Inocentes e Culpados no mesmo "Pátio Maldito"

«Este ‘Pátio’ foi publicado pela primeira vez em 1955 e ao autor jugoslavo foi atribuído o Nobel da Literatura em 1961. Traduzido em duas dezenas de línguas, chega agora a vez da língua Portuguesa tomar contacto com um romance que nos conta a história de Frei Petar, um monge bósnio cristão que por engano é preso e encarcerado na prisão que sofre de pior reputação em Istambul (Turquia): ‘O Pátio Maldito’. Este local é dominado pelos Império Otomano e aqui cruzam-se, diariamente, toda a espécie de gentes: assassínios, conspiradores, violadores, ladrões e algumas pessoas oriundas das várias classes sociais, mas que estão inocentes. Tal qual Frei Petar. “Raras são as noites calmas. A escumalha de Istambul, os durões que não receiam os guardas e não ligam a ninguém, cantam cantigas obscenas e gritam propostas desavergonhadas aos seus amantes nas celas vizinhas. Homens invisíveis que disputam um lugar para dormir; os roubados agonizam por socorro. Quando dormem, uns ragem os dentes e bafam, outros estertoram e roncam como degolados”. E é assim, neste ambiente degradado, que o frade vai ouvindo e conhecendo as histórias e estórias dos seus companheiros de infortúnio. Aos poucos, a sua voz vai-se perdendo no meio da multidão porque esta multidão de agonia é preenchida com relatos dramáticos e, principalmente, com mentiras e perspectivas diferentes de conceitos básicos como Justiça, Realidade e Frontalidade.»
Sofia Rato in Domingo Magazine / Correio da Manhã

Ivo Andrić, prémio Nobel de Literatura, nasceu na Bósnia em 1892. Desde jovem mostrou grande interesse na política da sua época. Torna-se membro do movimento nacionalista progressista Mlada Bosna (Bósnia Jovem), e chega mesmo a ser preso por suspeita de conspiração no assassinato do Arquiduque Francisco Fernando, que despoletaria a I Grande Guerra. É dentro dos muros da prisão de Maribor que «humilhado como um verme» escreve os seus primeiros poemas em prosa.
Este livro, considerado a obra-prima de Ivo Andrić, único prémio Nobel jugoslavo, é uma notável metáfora sobre a harmonia entre os homens em condições adversas. No estilo que o celebrizou, Andrić descreve os processos pelos quais a História se entranha na vida dos indivíduos e neles se reflecte, num eterno jogo entre o particular e o universal, ao mesmo tempo que põe a nu a raiz dos conflitos que têm assolado os Balcãs ao longo dos séculos.

Um livro de inquestionável valor que pode encontrar na Bloom.

"O Pátio Maldito", de Ivo Andrić - Editora Cavalo de Ferro - ISBN: 9728791062 / 2003

2 Comments:

  1. senhor manel said...
    é bom ver estes livros na livraria mais bonita a leste dos pirenéus ;)
    Público said...
    CULPADOS E INOCENTES NO "PÁTIO MALDITO"
    in Público - MilFolhas - Sábado, 31 de Maio de 2003
    por Pedro Caldeira Rodrigues
    Quando concluiu o "Pátio Maldito", com 62 anos, Ivo Andric já era um escritor respeitado na sua Jugoslávia natal. A consagração mundial surgirá sete anos depois, em 1961, quando a Academia Sueca lhe decide atribuir o Nobel da Literatura.
    Neste pequeno mas denso romance, que começou a escrever em 1928 e terminou em 1954, o grande escritor jugoslavo transporta-nos para as extraordinárias aventuras de frei Petar, monge católico da Bósnia, transmitidas a um discípulo que as recorda após a sua morte, e quando numa sala contígua do mosteiro, num dia de Inverno, dois outros monges inventariam com avidez o espólio do defunto.
    A partir de um equívoco - a abusiva prisão de frei Petar, "relojoeiro, espingardeiro e mecânico afamado", e o seu envio durante quatro meses para o "Pátio Maldito", uma prisão de Istambul transformada em microcosmos social onde se cruzam todos os géneros da natureza dos homens -, o livro transporta-nos para a complexidade dos Balcãs no decurso do domínio turco otomano. Apesar de em Andric, a velha, meio-oriental e legendária Bósnia onde nasceu sempre ter constituído o tema predilecto da obra deste extraordinário contador de histórias.
    A saga de frei Petar é afinal uma alegoria, e o livro é considerado por muitos críticos a "quintessência" da sua arte, onde personalidades históricas e ficcionadas surgem em histórias dentro da história, dando origem a um texto de muitas vozes.
    O "Pátio Maldito" constitui ainda uma reflexão sobre o crime e a redenção, a relatividade da vida e das coisas, o risco da loucura ou a obsessão da morte, a arbitrariedade e a perversão do poder. Tudo num ambiente balcânico, "pré-oriental", porque nesta prisão da recém-conquistada Constantinopla se cruzam homens de diversas etnias e religiões subjugadas pelo Império da Sublime Porta. Arménios, judeus, georgianos, gregos, turcos, sírios, libaneses, bósnios, ainda turcos, uns muçulmanos, outros católicos, outros ortodoxos.
    Esta complexa rede de histórias, na sua maioria contadas pelos prisioneiros, adensa uma atmosfera onde a loucura se começa a apossar dos homens, onde os inocentes se tornam culpados e os culpados inocentes. "Circunstâncias loucas e apenas possíveis em épocas turvas, quando o poder já não distingue um justo de um culpado."
    Filho de pai turco e de mãe grega e nascido em Esmirna, a história de Kâmil-Efêndi domina o romance, ou melhor, a novela. Um jovem muçulmano educado e culto, que frei Petar conhece neste local de maldição, e que acaba por sucumbir a uma cabala que ele próprio alimenta na sua imaginação e desespero, porque possuído de uma sensibilidade impossível de conciliar com a mesquinhez do mundo real.
    Kâmil, que acabará por exercer uma enorme influência no monge católico bósnio, confunde o seu trágico destino, identifica-se nos seus sonhos, nas suas investigações eruditas, com Djem-sultão, irmão mais novo e rival do sultão Bayezid II. Motivo para desconfiar que Kâmil tecia uma conspiração contra o sultão-tirano no poder, sendo ordenada a sua prisão. Uma obra intemporal, uma antecipação do "Gulag", de "Guantanamo"... Não podem existir inocentes porque todos os inquilinos do "Pátio Maldito" cometeram necessariamente uma falta, mesmo que num sonho, como sugere Karagöz, o antigo rebelde, o "fora-da-lei" que se tornou o zeloso administrador do complexo...
    Destaque-se ainda a excelente tradução deste livro, pela primeira vez saído à estampa em Portugal, a partir do original em servo-croata. Lúcia e Dejan Stankovic, já com uma importante experiência nestas lides [...], confirmam o seu rigor, empenho, gosto literário, conhecimento do autor e respeito pelo estilo que o celebrizou. Aguardam-se as próximas edições das obras de Andric, com a chancela da surpreendente e bem aparecida Cavalo de Ferro.

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