As Minhas Memórias (20)

Por intermédio de um antigo companheiro meu que era sargento conheci nessa altura um coreano que me pediu se podia ajudá-lo. Por vezes estas coisas acontecem caídas do céu quando menos se espera. Pretendia ele que eu arranjasse pessoas de confiança dispostas a passar uma semana de férias no Japão, num Hotel de primeira classe, com todas as despesas pagas. A viagem era de barco, ida e volta, com partida de Hong Kong e a única condição imposta era que o beneficiado levasse, em vez da sua mala, uma mala guarda-fatos. Ofereci essa regalia a um alferes meu amigo, que aceitou com muito gosto. Fui assistir ao seu embarque em Hong Kong e não houve quaisquer problemas. Nem sequer lhe revistaram a bagagem. Quando voltou, vinha encantado. Tinha desembarcado em Kobe. Estava um táxi à sua espera, que o levou para Tóquio.
À sua chegada foi recebido por um cavalheiro muito simpático que deixou sozinho no quarto do Hotel enquanto foi dar uma volta pela cidade. Passado uma hora voltou. Estava tudo em ordem e lá ficou a sua semana de férias. Adorou o Japão.
Pouco tempo depois este processo foi repetido. Desta vez com um capitão. Por cada candidato eu recebia uma boa quantia. E foi mais outro e outro até que eu tive a ideia de dar essa viagem a um amigo meu que era refugiado de Xangai. Só tinha trabalho esporádico e uma viagem ao Japão ajudá-lo-ia a levantar o seu moral. Pensava eu. Porém, quando embarcou em Hong Kong, pela primeira vez e estranhamente, foi chamado pelos altifalantes e acompanhado até ao seu beliche por funcionários da alfândega que lhe inspeccionarem a bagagem. Não encontraram nada e seguiu viagem, mas eu fiquei desconfiado. Quando veio mais uma mala guarda-fatos para levar para o Japão, decidi que não mandaria ninguém e iria eu.
Convém agora explicar um pouco do que estava por detrás deste negócio.
Acontece que comerciantes de Hong Kong exportavam grandes quantidades de seda chinesa para a Suíça. Os suíços por sua vez estampavam essa seda e exportavam-na para todo o mundo como sendo seda suíça. Essa seda era paga a Hong Kong, não com dinheiro mas com mecanismos de relógio de homem e de senhora. O único cliente para essas máquinas era o Japão, mais propriamente a TIMEX que fazia as caixas para esses mecanismos e os exportava para todo o mundo como relógios japoneses.
Porém, para o negócio ser compensador, essas máquinas de relógio não podiam pagar as pesadas taxas alfandegárias que o Japão aplicava a tais materiais.
Daí, um empresário de Hong Kong, que por sinal era Director de um Banco, e que tinha uma fábrica de malas guarda-fatos, começar a fazer umas malas que em vez de ter um fundo de madeira sólida tinham um fundo de contraplacado em cima do qual se dispunham as máquinas de relógio cobertas depois com outra folha de contraplacado e assim o fundo da mala, forrado com pano de cor, ficava igual aos fundos feitos com tábua grossa.
Conheci bem esse director do Banco e jantei em casa dele na companhia da sua esposa e do amigo coreano que mo havia apresentado. Era uma pessoa extremamente gentil e simpática.

1 Comment:

  1. Vicente said...
    O que vale é que o Eurico dá sempre a volta ao acontecimento. Esta dos relógios não lebra ao Diabo.

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