O 25 sem ter 45

Eu não estava em lado algum no 25 de Abril e não me arrependo nada de ainda não ter nascido naquela altura. Foi uns anos depois (não muitos), os Verões já não eram tão quentes, havia iludidos e desiludidos com os cravos, a maioria já alinhava no “consolida, filho, consolida” (obrigada Zé Mário).

Cresci sem nunca ter percebido muito bem qual tinha sido a confusão em que a minha mãe se tinha metido em 58, era então ela uma adolescente de espírito rebelde. O tio M. de olhos verdes e voz suave nunca quis falar daquela Angola que eu conheci pelas fotografias a preto e branco que enviava à minha mãe e que estavam guardadas numa gaveta que já não existe, imagens com dedicatórias cheias de mentiras piedosas, em que a única verdade eram as saudades e os beijos. Confesso que nunca lhe perguntei. O tio F. nunca quis falar da Guiné mas sei que ainda hoje sonha que não está em casa. Cresci sem nunca ter percebido muito bem o que era aquela história do isqueiro e da tal declaração para se ingressar na função pública. Nunca se falou muito do primo V. que desapareceu e não foi numa manhã de nevoeiro ou do tio-avô de hábitos suspeitos com quem não se trocava mais do que um bom dia-boa tarde, não fosse o diabo tecê-las, que acabou por morrer de velho, como o seguro, e ninguém foi ao funeral.

Depois vieram os amigos mais velhos, os que viveram fora do país porque era a única opção, os que não chegaram a poder escolher. Antes disso, já tinha chegado o manual de História do liceu, quando a efeméride ainda era abordada ao de leve. Depois vieram os documentários e os filmes e os depoimentos e os livros. E as músicas, tantas músicas.

Num jornal daqui, li hoje que há gente que acha que aqueles que têm hoje menos de 45 anos não sabem nada sobre o que era a vida antes do 25 de Abril. (Acredito que alguns com mais de 45 também não saibam, ou então já se tenham esquecido, afinal até já passaram uns anitos). Nada, mesmo nada, não será o caso – há sempre as histórias de família ainda hoje contadas em sussurro, as fotografias de África, os fantasmas, as memórias partilhadas a custo por muitos e com mais facilidade por outros. É provável que se saiba pouco, sim. Mas mais importante do que saber números e factos históricos, é saber sentir as pessoas. Não sei como é que isso se ensina ou se aprende. Também é verdade que a História teria outro valor se o presente fosse ligeiramente mais coerente.

É verdade que os que têm a minha idade olham para a liberdade como um dado adquirido, aquela liberdade de poder escrever aqui e hoje o que me apetece. Por mais livros (e eu quero sempre mais) que se guardem na estante depois de lidos e anotados, dificilmente poderia ser de outra forma, para quem ainda não estava cá. Poderia? Não. Mas isto não significa que eu – e outros com menos de 45 anos – não sintam 33, hoje, 25 de Abril que não é de 74, mas de outro ano qualquer.

Nada disto interessa. Ou tudo interessa, não sei. O que me apetece mesmo hoje é fazer um 25 de Abril em casa e na minha rua, apetece-me que todos tenham os seus 25 de Abris de fazer por casa, pelo emprego, pelas ruas onde moram. Que as pessoas não tenham medo de falar. O meu 25 de Abril é isto. Mais do que a História, mais do que histórias, o meu 25 de Abril foi ter crescido a aprender que posso falar, que posso dizer, todos os dias, no dia 26 e no dia 27 e em Maio e em Agosto e Novembro e todos os dias e todos os anos. Mesmo que seja inoportuno, politicamente incorrecto. O que me apetece mesmo hoje é que com mais ou menos de 45 anos não se fale só do 25 de Abril por ser dia 25 de Abril. Quero um 25 de Abril todos os dias. Não o de 74. O de hoje. Quero um 25 de Abril amanhã. Dizer, ouvir. Já nos ensinaram que se pode falar? Já nos ensinaram que se pode ouvir?
Sim, sim,“diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.” (Obrigada Zé Mário).

(Para o meu amigo H.B., que me ensinou que posso ser livre todos os dias.)

7 Comments:

  1. antónio said...
    A vida é sempre um manual de História. Só que às vezes falta-nos o tempo para a contar. Gostei muito do teu texto!
    isabel said...
    Feliz dia!
    teresa said...
    Sim, gostei de te ler ;-) Gosto de ler e celebrar e reafirmar esta conquista dos nossos pais!
    isabel said...
    É isso mesmo, Teresa. Tão simples quanto isso. Vemo-nos hoje, todos?
    Daniela said...
    Existiu sim! Existiu e existe no coração de todos aqueles que acreditam nos valores da democracia e da liberdade. Não existe no coração, mas existe no dia-a-dia de todos aqueles que se usam dos valores conquistados, com os olhos fechados e a mente torpe... bem diz o povo que o maior cego é o que não quer ver e o povo tem muitas vezes razão. ;)
    Beijos, beijos de Abril.
    isabel said...
    D., bem-hajas assim, como és. Feliz Abril e Maio e Junho e sempre! Beijos
    antónio said...
    Lá estaremos hoje no sítio do costume para mais uma grande jantarada. Mais uma vez, vamos ter cantoria!

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