Found on the basket


The Happy Birthday
Can you read me?” – A ligação estava fraca, tão fraca, mesmo tão fraca. E apertada, não me posso esquecer disso, de como a ligação estava apertada. Não queria esquecer, também, de como tinha ido ali parar. Da verdadeira dimensão de todos os meus passos, a olhar o sol, a água fresca, sob uma poeira de aço, e sempre imóvel, nesse meu trajecto curvado. Levavam-me como uma pedra que se transporta dentro do sapato, sem se saber. E a fome que passei até conhecer o Gigante. É preciso que me lembre para sempre da fome. “Quero morrer”, repetia a toda a hora, “quero morrer”, pensava a atravessar a rua de olhos fechados, “quero morrer agora”, resmungava desejando mal ao chão. Era tudo mentira. Quando ia dentro de um autocarro e via alguém lá fora que não era mais do que eu próprio, de olhos fechados, a atravessar a rua, esquecia-me. Esquecia-me de quase tudo. Quando me via de cabeça vendada, esquecia-me, e olhava para quem estava ao meu lado, para quem me seguia no escuro. Um homem com os cabelos mal cosidos à testa, com as orelhas a caírem-lhe em demasia, as mãos presas aos cotovelos por um bocado de carne mole, desfalecida. Mas com um sorriso, um olhar de sorte, um desejo de destino que não sei dizer. Um pavor de não ser feliz, e ser feliz por isso, porque, sem alternativas, não havia outra maneira de o ser. E o homem espantava-me com aquela cara em desalinho, sem importância nenhuma, com os anos todos em cima do corpo despejado num banco qualquer. Eu a imaginar se me transportava no sapato, a tentar ver-me nas dobras da sua sola.
Nada.

Can you hear me?” – Não queria responder. Nem com um sorriso. Nem ao lembrar-me da viúva a amaciar a boca num creme seco de bolo e a olhar para mim com os dentes esquecidos no tabuleiro da cozinha. As gengivas a dizerem “Olá”. Ou se calhar a dizerem “olha lá, não queres ajudar-me a dar uma dentada?”. Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, a pensar que os dentes não me serviam para nada. Que não me importava o bolo, mas o sorriso apenas, com as suas pedras todas soltas. A sorte, sabia, estava para vir, amanhã, no dia seguinte, ou depois. “Deseja-se o destino que se deseja”, assobiava o motorista que me levava, no travão do seu sapato. Isso sabia eu. E sabia, que assim, nem se cumpria o que se desejava, nem nunca o que se desejava se iria algum dia cumprir. O que não era verdade. Também não importa, a verdade não existe. Nem a dor é real, nada é. A única verdade é que a realidade é o refúgio da imaginação. Onde ela se esconde. E mesmo isso sou só eu a dizer.
Eu não sei dizer.
Ground Control here, do you read?” – Os arrepios da linha, o caminho que não me importava, povoavam-me o coração com intimidades alheias, ajeitando-lhe os canteiros. Que parvoeira, as coisas que se dizem. A imperfeição da sua traça fazia-me feridas no peito, que de imediato se acorrentavam à pele. E o médico dizia “não há nada a fazer, é de lá, não está cá, já se foi…”. Eu que sonhava com um amor irrequieto, tão tolo que era, a jorrar uma sangria da cabeça aos pés. Eu que amava os meus sonhos, e apenas isso. Não enganava ninguém, por pensar assim. E adorava a realidade quando adorava os meus sonhos. Era só aí que ela se punha de pé e existia, escalando por mim acima. A realidade era uma mulher deitada na última carruagem que se mexia em fúria no topo do meu corpo. Só conhecia o meu nome, de o ouvir dizer, nada mais. Queria saber de que quem era a roupa que eu usava. Onde tinha arranjado o meu cheiro. Que poeira era aquela que girava sempre à minha volta. A mulher não tinha nome, fazia apenas parte do meu destino, uma fraca luz, a ser cumprido artificialmente com a ajuda da electricidade. E quando me fundia apagava-me na sorte do meu desejo. E que pior desejo. A ligação estava fraca. Apertada nos passos imóveis em que me deixava levar, com os cordões soltos, despejados à dentada numa cara qualquer. “Seriam beijos se beijar soubesse”, disse-me o doutor mais tarde. Esquecia-me de quase tudo. Tudo o que valia e não valia. E vinham listas do que sabia e do que não sabia. Do que era bom, do que era mau. Papéis que fui riscando e deitando fora quando perderam o uso. Gavetas cheias. Isto sim, isto não. Até chegar o Gigante.
Check ignition now” – rugiam uns monitores no lado de cá do espaço. “Can you hear me?” – e o som que não queria ouvir agarrou-se-me ao pescoço, aos sopros. Lembrava-me de repente que talvez pudesse estar surdo, que seria melhor se estivesse. O silêncio seria maior que o mundo, seria tudo, e aí podia olhar sem descanso para as mãos da viúva que cosia os cabelos de um homem na cabeça de um cão. Que lhe retirava os braços para os deixar cair na orla da testa. Quando tropecei no Gigante, todas as minhas folhas caíram e o mar deixou de prometer paz à terra. O sossego passou a ter uma voz estranha, cheia dos sussurros das marés. Perguntei-lhe pelo tempo que ele empurrava para trás e o espaço que nem lhe chegava aos pés. E esquecia-me do atravessar da rua, esquecia-me de lhe dizer “Olá”, esquecia-me do dia seguinte e do amanhã. Se a verdade existisse seria essa, ao menos teria um traço que revelaria as dimensões verdadeiras da vida para que me lembrasse sempre dela, esquecendo-a no imediato. Deu-me anos, o Gigante, coisas para recordar, sorrisos que nunca vou conseguir pendurar. Lembro-me dos cafés. De me sentar lá dentro. De abrir a porta para os pássaros poderem voar. O creme seco dos bolos a escorrer-me do bico, de olhos virados para o Gigante. Na primeira manhã o sol perdeu-se no branco e saltou por entre as árvores. O céu desfez-se em azul e o aço da poeira fugiu.
I can read you”, respondi, “I can hear you”. A linha não estava cortada, estendera-se, clara como a água fresca, e comecei a flutuar com o passo firme. Eu sei para onde vou agora, sei que vou tomar o caminho mais longo, mas nada disso importa. O Gigante vem dentro de mim no banco de trás da carruagem a seguir o meu próprio caminho. Acima de qualquer tempo, acima de qualquer sentir. No café todos falam, todos gritam. Percebo-os finalmente, são apenas gente, fazem apenas parte do espaço, do campo que não é meu mas que, por ser igual, por ter uma forma idêntica, frequento. Interessam? Talvez não. A imaginação poderá dar-lhes um disfarce real mas o que sobra é apenas a roupa que vestem e o cheiro que têm. O seus únicos refúgios. Nem na aparência de um tronco de árvore conseguem sobreviver. Mas estendidos na relva com o Gigante o ar salta de uma outra forma. Para sempre.
PUBLICADO NO JORNAL HOJE MACAU EM 13-MAI-2005

2 Comments:

  1. Fran said...
    I read you - por frases que nos agarram violenatemente e que fazem conosco o que quiserem. Revirando nos especialmente de cabeca para baixo, para vermos o mundo ao contrario.
    I heard you - na gruta dos ecos cardiacos pelos passos que ainda estao por dar!
    Muito bem escrito!
    Fran said...
    A dimensao das palavras de aparencia invisivel, pode ser tao forte que nos faz parecer tao fracos,
    e das vezes em que nao sucumbimos a essa fraqueza menor, tentamos agarra-las a cair dessa arvore semeada de imaginacao, e essas palavras fogem nos por entre os dedos, quando nos julgamos proprietarios delas, quando as julgamos agarrar. Assim acontece, com rara frequencia. Detesto repetir me mas este sem duvida e o melhor texto que (re)li vezes sem conta.

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