As Minhas Memórias (24)

O meu primeiro dia de aulas tornou-se numa experiência inesquecível. Dei comigo no estrado da aula ao lado da minha secretária de braços cruzados encarando uma classe de trinta e quatro miúdos aos gritos, saltando por cima das carteiras e atirando coisas uns aos outros. Se estavam à espera de que eu desse um berro e os mandasse sentar, bem podiam esperar. Eu achava que eles sabiam muito bem onde estavam e acabariam por tomar consciência da sua posição. E de facto passado algum tempo, um deles olhou para mim de soslaio e vendo-me de braços cruzados espectante, sentou-se na carteira. Não tardou muito que outro lhe seguisse o exemplo e em breve estavam todos sentadinhos e a olhar para mim. Então mexi-me e disse: - Ora muito bem!
E apontando para um deles perguntei: - Como te chamas ?
Ele respondeu e eu apontei para outro e fiz a mesma pergunta. Assim, um por um, fui perguntando o nome de todos eles.
Depois comecei por fazer um ditado do primeiro texto do livro de leitura. Quando cheguei ao fim tinha trinta e quatro ditados para corrigir e então lembrei-me de fazer uma experiência.
Mandei que cada um escrevesse o seu nome na capa do caderno. Depois ensinei como se corrigia um ditado. Por debaixo de uma palavra errada punha-se um traço. No sítio onde faltasse uma palavra, punha-se uma cruz. No fim, no alto da página escrevia-se quantos erros e quantas faltas.
Em seguida recolhi e redistribuí todos os cadernos e cada um passou a corrigir o ditado de um colega.
Adoptei esta prática todos os dias no início da aula. No segundo dia tinha comprado trinta e quatro canetas vermelhas para distribuir e as correcções dos ditados agora eram todas feitas a vermelho. Também fiz concursos de leitura. Três ou quatro liam um mesmo texto em voz alta e no fim todos davam os seus pontos entre zero e cinco a cada um dos leitores.
Havia quatro filas de carteiras na aula e assim eu determinei que na fila da esquerda se sentariam os mais fracos e na fila da direita os mais classificados. Era muito curioso ver os esforços que cada um fazia para sair da fila da esquerda.
Com tudo isto ao fim de uma semana apareceu na aula o Director da Escola que queria ver como estavam a correr as coisas. Chamou um aluno ao quadro e mandou-o escrever "Eu sou bom aluno."
Ele escreveu sem erros e o padre ia dando um salto de espanto. Chamou outro e ditou outra frase: "Eu gosto de estudar". Este também escreveu correctamente. E entao o senhor Director disse-me: - No fim da aula venha ao meu gabinete que quero falar consigo.
Assim fiz e levei aquilo a que na gíria popular se chama uma caixa de charutos. - Você está doido. - Dizia-me ele. - Você vai esgotar a cabeça dos miúdos. Eles não podem saber tanto em tão pouco tempo.
Pacientemente expliquei que eu não tinha obrigado ninguém a aprender. Eles aprenderam naturalmente e por estímulo próprio. Nunca castiguei um aluno nunca forcei nenhum a nada.
E , de facto era surpreendente a capacidade de aprendizagem daqueles garotos, orfãos, que vivam no Colégio D. Bosco ao cuidado dos Salesianos.
Uma outra coisa que instituí foi a lei do carolo. Eu descobri que no recreio, uns com os outros falavam em chinês. O carolo era um soco dado com a mão fechada no alto da cabeça. Muitos padres usavam isso como forma de castigo. Eu propuz que algum dos meus alunos que ouvisse um colega a falar chinês, me viesse dizer, porque adquirira o direito a dar um carolo no prevaricador. Fazíamos uma roda com todos no pátio do recreio e eu perguntava: - Estavas a falar chinês? Ele dizia que estava e então o colega que o denunciara chegava ao pé dele e dava-lhe um carolo. Isto durante algum tempo não funcionou até que um deles estava de raiva com o colega e fez a denúncia. O que levou o carolo em breve estava a denunciar outro e assim por diante até que se acabou definitivamente com as conversas em chinês entre eles.

3 Comments:

  1. Luísa said...
    Oiça lá, essa história do carolo não é nada pedagógica nem motivo de orgulho da sua capacidade de ensino. Isso mais parece um dos métodos utilizados pelo Antigo Regime. E incitar a denúncia é uma coisa muito feia.
    eurico said...
    Pois é. Mas a verdade é que eles davam carolos, pontapés, e socos uns nos outros e sem qualquer utilidade ou objectivo. O que eu achava mal e continuo a achar era que os educadores dessem carolos, reguadas e utilizassem todas as formas de castigos corporais para educar A denuncia que faziam e os carolos que davam ficava entre eles e resultou. Ensinavam-se uns aos outros que para serem portugueses, andar numa escola e passarem de classe, tinham de falar portugues entre si.
    eurico said...
    E sinto-me orgulhoso sim, quando todos os meus alunos examinados por um professor oficial no fim do ano, paasaram para a terceira classe. E tambem quando anos depois, em Moçambique, um agente técnico de engenharia que estava a trabalhar numa obra, se chegou ao pé de mim e perguntou:- Não se lembra de mim? Quando lhe disse que não êle respondeu-me:- Fui seu aluno em Macau no Colégio D.Bosco.

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