Dias felizes eram aqueles em que os novos livros chegavam. Esta sensação era mais concreta, em pleno, nos primeiros tempos de vida. Nas primeiras experiências. Era um processo longo, que partia da escolha, da selecção deste ou daquele autor, desta ou aquela editora, e saber se era possível trazê-los. Mas quase que não existiam impossíveis. Trouxemos livros de todo o mundo. Os dias de espera depois da confirmação acabavam com uma carrinha azul com uma caixa uma caixa ou duas, por vezes tantas que não havia espaço na loja. Depois era a questão de qual abrir primeiro e adivinhar onde estava cada título. Sim, as encomendas tinham um remetente, por isso era fácil saber o que lá estava dentro. Mas não deixava de ser uma incógnita e uma aventura. E era um prazer a descoberta, um a um, um pequeno tesouro, como se cada um deles fizesse parte da nossa família e tivesse regressado de uma longa viagem. Era um longo abraço e era uma sensação que até hoje não sei explicar. Era essa paixão que nos fez continuar e que nos fez desejar tanto mais. Agora é difícil olhar para trás e pensar que tudo isso parece já um país distante!
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The Albergue opened officialy yesterday. Lights, sound, exhibitions, a fashion show, scheduled the event that started at 6 o'clock with a a mighty organization and a crowded audience. Among them many of the VIPs of Macau leaded by the Chief Executive, Edmund Ho. It was an effusive ocasion to glow a line of projects that are coming to this venue. The event marked the intention to grow to a new level. The potential is all there, we will see in the coming months what the future reserves for the whole space and for the district of St. Lazarus where creative industries pretend to flow.
For our part, Bloom is still displaced on the heart of its body. We're still walking and beating but through alleys and sideways. If there's the challenge to overcome for a new life, on a second and strong opportunity, on the same way we are faced for a huge operation that must be accomplished without scars and that needs certainty and consistency. We just want to clean everything, forget the past and start from ground zero onwards. Still today it's hard and painful to return to Bloom Red where the bones and remains of its destruction are completly visible. It's a nightmare on air going through weeks and weeks and we're tumbling down on the way to something that will come, but has time goes it gets more close to a dream then to anything else. We're hoping for the happy ending though.
Bloom Yellow is at Albergue, where the flashes went on. But even there we're faraway to engage on something solid, because we're still raining. Yellow is part of a rainbow and can't be made of shaded colors. We'll give it time. But we can't last forever on the side of un-definition.
Apart from all that, with or without us, Bloom wishes a long life and a great success to Albergue.
[PHOTO BY BLOOMLAND.CN | CLICK TO ZOOM IN]
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A BLOOM NO TELEJORNAL
São ainda as cheias na Bloomland. Foi assim que aconteceu, dois dias após o dia fatídico das inundações na baixa da cidade, a TDM esteve no Largo do Pagode do Bazar para registar os pormenores da situação. Da noite para o dia a água deixou um rasto de irrealidade levando quase todos os alicerces da nossa livraria, ou seja, os livros, para além de avultados estragos nas instalações e no equipamento. Desde então até agora pouco mudou, a ajuda prometida pelo governo local, uma linha de crétido sem juros, ainda não chegou. Já está uma semana fora do tempo e sem isso não vamos poder voltar a respirar. Fazemos projectos de eventuais mudanças e sonhamos acordados com visões fantásticas. Sim, a sorrir pela possibilidade do que pode vir. De todo, é uma mudança radical que põe tudo em questão, não importa se é um milagre ou não.
A REPORTAGEM DE LINA FERREIRA / APRESENTAÇÃO DE VITOR REBELO © TDM / CANAL PORTUGUÊS
• QUALIDADE NORMAL (mais rápido)
• MELHOR DEFINIÇÃO (mais lento)
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Um dia grande para nós. Aconteceu em Junho do ano passado. Um processo complicado, de preparos longos e escolha minuciosa, que trouxe a nossa maior colecção de livros portugueses até à data. Queremos, com toda a vontade, repeti-lo, muito mais vezes.
É uma semana crucial para a Bloom e para o seu futuro. Período de decisões, em que vivemos no momento preciso e fugídio do traço de novos caminhos. Queremos sobretudo uma aberta no cenário, algo que nos possa levar mais longe, com mais força e abrigados das chuvas e dos ventos. Como se tudo o que aconteceu para trás fosse apenas a preparação do que vai existir para a frente. Uma incógnita e, no entanto, uma certeza. Uma alusão de um mundo diverso onde o futuro seja claro e possível. Concreto como um cataclismo. A certeza de que há ainda muito para fazer neste lado do Mundo. Porque levámos este tempo todo a aprendê-lo e não faz nenhum sentido que o chão tenha fugido de repente, logo agora que estamos munidos de todas as ferramentas.
A única direcção é continuar. Essa é a razão que caminha connosco. Do resto não sabemos. O tempo decidiu e é ele que vai decidir de novo.
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Desta guerra entre Bruno e o resto do mundo não é difícil adivinhar quem foi o único morto. Mas nem depois de morto o seu fantasma ficou quieto. Se no século XIX parecia finalmente descansar como mártir da todo‑poderosa ciência, arrumado no panteão [...] já no meio das chamas do cadafalso, com um olhar turvo e arrogante, desviou a vista do crucifixo que lhe apresentavam, e acabou “queimado vivo”, consciente de morrer “mártir, e de boa mente, pois que sua alma subiria junto àquele fumo” para ir reconjugar-se com a alma do universo.
in TRATADO DE MAGIA • EDIÇÕES TINTA DA CHINA
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The night of the flood in the Inner Harbour not faraway from Bloom Red
24 SEP 2008 • CLICK TO ZOOM IN
É óbvio que se pudéssemos continuar o que iríamos fazer da Bloom seria algo muito melhor. Como se o jogo ou o campeonato tivessem agora terminado e de repente tivéssemos um outro campo para jogar e uma nova equipa para construir. Com tudo em aberto. Sabendo de antemão tudo aquilo por que passámos. Ajuizando todo o passado. Todos os erros, tudo o que fizemos mal e, pelo outro lado, tudo aquilo que deu resultado. Começar tudo de novo, apesar de tudo o que significa, é uma oportunidade de virar a página. Porque se à partida não tivemos qualquer experiência, não sabíamos sequer o que era uma livraria por dentro, como funcionava, e fomos aprendendo tudo isso a passo e passo, agora temos toda a experiência de dois anos. De contacto com as editoras, com os autores, com uma variedade imensa de fornecedores e com os clientes. E com o rolar de toda a máquina sabemos como se faz. E sabemos o que pode ser riscado e o que se pode fazer muito melhor. Por isso, se pudermos, e vamos tentar tudo para que isso aconteça, acho eu, a versão da Bloom que surgir será a 2.0. E acho que não poderá existir outra saída. Não podemos desistir e deixar-nos levar com a água. Como os livros foram. Como se tudo fosse assim tão simples. Não é uma questão de que o lugar fique vazio ou mesmo que alguém o possa ocupar, é simplesmente porque ainda temos muito para dar. E podemos dá-lo bem melhor. Mas é necessário ter os pés na terra.
Passámos o fim de semana a deitar livros fora. Uma espécie de esponja feita de pasta de papel. Capas moles. Imagens coladas para sempre. Folhas de cinco ou seis páginas. Até se começaram a tecer teorias à volta dos livros. Porque é que uns colavam mais do que os outros. A nossa colecção de autores lusófonos foi toda. Não importa muito se sobrou um ou outro, porque conseguiu nadar até ao cimo de um dos contraplacados das estantes - malditos contraplacados! - e ficar à espera de auxílio. Podem-se ler, é certo, mas as águas, sabe-se lá de onde vêm.
A primeira coisa que notei, logo no primeiro dia, foi o cheiro. Nunca cheirei um morto em decomposição, mas achei que aquele cheiro a papel podre, das águas meio salgadas, completamente impuras, era em tudo semelhante. Livros mortos que, de dia para dia, se iam aprofundando no seu estado pútrido. É difícil contabilizar o que perdemos. Não é só o volume, o objecto e as suas folhas impressas. É todo o processo de construção de uma ideia louca, a de ter uma livraria à nossa medida num território como Macau. Um espaço que fomos construindo. Uma colecção que se foi multiplicando. Porque se à partida apostámos tudo. Tudo o que ganhámos continuámos a apostar. É, Macau é uma verdadeira terra de jogo, nós fomos apostando. Apostando. Apostando... Sem medo, é certo, mas no final aconteceu-nos exactamente o que acontece a todos os viciados do jogo. Perdeu-se!
Os amigos apareceram, recebemos mensagens daqui e dali., para nos dar alento. Sugeriram-nos soluções. Pôr o que restava à venda, o que fizemos. O que restava eram apenas 'meia dúzia' de livros. O cheiro continuava lá, nos livros, as águas que antes passaram por toda a cidade afectada, como um pequeno plano de aniquilação, apesar de se manterem no seu estado húmido, deixaram um rasto de guerra. Pensei, por momentos, que não ia conseguir nunca mais pôr tudo aquilo de pé, não por falta de motivação mas por puro enjoo. Repugnância de livros, se isso existe. É tudo uma questão de sentimento, e isso flutua para trás e para a frente. Na verdade não sabemos bem o que vamos fazer.
E como vieram os amigos, para ajudar, vieram também os que nunca antes tinham vindo, porque ouviram falar que ali se estavam a dar livros. De repente não se percebe muito o que se está a fazer, de que lado se está e, na verdade, tudo deixa de ter importância. No final é tudo papel deitado ao rio.
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Se tivéssemos arrumado os livros de outra maneira teríamos poupado todo o Boris Vian, mas teríamos perdido o Samuel Beckett. É como nos aviões, ir atrás ou à frente, nunca se sabe qual é a parte que arde primeiro.
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Thank you to those who have been calling us, with nice and friendly words offering help!
Our request is that you all continue to believe in us and keep visiting us and ordering @ Bloom Yellow.
We really appreciate!
This is the expression of our disaster. It's still hard to tell. Could be like every vanished book would resemble the weight of an imaginary being that lost its own life. Do books die? They don't, but for sure they stop whispering. They stop being there, watching us and keeping us safe. It's painful to count them. To write their names on our list of casualties. I was there and I know it.
Bloom started slowly, with a few books. As we were selling them and sending them to other homes we were buying more. More and more. Until there wouldn't be more space. The exquisite space of Bloom Red was crowded with books, like a train on the rush hour. They squeezed themselves up and down. Shouting to each others. Telling their own stories. Puhskin's The Queen of Spades was always getting a voice on Dostoievsky's The Gambler. Or On the Road drifting some other tale to tell to Marguerite Duras' The Sailor from Gibraltar. On the Sea!
Fuck! It's hard to breathe now. They were all gone!
THIS EVENING WE LEFT THE LIGHT OF THE LOGO AT OUR DOOR ON. IT MEANS THAT WE'RE STILL THERE. WE STILL HAVE A LIGHT AT THE BEGINNING OF SOMETHING ELSE! LIKE A CANDLE IT GIVES US HOPE...
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BLOOM RED WILL BE CLOSED UNTILL FURTHER NOTICE. THANK YOU!
WE'LL KEEP BREATHING AT BLOOM YELLOW!
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And suddenly the dream is over. You wake up in a new reality and there's no other way as to face it just like it is. This was Bloom Red today morning, a place of disintegration. A ground zero on our own scale but in the same way unbelievable.
What is this? Where are we now? It took ages to get to this point, struggling from back and forth to bring books and a different life to this city and have them as our trueness. As our own veins, our flesh and blood.
It was our passion from many months. It still is. Difficult to go by, as are books a difficult subject to make your own life subsist. Sometimes we failed, but it was on failure that we could open our doors. Learning.
From the back of the night the dawn brought us one meter water high inside our shop. We're it couldn't exist. Books don't burn and cannot swim. They have drown themselves on their own voices. Can you hear a story underwater? I guess not.
Who's to blame? Probably ourselves. Probably nobody. Where to go now? Even having faced it when we saw it we are still on that point when you wake up from the dream and see a world you haven't met before. It's the same, we know it, but the picture touched us much differently, goes directly to the heart, and we still couldn't print it out.
First we have to clean the mess, then we'll see. Bloom will not survive on its own. We'll need resources that it never had. We'll not give up. We'll go until the last station.
[MORE ON THE FLOOD]
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