Que fazer?

Passámos o fim de semana a deitar livros fora. Uma espécie de esponja feita de pasta de papel. Capas moles. Imagens coladas para sempre. Folhas de cinco ou seis páginas. Até se começaram a tecer teorias à volta dos livros. Porque é que uns colavam mais do que os outros. A nossa colecção de autores lusófonos foi toda. Não importa muito se sobrou um ou outro, porque conseguiu nadar até ao cimo de um dos contraplacados das estantes - malditos contraplacados! - e ficar à espera de auxílio. Podem-se ler, é certo, mas as águas, sabe-se lá de onde vêm.
A primeira coisa que notei, logo no primeiro dia, foi o cheiro. Nunca cheirei um morto em decomposição, mas achei que aquele cheiro a papel podre, das águas meio salgadas, completamente impuras, era em tudo semelhante. Livros mortos que, de dia para dia, se iam aprofundando no seu estado pútrido. É difícil contabilizar o que perdemos. Não é só o volume, o objecto e as suas folhas impressas. É todo o processo de construção de uma ideia louca, a de ter uma livraria à nossa medida num território como Macau. Um espaço que fomos construindo. Uma colecção que se foi multiplicando. Porque se à partida apostámos tudo. Tudo o que ganhámos continuámos a apostar. É, Macau é uma verdadeira terra de jogo, nós fomos apostando. Apostando. Apostando... Sem medo, é certo, mas no final aconteceu-nos exactamente o que acontece a todos os viciados do jogo. Perdeu-se!
Os amigos apareceram, recebemos mensagens daqui e dali., para nos dar alento. Sugeriram-nos soluções. Pôr o que restava à venda, o que fizemos. O que restava eram apenas 'meia dúzia' de livros. O cheiro continuava lá, nos livros, as águas que antes passaram por toda a cidade afectada, como um pequeno plano de aniquilação, apesar de se manterem no seu estado húmido, deixaram um rasto de guerra. Pensei, por momentos, que não ia conseguir nunca mais pôr tudo aquilo de pé, não por falta de motivação mas por puro enjoo. Repugnância de livros, se isso existe. É tudo uma questão de sentimento, e isso flutua para trás e para a frente. Na verdade não sabemos bem o que vamos fazer.
E como vieram os amigos, para ajudar, vieram também os que nunca antes tinham vindo, porque ouviram falar que ali se estavam a dar livros. De repente não se percebe muito o que se está a fazer, de que lado se está e, na verdade, tudo deixa de ter importância. No final é tudo papel deitado ao rio.

2 Comments:

  1. Anonymous said...
    Aqui deste lado em Portugal vou falando da Bloom e do que aconteceu. A ver se acontece outro tipo de tufão deste bater de asas.
    Momentai
    Rodrigo
    Antonio said...
    Abração!
    Ainda estamos do outro lado da linha.;-)

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