio e a mentalidade japonesa
Edições Tinta da China • Dezembro 2006 • 461 páginas
Título original: “Andaguraundo” • Tradução de Susana Serras Pereira
[PUBLICADO NO TAI CHUNG POU PORTUGUÊS • HOJE • 15 SET 2007 ]
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