A História lava sempre mais branco

Nos jornais locais de hoje, dia 25 de Abril, é dada grande referência à edição do livro de António Oliveira Salazar, "Como se reergue um Estado". Não é que não se possa falar dele ou do que ele fez há bem pouco tempo atrás - porque os valores da História nem sempre se guiam pela cronologia do tempo - mas o que se vê cada vez mais é a tendência para o chamar, para o tirar do escaparate, como se ainda não estivesse morto. E não está na verdade, porque os clones da sua estirpe se multiplicam a um ritmo constante, a um nível celular. Como se só existissem dois tipos de Portugal. Aquele em que se vive com certa dificuldade, como os momentos de agora, ou aqueles de grande hegemonia Nacional, de que o longo período de António Oliveira Salazar ajudou a perpetuar, e que só serviram para tapar a grave crise de valores - tanto económicos como intelectuais - de que todo o país padecia nessa época. E parece que quando um falha, as pessoas se viram para o outro lado. Ou para o acusar ou para o venerar, como é agora o caso.

Há outro Portugal. Há o Portugal que renasceu com o 25 de Abril. A ideia de um país livre, em que as pessoas discutem abertamente as valências do seu progresso. É certo que os métodos aplicados nem sempre funcionaram. A descolonização foi um acto de desespero e as sobras do Antigo Regime nem sempre foram despejadas à luz do dia. Mas construiu-se, aplicaram-se novos valores, tentou-se levantar o país, levá-lo para longe. E é tudo muito bonito e tal.
No fundo, o Homem é fraco. Quebra com facilidade, muitas vezes ao primeiro embate, e olha para o seu vizinho com uma mão à frente e outra atrás. Desconfiado. Os portugueses, se se puder generalizar, são muito isso. Encolhem-se dessa maneira em quezílias que se perdem em coisa nenhuma. E na outra ponta lá está o fantasma de Salazar a acenar. Quase como uma (in)consciência nacional de infâmia. E então larga-se o país e dá-se de novo corda ao passado.
Em teoria é tão fácil "erguer um estado", basta para isso aplicar os ensinamentos da História. O que resultou noutros países, o que se fez, os caminhos que se cavaram. As Descobertas. E delas aquelas que vingaram. Olhar com clareza os factos e não para as novelas que correm pela mercearia do bairro. Parece simples, como se fosse só juntar água, na verdade não é bem assim.

Há uma intenção. Da descoberta desse filão, que aconteceu há pouco mais de dois anos, há a evidência de que a coisa vende. Sejam as "Vítimas de Salazar", sejam as mulheres ou a mais detalhada biografia. Há no mercado editorial, em Portugal e não só, para além da qualidade literária, uma constante e desesperada procura por esse novo tipo de Best Seller. Que tem tanto de personagens históricas como de ficção. Começou no "Código Da Vinci" e veio por aí fora. Um negócio rentável. António Oliveira Salazar, lá na sua pequena torre do tombo, insere-se em pleno nesta linha. A realidade é que esse facto faz levantar outras chamas, lança ventos que possivelmente vão desencadear tempestades.
O que importa, na ideia que me levou a escrever este post, é porque é que o livro de Salazar ocupa tanto espaço nos jornais locais de hoje, dia 25 de Abril? O que é a notícia neste caso? Que há a multiplicação dos pães a um ritmo gradual, implicando cada vez mais as virtudes e os sabores do Antigo Regime, na particularidade da sua figura mor? Ou que o lançamento de um texto de Salazar, trinta e três anos depois de 1974, tem realmente alguma relevância no quotidiano de um país e ainda por acrescento num território como Macau? O que se está a tentar fazer afinal, com esta máquina toda, limpar a História? Fazer crer que afinal a Ditadura Fascista não foi uma coisa assim tão má? Que até temos saudades e que já agora poderia vir mais uma? Que Salazar no fundo não era mau gajo? E mais:

Para o compreendermos, teremos de ler, com objectividade, o que deixou escrito. O texto que agora se publica é um documento histórico e programático de enorme valor: porque nos oferece uma síntese irrepetível das teses do autor, porque está redigido com uma clareza expositiva e com uma perspicácia analítica desarmantes, e porque nele a filosofia política do Estado Novo adquire a dimensão de um manifesto.
O que quer dizer com isto a editora Esfera do Caos? Que o que passou não está compreendido? Não está compreendido dentro de um talhão debaixo de terra lá para os lados de Santa Comba Dão? Que "Salazar tem de ser lido e relido, para que consigamos criticamente entender os sinais e as marcas, e até os apelos da sua «sombra»"?
Por favor, para quê perder tempo se há tanta coisa que merece ser lida e mesmo assim uma vida não nos chega. Para quê todo este desenterro?

3 Comments:

  1. isabel said...
    Gostei. Feliz dia. A vida não nos chega para ler tudo - essa é que é essa. Gostei. E por falar nisso, já lia o livro novo do Paul Auster ou do Rubem Fonseca, por exemplo.
    Bloom said...
    O novo Paul Auster é lindo, vem em inglês, numa edição fantástica de capa dura.
    O Rubem está quase quase a apanhar o avião. Com ele vêm mais mil e tal passageiros!
    Vamos fazer uma Revolução quando chegarem?
    No entanto, hoje ou amanhã, temos títulos novos, que já chegaram a Hong Kong, e que vêm ter connosco de barquinho!
    isabel said...
    E o Auster já chegou? Leva-o contigo hoje à noite, para o local do costume. Levas?

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