Que dizer?

Chegou ao fim o enredo da Livraria Portuguesa de Macau. Instituto Português do Oriente recua na decisão de vender as actuais instalações.

Apesar do nosso nome ter aparecido referenciado em alguns momentos na imprensa escrita local, a Bloom manteve-se afastada durante toda a polémica de contestação contra a venda das actuais instalações situadas no centro da cidade, optando pelo silêncio e esperando pela conclusão de todo o processo.

Mas quem é a Bloom afinal? Talvez não seja nada que se veja. Uma malha invisível no padrão do território. Não é nenhum David contra Golias, afinal. Talvez seja apenas o desejo de duas pessoas que estavam com os sonos trocados e resolveram ficar acordados mais uns instantes e acreditar no impossível. Sonhar. E uns dias mais tarde, ou mais do que isso, criar uma livraria numa esquina da cidade em frente a um templo com mais de duzentos anos de existência. Porque havia essa necessidade e porque ainda há. Mas tudo isso é já um país distante.

Um mês após a passagem do tufão Hagupit em Macau, em Setembro passado, que destruiu todo o plano então formado, com perdas materiais e emocionais avultadas e incalculáveis, a Bloom foi contactada pelo Instituto Português do Oriente para a possibilidade de gerir a nova Livraria Portuguesa num local diverso da sua actual localização. Recebendo essa oportunidade como uma enorme surpresa prontamente se dispôs a encontrar o lugar ideal para tal encontro. Em Macau a especulação imobiliária é delicada e torna-se difícil encontrar a solução mais correcta e viável. No entanto surgiram duas hipóteses que poderiam ser a marca de uma presença condigna para o futuro de todo o traçado. Desenhámos o cenário sem estabelecer compromissos.

O Instituto Camões de Portugal, sócio maioritário do Instituto Português do Oriente, em Assembleia Geral realizada há dois dias, decidiu entretanto cancelar a venda do espaço da Livraria Portuguesa. Facto que a Bloom acabaria por saber de maneira indirecta pelos jornais e que foi consumado depois da comunidade portuguesa de Macau, em particular, se ter manifestado contra a hipótese dessa transacção. Num protesto iniciado pela mão da associação Casa de Portugal em Macau, tendo lançado para o efeito uma petição online, com resposta determinada, por esse mundo fora, de grande parte dos seus destinatários.

Não nos vamos debruçar sobre o conteúdo da petição, feita minuciosamente com um propósito. Poderíamos manifestar que não continha a exactidão dos factos em causa, mas não o vamos fazer e isso, neste momento, e em qualquer outro que possa surgir, não importa de todo. Não deixava de ser uma causa importante. Aconteceu e o que interessa é a deliberação final ao fim de de um tempo que parecia indeterminado e que acabou por ter um fim.

Não existiu um cronómetro, mas desde o contacto inicial até ao dia de hoje distam quatro meses. Tempo de incrível demora até à possível confirmação. A Bloom ficou congelada todo esse período, absorta em ideias sumptuosas. Muitas vezes recebemos aquelas propostas de correio electrónico não solicitadas “Você ganhou a Lotaria Francesa” ou ”Acabou de ganhar uma herança não reclamada de uma princesa africana”, toda esta história, nesta circunstância, nos parece uma mensagem de SPAM. E a esta distância tudo parece irreal. A livraria, o tufão, as reuniões, as luzes.

Sempre acreditámos, perante o panorama que foi levantado, que tudo poderia não acontecer. Por isso, mesmo solicitados, nunca viemos a público falar sobre o assunto. Talvez, não explicando ao que vínhamos, ao que estava do outro lado da parede, no negro do holocausto da língua portuguesa no oriente, tenha sido um equívoco. Não dizer que tínhamos um projecto de continuidade e a hipótese de um espaço honrado para a edificação de um belíssima Livraria Portuguesa nesta terra, expondo-o às pessoas. “Too late”, alguém dirá. E no fim que dizer? O que resta? Continua tudo como está. É uma repetição de outros acontecimentos também falados na mesma língua, aqui. Os portugueses de Macau ficam mais do que satisfeitos, sobretudo as casas de Portugal e as línguas portuguesas, que vencem esta batalha contra o vento da mudança, tem o deleite da missão alcançada. Será? Terá ficado a causa cumprida? E os escritores que eu gosto, onde estão?

Na razão estava a questão premente de Portugal em abdicar de um espaço físico em Macau onde passam diariamente milhares de pessoas. De abandonar todo a embarcação que já não lhe pertence desde 1999 e desamparar os portugueses que ainda cá se encontram. Um local que tem escrito nas suas paredes a essência de um país e de uma pátria e que se podia volver na possibilidade de ser transformado numa loja de candeeiros. E muito antes de 99, quando se devia ter agido a sério, o que se fez de duradouro pelo português? “A Pátria Vos Honrai que a Pátria Vos Contempla”, ainda hoje está escrito nas Portas do Cerco, na fronteira com o continente chinês. E dizem que desse lado é que se preocupam, que daí é que vem o gosto pela nossa Língua. Pois! Em causa estava a memória de outra época, o símbolo, e a possibilidade de todo o desígnio de uma nação se deslocar para uma rua secundária, sem tanta evidência, apesar de poder ter outra grandiosidade e outro sentido de estado. Isso é irrelevante. Será que não nos podemos valer por nós próprios e partir?

A Bloom nasceu no ano de 2006, abrindo as suas portas em Fevereiro do ano seguinte. Ficava perto do rio, o espaço era pequeno e por vezes deixávamos os clientes sem escolha. Éramos falíveis. No entanto fomos aprendendo a mover-nos, criando o nosso mundo e a nossa imagem, apesar do tempo faltar para uma dedicação exclusiva. Ambicionámos demais, talvez, trazer novas editoras, autores consagrados e aqueles que ficam para lá do consenso comum, os grandes clássicos e em simultâneo os escritores mais arrojados de hoje. Trouxemos pessoas de fora, plantámos um pequeno jardim. Jardim de palavras, feitas com muitas linhas e com muitas páginas. Um livro é um mundo mágico que não acaba. De criatividade, de imagens, de sonhos, de coisas que não se explicam de outra forma. A Bloom mergulhou nesse universo de olhos fechados sem pensar na possibilidade de se dissipar afogada. E no azo da transformação ampliámos o sonho e, mesmo com um túnel por acender, tivemos uma leve esperança de construir outra realidade na cidade. Uma âncora para a disseminação da cultura, a portuguesa e ainda outras, numa janela para o mundo, como um campo de leitura, um lugar para nos perdermos e deixar o tempo correr pelo universo das letras.

É verdade, não desistimos dessa ideia, de criar um espaço assim. Onde por entre um café se possa abordar o tufão da escrita e as vozes doces das palavras. Não temos nada a perder. Mas será que a cidade o merece ou deseja, criando-se assim uma alternativa? E quem somos nós na verdade para vir para aqui fazer afirmações destas? Quem é idóneo no meio de todas estas histórias, os jornais, as instituições, as capas dos livros que não suportam o peso das águas? Será que todos os que assinaram a petição sabiam verdadeiramente o que estavam a assinar? Acredito que sim, pelo nome do País em causa, que é o que importa, mas quantos deles se dedicam realmente à leitura? E em Portugal, alguém sabe hoje o que é isto, o que se passa aqui, alguém tem a noção?

E o que é no fundo a Livraria Portuguesa actual? É tudo o que existe. É o que há. Com os valores bem determinados. São três andares, não importa o elevador, numa rua onde as pessoas passam a toda a hora e que tem um nome gravado em letras grandes. Alguém disse que dava tudo por ela e é tudo o que baste, sem olhar para outro céu. A Bloom também dava tudo por ela, pela ideia de uma Livraria, inserindo no seu escaparate todos os desejos que nos atormentam, mas é preciso que se abram as janelas e deixando-a voar, deixá-la ir para o futuro, num lugar de encontro de culturas e de projecção da cultura lusófona, cá dentro e lá fora. Ali ou noutro lugar. Em todo o seu significado quase que se tornou um local assombrado. Mas somos apenas uma opinião por entre as demais. Logo se verá. Parece-nos que ainda podemos estar todos do mesmo lado.

Deixamos o nosso breve historial com as perspectivas para amanhã que, como o futuro, é sempre um dia incerto. Mas nunca se sabe...

Breve história da BLOOM [SEGUIR O LINK E CARREGAR EM FULLSCREEN] • O MESMO EM 'PDF' • EM 'DOC'
[BANDA SONORA: The Box "Autumn Yellow", projecto musical que a Bloom trouxe a Macau em Julho de 2007]

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Com este vento todo, uma das coisas que aprendemos foi que não podemos ser um dueto de Moisés' ou Maomés a remar no deserto. A montanha assim nunca chegará cá abaixo. ;-)

[DE VOLTA À BLOOMLAND]

8 Comments:

  1. Just a foreigner said...
    Bem, se havia a Bloom, então qual era a preocupação em relação à Livraria Portuguesa? Agora que todos ficaram com a livraria como está, ainda não estão satisfeitos? De facto, mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. E todos perderam o vosso projecto bonito, Bloom, e ganharam a medíocre actual LP. Sinto muito que Macau vos tenha deixado escapar, ou ignorado desse modo. Abração à Bloom. Eu não assinei a petição por achar que havia qq coisa mal explicada lá. Fiquem bem, caríssimos.
    S.P said...
    Cara Bloom,

    Excelente "post". Vocês, infelizmente, acabaram por ser infelizes vítimas de todo um processo estranho. Como cidadão, sinto que me foi ocultada muita informação sobre o processo. Em Macau, as coisas apenas se "sabem" pelo sopro do vento...

    Porém, tudo o que aconteceu, a meu ver, poderá ser positivo. Porquê?

    Como cidadão de Macau que acompanhou a "Bloom" desde o seu aparecimento, é para mim evidente o quão significativo foi a sua criação no panorama cultural de Macau.A Bloom apresentou um novo conceito de Livraria em Macau, envolvendo o leitor , dinamizando o seu espaço não apenas como um local de compra de livros, mas um local de convívio e de partilha de literatura e de aprendizagem. Aliás, a própria dinâmica da Bloom colocou em evidência o potencial de uma Livraria dinamica como polo de divulgação cultural, que, julgo eu, se pretende com a Livraria Portuguesa. Parece-me, assim, mais que óbvio que, acabando a actual concessão de gestão da Livraria Portuguesa em 2010, seja concedido à Bloom a responsabilidade de gestão do espaço.

    Quanto`ao espaço da Livraria, confesso que fico contente por ter ficado onde está. É realmente um local sem igual do ponto de vista de visibilidade, acessibilidade e de fluxo de potenciais clientes. Perguntam-me então porque a Livraria actual dá prejuizo. Certamente que não é pela sua localização. Como leigo, como mero comentador de "bancada" diz-me o bom senso que o que falha, actualmente, naquele espaço, é, claramente, o "conceito", a falta de visão de futuro e gestão, algo que a "Bloom", como verificamos durante o desenvolvimento de todo o projecto até hoje, tão bem tem definidos- e que se mostrou capaz de concretizar.

    Sugiro, Bloom, que apliquem este conceito de Livraria a este excelente espaço, e, se me permitem, aqui vão algumas sugestões : imaginem, por exemplo, a cave como espaço para mostras Multimédia, filmes, palestras, local de convívio, e venda de produtos multimédia. Piso 0, onde o cliente/turista/cidadão tem contacto imediato com a Livraria- um pequeno café com Livros actuais e revistas/Jornais de actualidade, e uma pequena selecção de discos e CD's,alguns livros de relevo, actuais e ou selecção "Bloom/Livraria Portuguesa" seguindo os vossos excelentes criterios de selecção, e, está claro, disponibilizar para compra pequenas publicações estrangeiras de interesse ao turista, em Inglês e Chinês. No terceiro Piso, a Literatura com a vossa criteriosa selecção de autores, e Literatura especifica às principais áreas onde a comunidade Portuguesa tem peso, no território: Arquitectura, Direito, Artes, Lusofonia, e, claro, edições Locais e livros sobre a cultura e autores locais, etc. Esta literatura estaria disponivel em Português, Chinês e Inglês. É impensavel uma livraria existir em Macau sem o envolvimento da População- sendo que 90 por cento ou mais da população fala e lê chinês, não faz sentdo não existir um espaço onde o exista literatura nesta lingua, e na Lingua "global" mais falada (se não for a primeira, será a segunda) em todo o mundo, o inglês. A Livraria, contudo não poderia esquecer está claro, a manutenção do serviço de apoio à Escola Portuguesa e aos estabelecimentos de ensino em Português, entrando aqui, também, o cimentar dos contactos com as instituições de ensino de Português na China, e, quiçá, na Ásia?

    Este espaço, dinamizado seguindo o Conceito "Bloom" não só na criteriosa selecção literária mas também na já provada capacidade que a Bloom tem de trazer oradores de interesse e de criação de workshops de qualidade em áreas culturais diversas, juntando, claro, uma boa gestão financeira, teria todas as condições para concretizar o imenso potencial que todos nós vemos numa Livraria Portuguesa em Macau.

    Mais uma vez, volto a dizer: A Bloom é, já, sinónimo de dinamismo e capacidade de concretização de um projecto cultural único em Macau. Não acredito que a atribuição da exploração do espaço actual, a partir de 2010, à Bloom, seja contestado por quem quer que seja. Será obviamente necessaria é que a comunidade se una neste processo. Que não haja interesses de instituições na atribuição na futura concessão, que não se pisem uns aos outros, que encontrem um concenso. Casa de portugal, Bloom, ADM, APIM, F.O., IPOR...Agora não é tempo de guerras internas, mas sim de se olhar para a frente. Acredito que todos conseguem ver o excelente trabalho que a Bloom fez ao longo dos anos. Esteve muito bem ao longo deste processo todo, com uma postura digna. Agora, que venha 2010, e que a "nova" Livraria realmente revele, também, que as comunidades Portuguesa, Macaense, enfim, a Lusofonia Local estejam pronta a assumir que, independente de Governos ou instituições, como cidadãos de Macau, e como representantes de parte da riqueza cultural deste espaço único na China, lhes cabe assumir a responsabilidade de lutar pelo valor e interesse da Lusofonia nesta terra. Como diz o outro- pensem com o BIR, e não com o passaporte!
    De cá said...
    Não via com maus olhos a mudança da livraria portuguesa. De vez em quando é preciso dar umas murraças no estabelecimento e mudar. Ainda para mais neste mundo tuga... para o qual já não há pachorra.
    Bem podiam ir todos plantar batatas!
    AG said...
    A vida quando passamos os 55 ensina-nos a ter calma e a esperar a oportunidade. E a nunca perder a calma. Provavelmente para o burgo o meu amigo será o derrotado. Mas cada um fica com a sua consciência. Outros problemas há acima da LP e que se prendem com a presença portuguesa aqui, a imagem que passamos para o mundo chinês. Vamos dar tempo ao tempo e aos que riem no fim. Há mundos para além do círculo concêntrico de alguns cromos à portuguesa. Daqui e de Portugal.
    Ass. Bebedores do Gondufo said...
    Gostei muito do teu blog.

    Portugal
    Ana (a rapariga incrédula) said...
    Tenho pena que o vosso projecto não tenha ido para a frente. Mas também tenho pena desta história toda ter ido para o ar desta maneira. O IPOR bem se poderia ter explicado ou dito alguma coisa, ou alguém desse lado da bancada. Já não falo de vocês que se mantiveram em silêncio e até acho muito bem. Mas enfim, não sei... Vamos aguardar pelo futuro para ver o que sobra da língua portuguesa no oriente.

    Continuem!
    Anonymous said...
    A.G., o problema da maioria dos portugueses de Macau é que andam com a cabeça sempre noutro lado, não vivem aqui realmente, olham para os seus botões, e quando lhes falta alguma coisa, vão sempre pedir ajuda à mãezinha, como se ela estivesse ali ao lado disponível, sequer, para olhar por eles. Não é a imagem que se passa para o mundo que vive com eles, não andam aqui a pôr bandeirinhas, é uma ideia de integração que nunca foi posta em prática e isso é que é chocante.
    Quando a esta história da Livraria Portuguesa... vou ali e já venho...
    Filósofo said...
    E agora já está toda a gente contente e a Livraria a mesma pasmaceira de sempre. Já toda a gente se esqueceu da história e voltam todos aos seus lugares. Muito bem! É por isto que eu gosto tanto do movimento Tuga!

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