As Minhas Memórias (35)

A primeira coisa que o meu irmão me perguntou depois de sair do hospital foi: - Do que precisas tu para ser totalmente independente? E eu expliquei-lhe que precisava de uma máquina de filmar profissional - uma ARRI de 35 milímetros. E ele perguntou se não havia nenhuma na África do Sul que pudéssemos comprar. Eu disse-lhe que as máquinas profissionais são encomendas directamente ao fabricante por quem precisa delas para trabalhar e de repente lembrei-me que em Lourenço Marques havia uma máquina de filmar profissional encomendada pelo Senhor Alves da Silva, dono do Hotel Aviz, que em tempos tinha pensado criar uma empresa produtora de filmes, mas tinha acabado por desistir da ideia. Contudo tinha um tal amor à sua ARRI que todos os dias ao anoitecer, a punha em cima da sua secretária e cuidadosamente a limpava do pó e de toda e qualquer sujidade. Nunca quisera alugar a máquina, vendê-la ou emprestá-la.
Disse tudo isso ao meu irmão e ele disse-me: - Apresenta-me o Senhor Alves da Silva.
E eu assim fiz. Fomos ao Aviz e apresentei-o ao proprietário do Hotel.
Falámos de milhentas coisas, mas não de cinema...
Passada uma semana o meu irmão veio ter comigo e diz-me: - Achas que podes pagar a máquina do Alves da Silva em prestações de cinquenta contos?
E eu respondi: - Isso seria uma maravilha! - Então vai ao Hotel Aviz buscar a máquina. - disse-me ele.
Nem piei. Fui ao Hotel Aviz, o Senhor Alves da Silva deu-me uma série de letras para eu assinar e trouxe a máquina.
A seguir o meu irmão diz-me: - Agora para pagar a máquina precisamos de um cliente. E foi descobrir que a Construtora do Tâmega estava a construir uma barragem no Rio dos Elefantes, em terra compactada com o comprimento de cerca de cinco quilómetros de extensão e que iria criar um lago com cerca de duzentos quilómetros quadrados de área. E assim vendeu um documentário à Construtora do Tâmega, que me pagava mensalmente para acompanhar o desenrolar da obra e no fim, o valor contratado para a feitura final do documentário.
Seguiu-se um período de prosperidade até que fui convidado para um beberete no Hotel Polana onde iriam estar presentes algumas altas personalidades do mundo empresarial.
Como fui sempre fraco em matéria de relações humanas achei que seria mais útil e proveitoso se mandasse o meu irmão e assim cometi o mais grave erro em toda a minha vida.
Mandei o meu irmão com a minha mulher para esse beberete.
Quando voltaram a minha mulher disse-me: - O teu irmão bebeu mais de oito whiskies sem água.
E a partir dessa altura foi um inferno. Todos os dias o meu irmão bebia doses incríveis e depois ia embirrar com a minha mulher ao ponto de eu chegar à conclusão que por este caminho acabaria por perder a mulher ou o irmão.
Optei por perder o irmão e convidei-o a sair de minha casa. Ele saiu e foi trabalhar para o Courinha Ramos.
Das minhas recordações que antecederam este periodo recordo o tempo em que montei uma espécie de estúdio de alta fidelidade para a Agência Mercantil e onde durante algum tempo fiz demonstrações com aparelhagens de diferentes marcas de alta fidelidfade para um grande amigo meu e que foi meu sócio na Filmlab, o Fernando Ramos, director de vendas daquela empresa.
Também montei a cabine de um novo cinema pertencente aos irmãos Rodrigues que já tinham dois outros cinemas, o MANUEL RODRIGUES, e o GIL VICENTE..
Quando construiram este novo cinema, o INFANTE, resolveram instalar novas máquinas de projecção no Manuel Rodrigues para projectar filmes de 70 milímetros. Nessa altura estavam na moda, estas projecções enormes quase envolventes dos espectadores.
Assim desmontei as máquinas de 35 milímetros do Manuel Rodrigiues e montei-as no cinema Infante. Instalei novas lentes ZEISS, fazendo uma projecção brilhante (porque aumentei a amperagem dos arcos voltaícos produtores de luz) e nítida cobrindo toda a largura do tela que tinha dezasseis metros. Na entrada montei altifalantes de alta fidelidade que davam música viva.
No fim, o Senhor César Rodrigues queria que eu ficasse como chefe de cabine. Eu tinha um ajudante, o Victor, a quem ia ensinando tudo o que sabia sobre cabines de projecçao. O chefe de cabine do Manuel Rodrigues foi então dizer ao Senhor César Rodrigues que eu não podia ser chefe de cabine porque não tinha o certificado obrigatório de electricista para o desmpenho dessas funções. Por isso fui ao respectivo serviço, fiz o exame, e recebi o tal certificado de electricista. Assim fiquei por alguns meses e projectei inumeras sessões com um filme do Cantinflas, cujos diálogos o meu ajudante até já sabia de cor.
Pouco tempo depois saí do Infante e deixei o lugar de chefe de cabine ao meu ajudante Victor e entreguei-me ao trabalho de um cinema ambulante. Percorri Moçambique de Norte a Sul e dei cinema para aldeias de africanos nos mais distantes e escondidos lugares do território. Andei de carrinha, milhares e milhares de quilómetros, e quantas vezes já altas horas da noite, depois de uma sessão numa aldeia e quando nos deslocávamos para chegar a outra antes do romper do dia porque nessa altura começaríamos logo a anunciar pelos altifalantes da nossa carrinha que logo à noite haveria cinema, cansados e cheios de sono, encostávamos a carrinha na beira da estrada ou da picada e batíamos uma soneca.
Acabei por fazer amizade com um dos administratores do território o Rocha Ribeiro a quem perguntei, quando foi nomeado administrador de Morrumbene, como podia ele administrar um território maior que Portugal, com imensas aldeias de agricultores que só falavam changane, quando ele não sabia uma só palavra daquela língua: - Não tem nada de especial... Eu só tenho que me entender com um moçambicano que por sinal até fala muito bem português, e até tem a filha a estudar farmácia em Portugal, que é o Régulo. O Régulo é que é o chefe tradicional que todos respeitam.
Esta conversa muitas vezes trouxe-me à ideia a grande diferença entre o colonialismo inglês e aquilo a que chamaram o colonialismo português. Só que nós, no meu entender nunca colonizámos ninguém. Das minhas andanças com o Rocha Ribeiro não esqueço uma vez que me levou a um campo de trabalho onde estavam alguns prisioneiros trabalhando. Entre eles andava um rapaz bem parecido e a quem eu curiosamente perguntei porque estava preso. E ele respondeu-me: - Eu matou meu pai...
Eu fiquei boquiaberto: - O quê???? Mataste o pai?
E ele explicou: - Sim... Eu matou meu pai. Eu era casado... tinha um filho... Gostava muito deles... Minha mulher fugiu... levou meu filho. Eu fui falar com o feiticeiro que me disse: - Teu pai não gosta tua mulher. Enquanto teu pai for vivo tua mulher não volta para ti... Então eu matou meu pai.

3 Comments:

  1. Zé V. said...
    O Senhor deve ter bichos carpinteiros não consegue parar quieto num lugar ou num emprego, tem de arranjar logo outro... chateia-se é?
    eurico said...
    Saí de todos os empregos que tive para não ter de pctuar com a minha consciência, excepto como professor do Colégio D. Bosco porque não quiz submeter os meus filhos a insegurança que previa se iria viver em Macau. Saí para fugir.
    eurico said...
    Eu quiz dizer para não ter de pactuar com a minha consciência é que saí dos empregos que tive a nivel de funcionário do Estado. Eu pensava que as minhas razões tinham ficado bem claras.

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