Entrevista a Cristiano Ronaldo - take 1

Depois do telefone chamar quatro ou cinco vezes vezes alguém do lado de lá atende.
- Allo, Cristiano? Cristiano Ronaldo?
- Não!
- Não?! - A organização do evento tinha-me dado, em exclusivo, o número privado do jogador, o do telemóvel de Inglaterra. Achava eu.
- Não, daqui não é o Cristiano Ronaldo. Sou eu, o Manel.
- Manel? Manel quê? Não sei de nenhum Manel que tenha vindo na comitiva do Manchester United.
- Pois, não deve estar bem informado, nunca se pode ter a certeza de tudo.
- Mas... e o Cristiano, está aí? Posso falar com ele? Diz-lhe que é para a tal entrevista. Ele sabe o que é. Está tudo arranjado. - Não estava nada arranjado. Tenho este tique de tratar as pessoas por tu logo à partida, sem mais nem menos, e às vezes ficam melindradas.
- O Cristiano não pode. - Ouviam-se uns barulhos lá atrás. Alguém aos gritos ou coisa assim.
- Não pode? Mas não pode como? Não pode não poder. Falo da Bloom. Somos uma livraria em Macau. Também fazemos outras coisas e tal... temos um Blog e às vezes escrevemos. - Na verdade tenho pouca paciência para futebolistas. Saber o que é que fazem, o que comeram ao pequeno almoço, ninguém lhes faz as perguntas certas. Depois eles não sabem falar. Atropelam-se.
- Agora não dá. Com licença...
- Espere, espere... - Talvez o trato seja importante para esta gente, não estou habituado a entrevistar pessoas, nem muito menos pelo telefone. - E o Carlos Queiroz, não está aí?
- Não! O Carlos também não está. Saiu. Ligue mais tarde! - Não me apetecia nada ligar mais tarde. Nem muito menos falar com o Carlos Queiroz, ainda bem que ele não estava.
- E o outro puto? Como é que ele se chama? Ná... qualquer coisa. Ouvi dizer que ele andava nervoso. Que anda em pulgas para meter o pé na bola. É verdade? Passa-lhe o telefone que eu acalmo-o. O Ná... quê?
- Nani! É, o puto ainda não tocou na bola. Só o deixaram vestir a camisola e calçar as chuteiras. - Talvez este Manel até desse uma boa entrevista. Ao menos sempre podia escrever qualquer coisa à conta dele.
- Mas diz-me lá, Manel, o Cristiano, lá em Inglaterra, que livros é que ele lê? Achas que ele é gajo para ler um Bukowski, um Camus, ou é mais autores portugueses. Aquela gaja, a Margarida Não Sei Quantas. O VItor Espadinha? - Hmmm, não tenho muito tempo para isto. Perco um bocado o senso e o meu telefone, vai não vai, fica sem bateria.
- O Cristiano não lê. Quer dizer, lê umas revistas, lê coisas da bola, uns mexericos e assim. Mas nunca dei com ele agarrado ao James Joyce.
- E o Juan Rulfo, achas que ele gostava de ler um Juan Rulfo?
- Na... Sabe aqui também não dá muito jeito andar com livros. Parece mal. Ficam a achar que são mais espertos que os outros ou que são maricas. Os jogadores de futebol não se agarram muito aos livros, gostam é de copos e de gajas e isso. Saem do jogo vão sempre dar umas curvas com umas gajas e assim.
- Aah, pois, está certo. E o Harry Potter, achas que o Cristiano conseguia falsificar a assinatura do Harry Potter e assinar uns quantos livros para nós?
- Falsificar a assinatura do Harry Potter? Para quê? - Este Manel não era do tipo visionário, de ter grandes ideias e eu acabava de ter uma daquelas estrondosas.
- Para quê?! Já viste o que é vender livros assinados pelo Harry Potter?
- Mas o Harry Potter não existe. É um boneco.
- Não existe, mas o Cristiano Ronaldo existe, e já viste o que é ele assinar os livros pelo Harry Potter? Com a mesma letra? Já viste? - Grande ideia, às vezes até fico espantado.
- Mas o que é que o Cristiano tem a ver com isso? Porque é que não assina você... ou eu? Se quiser eu assino-lhe os livros.
- Mas nem tu nem eu somos o Cristiano Ronaldo. Percebes? Nós não somos o Cristiano Ronaldo por isso não podemos fazer as coisas que ele faz. - O Manel não a sabe toda. Não a sabe mesmo toda. A esta hora deve estar com os fusíveis todos entupidos.
- E as pessoas... as pessoas que comprassem os livros... como é que elas sabiam que tinha sido o Cristiano a assiná-los? Se calhar gostavam mais de ter um autógrafo dele do que do Harry Potter, não é? Você não bate muito bem da bola, pois não? - Olha quem fala.
- Mas ninguém precisa de saber, essa é que é a vantagem, ninguém precisa de saber e enganamo-los a todos. Isso é que é a grande ideia, enganamo-los a todos! E só nós é que sabemos. Só a BLOOM é que tem ideias dessas. Depois, na devida altura, desvendamos o mistério e, com um bocado de sorte, até pedimos ao Cristiano Ronaldo para escrever o resto da saga do Harry Potter. O oitavo episódio e os outros. Isto porque quem é capaz de fazer a assinatura do Harry Potter é capaz de escrever o livro todo. - Até me rio com estas coisas. Com a esperteza.
- E como é que sabe que ele é capaz de assinar da mesma maneira que um boneco?
- Não é um boneco, é uma personagem de ficção. Eu já vi o Ronaldo, uma ou duas vezes, a jogar futebol, até marcou uns golos e tudo, e quem joga dessa maneira é capaz de fazer qualquer coisa. Percebes? - Parece que não estava lá muito convencido. Nem ele nem eu.
- Ok. Então ligue mais tarde.
E desligou.
Se calhar, se me apetecer, até sou capaz de ligar mais tarde.

1 Comment:

  1. Luis said...
    Então essa entrevista? Sempre telefonaste novamente ao Cristiano Ronaldo? Que é que ele disse?

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